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Domingo, Fevereiro 25, 2024

Outros fazedores de cinema

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

Histórias de paixão… no Brasil e em Portugal

Há poucas semanas trouxe às páginas do TORNADO os XVII Encontros de Cinema de Viana do Castelo. Hoje volto a falar nesta iniciativa promovida pela Associação Ao Norte para fazer uma breve referência às masterclasses que tiveram lugar no âmbito do programa Olhares Frontais.

Masterclasses

Afazeres pessoais de vária ordem fizeram com que perdesse a primeira delas: “Cinema e Televisão… Porquê Digital?” proferida por Carlos Alberto Henriques. Da segunda, “Cinema Império, Propaganda Colonial e censura no Estado Novo”, por Maria do Carmo Piçarra, só vi a parte final mas fiquei com a ideia de como terá sido interessante o discurso, do qual ainda pude ver algumas ilustrações – excertos de “Catembe” realizado por Faria de Almeida em 1965, de “Deixem-me ao menos subir às palmeiras” de Joaquim Lopes Barbosa (1972) e “Monangambé” de Sarah Maldoror (1968).

Alice Fátima Martins

A única palestra a que assisti integralmente foi “Outros fazedores de cinema” por Alice Fátima Martins, professora da Universidade Federal de Goiás. Uma narrativa fluente e emocionante sobre várias histórias de “amor ao cinema”. Histórias de gente, com pouca ou nenhuma formação académica, sem ‘escola de cinema’, marcada (em alguns casos desde a infância) por uma “inexplicável” paixão pelo cinema. Uma paixão que leva essa gente a desenvolver diferentes tipos de actividade mas sempre com o cinema como foco da sua atenção.
Veja aqui a conversa de Alice Fátima Martins com José Ribeiro

Seu Ozorinho

Fiquei a conhecer “Seu Ozorinho” que desde há alguns anos tem vindo a filmar as gentes e os lugares de Serranópolis. Um registo patrimonial e etnológico que quer legar às gerações futuras. Utilizo as palavras de Alice Fátima Martins para melhor descrever esta figura:

Serranópolis é uma cidade com pouco mais de 7000 habitantes, em cujo território se encontram muitas grutas e sítios arqueológicos com pinturas rupestres que datam de cerca de 11000 anos. O Seu Ozorinho, natural dali, tem familiaridade com as gentes, as paisagens e os caminhos do lugar. Há cerca de 10 anos, começou a produzir imagens das coisas e das pessoas, para que, mais tarde, quando já não existissem, os novos pudessem conhecer, ou saber como eram”

Da fotografia passou para o VHS e mais tarde para uma pequena câmara HD.

Aos poucos, também foi refinando sua técnica de captação das imagens e do som, inventado soluções, operando a câmera de maneiras diferenciadas. Desde o início desse processo, tem registrado, em vídeo, tudo quanto o cerque: pessoas, festas, eventos, caminhos, percursos, passeios, flores, pássaros, etc. A lista das coisas que registra tem a forma de inventário. Muitos dos registros que produz, ele entrega aos interessados, de modo que boa parte do seu material já não está disponível para ele”

Hugo Caiapônia

Fiquei a conhecer Hugo Caiapônia um homem que sempre gostou de contar piadas e que há alguns anos criou uma personagem, Imbilino, a partir da qual poderia montar argumentos e realizar filmes.  Segundo Alice Fátima Martins:

suas histórias contam com um núcleo principal de personagens, chamado por seu mentor de ‘a família’. Essa família tem uma estrutura mais ou menos estável, e toma parte de todas as histórias. As personagens incluem vizinhos, amigos, compadres, e correlatos. São interpretados pelos filhos de Hugo Caiapônia, irmãos, amigos, e outras pessoas de sua relação. No decurso de 10 anos, o tempo exerceu transformações nas pessoas que fazem parte de seu projecto. As mudanças mais visíveis estão nas crianças que, de pequenas, no primeiro filme, já comparecem como adolescentes nas produções mais recentes”

De acordo com a conferencista as sessões com filmes de Imbilino têm muito mais espectadores do que as dos circuitos comerciais (às vezes milhares de pessoas) mas, apesar disso, ele é pouco conhecido em Goiânia, capital do Estado, mesmo entre as pessoas ligadas ao cinema…

Martins Muniz

Fiquei a conhecer Martins Muniz, criador do Sistema CooperAção Amigos do Cinema. Artesão, fez entre outros trabalhos cenários para teatro e desfiles de carnaval, e actuações no cinema.

No início dos anos 2000, passou a liderar um grupo de amigos para o exercício de realizar filmes de modo colaborativo: sem qualquer tipo de financiamento, contando com a colaboração dos envolvidos, em jornadas intensivas de gravação com duração média de um final de semana”

Quando o filme não fica pronto num fim-de-semana pode dar-se o caso de algum dos actores não poder comparecer no fim-de-semana seguinte. Aí, Martins Muniz reformula o argumento ou, pura e simplesmente continua a filmagem com outro actor. Há filmes em que a mesma personagem é representada por vários actores ao longo do desenvolvimento da história…

Evidentemente, por se tratarem de produções com orçamento quase nulo, com gravações intensivas, que demandam pouco tempo, a improvisação é uma das marcas fortes do resultado, sobretudo no tocante aos materiais de cena, aos vazamentos de som, dentre outros elementos de ordem técnica. Contudo, quando, por essa razão, o trabalho é qualificado como trash, o diretor contesta, argumentando tratar-se, sim, de um cinema artesanal.”

A Última Bandeira

O Capitão do Mato

Zagati

E, por último, conheci José Luis Zagati. Um homem que depois de perder o seu emprego passou a ganhar a vida a recolher papelão e outra sucata. E foi com esta fonte de rendimento que conseguiu concretizar o “sonho da sua vida”: construir um pequeno cinema para mostrar, gratuitamente, filmes à criançada…

Veja aqui um filme sobre Zagati, o homem que disse “metade de mim é cinema”, e o seu admirável “cinema paraíso” aqui baptizado com o nome de “Minicine Tupy”.

Maria José Silva

Finalmente, uma referência portuguesa. Alice Fátima Martins chamou à sua lição: “Outros fazedores de cinema”. E fez questão de sublinhar outros porque, segundo disse, não conhece no Brasil, ou pelo menos em Goiás, nenhuma mulher a assumir o protagonismo neste “cinema artesanal”. Em Viana do Castelo ficou a saber que em Junho de 2015, aos setenta e sete anos, morreu Maria José Silva, uma senhora que passou parte da sua vida ao balcão da Queijaria Amaral, na rua de Santo Ildefonso, no Porto. Realizadora, escritora, actriz e cantora, responsável pela banda sonora, pelo guarda – roupa, pela direcção de actores e pela direcção de arte. Fez os seus próprios filmes, nove, durante mais de vinte anos.

Realizadora

Ler também

Para quem cinema é uma paixão

Aqui fica esta evocação de pessoas para as quais o cinema é uma paixão. Gente que, na maior parte dos casos, não só não ganha a vida através dele como gasta os seus escassos recursos para fazer cinema ou para o mostrar.

Para permitir um melhor conhecimento de alguns dos nomes referidos, este texto contem várias ligações a endereços de material existente na internet. Recomendo vivamente que os visitem.

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