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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Paulo da Costa Domingos, Paisagem durante a Batalha

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Volto à poesia de Paulo da Costa Domingos, e a esta paisagem, que é de trovoada, pairam nuvens escuras no ar.

Mas lemos, e logo a seguir à epígrafe, de Gil Vicente na Exhortação da Guerra, irrompe a interpelação da palavra. E lendo ficaremos a saber que o importante são esses jardins luminosos onde a palavra, o Verbo primordial, ou acende o seu fogo, ou se desfaz na cinza desta batalha que parece invencível: a da espécie humana frente à natureza impiedosa: a segunda epígrafe, de Tennyson, em Despair:

O we orphans of nothing- alone on that lonely shore-
Born of the brainless Nature…

E assim, entre duas reflexões que amparam o pensamento e a reacção possível a uma paisagem presente, difícil de viver, e mais ainda de entender ( terá sido o infame pecado original?) começa o poema:

Aí vêem os assuntos, a jardinagem. Quando foi que tudo isto
aconteceu?…as palavras – cada qual
para seu lado; a separação
(p.7)

A referência à Jardinagem, num jardim de árvores de seda, com maçãs de especial sabor, ( o “estrume do êxtase”) e adiante, noutro poema, ao jardim das delícias (p.9) – culminando na “fresca ribeiro do sexo” indicam que a imperfeição, que é, no jardim, a curiosidade e a avidez de um conhecimento proibido, esse estrume que sustenta, ao fim e ao cabo a existência da árvore de seda e suas maçãs proibidas, atira-nos para uma meditação que é bíblica e mítica sobre a existência do homem

A verdade do homem
que entra duas vezes no mesmo rio
e desce
ao fundo de si, cai
(p.10)

Esta é uma série atravessada pela cultura mais antiga, e sendo actual leva, tem de ser, à desconstrução dos mitos mais sagrados, judaicos e egípcios das grande divindades que são as devedoras das nossas memórias guardadas, sangrentas ou felizes, sendo que neste momento de batalha sofrida a felicidade é impossível. Lembra Tennyson…a natureza descerebrada. Outrora jardim, agora campo de batalha.

mas o terror habita fora do Nada,
mas o terror fez da Terra sua casa.
(p.25)

Cada verso que o poeta nos lança tem um fim: parar para pensar. Pensar para deleite, de palavra e pensamento. Gosto de relembrar Heidegger, sobre quem escrevi no blog, O Que é Pensar? Está no seu fim da vida, dá o seu último seminário, e faz a história desde os pre-socráticos até ao seu poeta preferido, Hoelderlin, no seu Hino à Memória, Mnemosyne, em que afirma

que somos um sinal, sem sentido,
…e quase perdemos a língua na distância.

Eis os versos escolhidos para este início do filosofar sobre o pensamento:

Ein Zeichen sind wir, deutungslos,
Schmerzlos sind wir und haben fast
Die Sprache in der Fremde verloren.

(Somos um sinal, sem sentido,
Somos indolores e quase
Perdemos a língua na distância).

Esta primeira estrofe termina com uma conclusão, que embora logo questionada na estrofe seguinte, merece que a ponderemos:

…Lang ist
die Zeit, es ereignet sich aber
Das Wahre.

(É longo
O tempo, mas alcança-se
A verdade).

O Sentido e a Verdade, eis o que procura Paulo Domingos: o sentido da existência, a verdade do horror que a acompanha.

O seu livro está dividido em três versões, como ele lhes chama. Podiam ser três partes, três capítulos de um mesmo meditar sobre o Sentido que perdemos, no dizer do poeta alemão que Heidegger escolhe para epígrafe…ele assistiu ao horror, ao sangue derramado, numa Terra que tinha perdido a capacidade de distinguir o justo do injusto, a mentira da verdade, o verdadeiro sentido da Língua Primordial.

Na segunda versão, também Paulo nos diz:

A Terra se tornou estranha
e espessa.
(p.49)

Num mais longo poema, aborda então a batalha que temos de travar, mas sem saber como, contra um inimigo inesperado que destrói a consciência do Ser, porque nos mata, e do Tempo, o que devora, como Cronos, os seus filhos. Que fizemos, naqueles jardins de seda? Ou tudo foi um logro? E as delícias de um amoroso sexo a raiz deste mal? Não era iniciação, como Enkidu julgava, era já condenação à pior das infâmias, pela mão de uma deusa da Terra, destronada. A deusa explode de raiva, a espécie morrerá com ela.

É à metáfora do morcego que Paulo vai recorrer para sublinhar a morte que transporta, a meio do seu percurso que poderia ser, na tradição alquímica, o da perfeição sublimada. Gaston Bachelard sublinha a dimensão andrógina desta ave da noite, que vive de cabeça virada para baixo, e evitando a luz. Um ser que não chega ao fim do seu caminho, tem asas, poderia voar, mas pára na evolução ascendente e assim se irá degradar.

Vejamos o poema:

Morcêgos mor cègos
é o que somos, focinho
dependurado no bolor:
humidad’ inversa da gruta
na humilhante impotência
perante a morte.

Que alimentos nos satisfarão
neste estado de culpa
e prodigiosa ignorância?

Não soubemos conter
a maldição do corpo,
o absurdo tributo
pago a Cronos.

Que triste não haver
retorno. Nem
Universo inverso.
(p.51)

Podemos, na chamada última versão, ir descobrindo o núcleo duro, o centro incandescente desta descida ao sentido do nomear, na série com que o poeta fechará o seu livro, e aqui começa:

Agora podemos nomear e saber
a diferença de pulsão e potência,
o descuido e o erro da Terra
no saborear a boa semente.
(p.87)

Assim festeja Paulo o novo século, em 2020, entre o sabor do erro e a pulsão da luz que nos persegue.

 


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