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Terça-feira, Outubro 4, 2022

Os refugiados das Honduras e uma certa decência da Europa

Carlos de Matos Gomes
Carlos de Matos Gomes
Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz

Desde a guerra da Síria e do assassinato de Khadafi a Europa vive a chamada crise dos refugiados, milhares de desprovidos de tudo, de desesperados, que chegaram às fronteiras da Europa vindos uns dos conflitos do Médio Oriente e outros das fomes de África. Muitos morreram nas travessias, mas nenhum líder europeu, nem a opinião pública europeia, se atreveu a apresentar como boa a resposta a estes desesperados fugitivos o envio de unidades militares com ordem para disparar contra eles. Pelo contrário, as marinhas nacionais procuraram recolher os refugiados, os náufragos, acolhê-los, assim como organizações dos Estados e das sociedades europeias. A opinião pública europeia ficou chocada com a imagem do corpo de uma criança morta, numa praia grega. Na América de Trump seria tomada como uma criança palestiniana morta por tropas de Nethanyahu, um futuro terrorista.

A Europa política está a lidar bem com a questão dos refugiados? Não. Mas nem húngaro neofascista Orban, nem o actual capo da  Liga do Norte de Itália se atreveu a mandar a tropa disparar, como o americano Trump!

Nós, a maioria dos europeus, com hesitações e contradições estamos até agora no lado do humano contra a bestialidade. É bom que a maioria de nós tenha consciência de que estamos no lado que nos distingue como seres morais, do lado da civilização. Que aprendemos com a nossa História.

A bestialidade é ter Trump como fonte de ideologia e exemplo a seguir. É ter Trump como um semelhante. Há quem seja semelhante a ele. Mas na Europa há muitos que recusam ser.

Os refugiados que têm chegado à Europa são criações da estratégia americana de desestabilização de regiões em disputa. Os refugiados sírios e os refugiados africanos são criações da estratégia americana para o Médio Oriente e para o norte de África, com o conluio de homens que eles compraram e que se lhes venderam, Blair e Sarkozy, homens a soldo, para simplificar. Mas, mesmo esses cônsules americanos não se atreveram a mandar os seus soldados disparar contra os refugiados, ou migrantes.

A Europa, mesmo a Europa dos escroques, manteve um fundo de dignidade. A desumanização ficou restrita ao estado de Israel, para confirmar que a maldade de que falava Hannah Arendt não morrera nos campos de concentração alemãs ou polacos, estava apenas mal enterrada. Para provar que a situação de vítima ou de criminoso é apenas fruto das circunstâncias.

No Mediterrâneo os navios das marinhas de guerra europeias recolhem refugiados, alimentam-nos, aquecem-nos. Na América de Trump os militares vão armados para o Mediterrâneo deles, a fronteira com o México, armados até aos dentes com ordem de disparar contra os filhos da miséria que a América criou no seu quintal centro americano. Nas suas repúblicas das bananas.

A Europa toma os fugidos das guerras promovidas pela América no Médio Oriente como refugiados, mais ou menos indesejados, mas refugiados, seres humanos, como os que chegam a Tripoli fugidos da fome e dos regimes que os europeus e a América criaram no pos segunda guerra mundial e que dali tentam atravessar o Mediterrâneo.

A Europa criou campos para esses refugiados na Grécia, em Itália, negociou com a Turquia a sua retenção – nada que motive grande orgulho quanto à defesa dos direitos do homem, é claro, mas não lhes mandou a tropa armada para os repelir a tiro.

Há uma diferença entre a Europa e as Américas. Os europeus, apesar dos populismos, ainda não aplaudem dirigentes populistas e radicais, bestas humanas como o Trump e o Bolsonaro. A Europa ainda não dispara contra refugiados. O mais asqueroso que se conhece é o de uma húngara ignóbil que rasteirou um refugiado e o seu filho. A maioria dos europeus, a acreditar nas reacções públicas, ainda repudiou a cobardia da megera. O Trump, pelo contrário, joga com o aplauso dos americanos ao envio de tropa para disparar contra refugiados para se eleger.

Há um mínimo de decência europeia pela qual vale a pena lutar. As hienas ainda não tomaram conta do nosso espaço e há que lutar para as afastar.

 

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