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João de Sousa

Quinta-feira, Dezembro 1, 2022

Os possessos

Christiane Brito, em São Paulo
Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

“Se S. acredita, ele não acredita que acredita. Se ele não acredita, não acredita que não acredita.”

(Dostoiévski, “Os possessos”; cena do filme de Andrzej Wajda)

Todos os heróis de Dostoiévski questionam-se sobre o sentido da vida. Como muitos de nós. São modernos, não temem o ridículo. As tramas nutrem-se de problemas morais, alcançam tal intensidade que só admitem soluções extremas.

A opinião é de Albert Camus, que adaptou “Os possessos” para o teatro. É minha também.

Não há conflito raso no autor russo, o leitor tem que mergulhar muito fundo e trazer à tona a essência, sempre encoberta pela história.

No caso de “Os possessos”, jovens de uma pequena cidade russa insubordinam-se e querem a “revolução” pela violência. Um dos personagens, humilhado e ridículo na absurda condição humana, que conhece há tempos, decide suicidar-se, mas em combate, como quem defende a causa. Que não defende.

Juventude perdida

Transpondo para tempos atuais, flagro-me descrente e nada bélica. Não cabe indignação, porque quando parto para a ação a teoria já é outra, as conspirações não se confirmam e outras se apresentam.

A Ciência, não explica, acaba em hipótese, a lucidez obscura culmina em metáfora, a incerteza resolve-se em obra de arte. Essa última é o espelho onde me busco, e não descambo para a política porque se tornou um animal assassino e mítico de Harry Potter.

Derrotada na cama, não durmo, arregalo os olhos, pergunto por que tanto esforço, faço coro com Camus: “As linhas suaves da colina e a mão da noite neste coração agitado me ensinam muito mais.”

Se a morte é o fim, não capto o mundo. Lambo a ponta do dedo, que desliza, delineando o contorno do mundo, sigo delicada e longamente com o dedo, rugosidade, forma, relevo, do que me salva nada saberei. Mas é bom!

Que condição é essa em que nos metemos que só podemos ter paz quando nada sabemos ou fazemos. Minha arma é o pensamento, não tem bala no tambor. Não temo. Mas, ai, o querer, esse suscita paradoxos. Me tira do sério no melhor sentido.

Meia-idade

Imagina a meia-idade, tudo está arrumado para que nasça uma paz envenenada que a indolência, o sono do coração ou as renúncias mortais oferecem. É o buquê de flores da morte que se anuncia.

E o que significa a vida em tal universo A indiferença e a paixão de esgotar tudo o que é dado. Neste ponto, sejamos simplistas, o mundo proporciona sempre a mesma soma de experiências a duas pessoas que vivam o mesmo número de anos. Cabe a nós ter a consciência disso. Sentir o máximo possível sua fé, sua revolta, sua liberdade (ainda que cheia de limites), é viver o máximo possível.

Assim, em todos os dias de uma vida sem brilho, o tempo nos leva. Mas sempre chega uma hora em que temos de levá-lo. É a morte para a qual fomos feitos.

Biografia do Tempo

Se fosse preciso escrever a única história significativa do pensamento humano deveria ser a de seus arrependimentos sucessivos e de suas impotências. Ela nos redimiria e daria a chance, ilusória, de volta ao começo. E tudo seria quase como antes. Variáveis existem e são para serem reconhecidas.

A luta

Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos têm um começo ridículo. Muitas vezes as grandes obras nascem na esquina de uma rua ou na porta giratória de um restaurante. Absurdo assim. O mundo absurdo, muito mais que outro, obtém sua nobreza desse nascimento miserável. Estou esperando o ridículo para agir grandiosamente, já que contemplação demais já me cansou.

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