Diário
Director

Independente
João de Sousa

Terça-feira, Maio 24, 2022

Os seres humanos não conseguem lidar com demasiada realidade

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Um conjunto dramático de notícias da atualidade não se coaduna com grandes esperanças. Hoje em dia, estou cada vez mais convencida de que, ou se faz parte do grupo dos inocentes/coniventes que vivem no seu conforto, ou se faz parte do grupo dos que lutam para que os mais frágeis e desfavorecidos sintam o apoio solidário dos que se interessam por eles.

Frágeis e desfavorecidos de todo o mundo precisam da solidariedade ativa e militante dos membros do outro grupo. Isto é, do grupo dos que saem da sua áreazinha de conforto, mesmo tendo de confrontar amigos e conhecidos.

Escrevi estas seis linhas há dias. A atualidade política e social faz-me sentir submersa por tanta e tão hedionda realidade.

Sei, que os seres humanos não conseguem lidar com demasiada realidade como disse, por exemplo, T. S. Eliot, no Four Quartets.

Hoje em dia há demasiadas questões em cima do tabuleiro, demasiada realidade:

O golpe na Bolívia, o terrível silêncio da das Nações Unidas, as declarações irresponsáveis e apalhaçadas de um Trump, de um Bolsonaro, de um Nethanyau, transformaram-se nas cruzes que temos de suportar enquanto comemos a nossa bucha  de cada dia.

Enquanto Marcelo assobia para o lado da esperança com ladainhas e benzeduras de católico praticante, outros responsáveis políticos assobiam para o lado macroniano das suas conveniências fiduciárias.

É um coro desafinado de assobios que está, na minha perspetiva e na minha sensibilidade, a construir um muro de titânio, diamante e Goethita, muro que divide o mundo como o vemos atualmente, em dois:

de um lado os que querem defender os mais frágeis, do outro lado os que querem defender os seus interesses pessoais. Não escrevo os que querem defender os seus interesses de classe, para evitar que digam que eu engoli a cassete.

Porquê falar de um muro rígido que divide as opiniões de milhões de pessoas ditas bem informadas?

Porque aos milhões que não podem aceder a informação nenhuma chamamos info excluídos.

Nos meus escritos já perdi a esperança de convencer quem quer que seja. Os que estão do meu lado do muro, compreendem e apoiam. Os milhões que estão do outro lado do muro estão tão convencidos das suas verdades, da sua caridade e das suas ladainhas, que nem querem ler o que escrevo ou, se leem, acham-me uma convencida narcísica, egocêntrica, rígida e com quem não vale a pena ter conversas amigáveis sobre estes assuntos.

Ou seja

por mais que Marcelo queira acabar com os muros, por mais que as pessoas festejem a queda do Muro de Berlim, por mais que as pessoas me transformem a mim no alvo do seu ódio, há entre nós uma gigantesca barreira cuja altura cresce todos os dias.

Não, as nossas diferenças não podem ser resolvidas em conversas à hora do chá.

As nossas diferenças chegaram à hora do confronto.

Não quero discutir com ninguém porque é que acredito que os interesses dos frágeis são incompatíveis com os interesses dos poderosos.

Estarmos em campo opostos clarifica. Deste lado somos inflexíveis.

Todos os que estão do outro lado, inflexíveis são.

Tudo isto já ultrapassou os limites do admissível.

Para os incautos, os inocentes e os que ainda acreditam que as diferença podem ser redimidas em debates, vai a minha insónia.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -