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João de Sousa

Quinta-feira, Julho 7, 2022

Pelo direito de vestir!

NINM
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Colaboração do Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos do Humanismo e de Reflexão para a Paz (integrado na área de Ciência das Religiões da U.L.H.T.)

Para que uma notícia se torne viral, há que ter ingredientes seguros e cumprir as regras da quadra sábia de António Aleixo, o poeta popular algarvio que é um dos casos mais extremos de qualidade intensa e sagacidade crítica da nossa literatura.

Recordamos a quadra do referido poeta:

Para a mentira ser segura
e atingir profundidade
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

Mau grado os anos passados em democracia e as reivindicações pela “verdade a que temos direito”, como dizia o chavão publicitário de certo jornal – que, entretanto fechou, essa é que é a verdade-,  o que vemos hoje é uma imprensa que, de um modo geral, pretende vender-se a todo o custo e na qual não acreditamos para lá dos limites das maiores evidências e do corriqueiro comunicado mais evidente.

Crimes inexistentes, suspeitos que acabam ilibados, avionetas que não caem – infelizmente ao lado das que, realmente, aterram de emergência deixando rastos de morte -, transferências de clube, namoros e divórcios eminentes, coisas que mais tarde sabemos serem falsas tornaram-se o alimento do pobre imaginário do nosso quotidiano. Há exceções, como a do jornal online onde escrevemos – mas são redutos gloriosos, presenças escassas e por vezes pouco apoiadas, carecendo de fundos (que não têm, até porque o capital prefere os seus estafetas) ou de índices mínimos de sobrevivência que tardam em surgir – devia haver um rendimento mínimo garantido para quem se esforça por trazer verdades à tona, partilhando-as custe o que custar (sim, sabemos que Verdade é um conceito relativo, mas percebe-se o que dizemos).

Damos então o exemplo de uma “noticia” posta a correr, muito ao jeito da estação do ano em que pouco há que se conte com propriedade e que, tudo leva a crer, é mais uma “notícia” sem veracidade.

Expulsas por usarem um burkini

Alguns órgãos de comunicação diziam que duas britânicas (seriam cunhadas entre si, segundo um desses órgãos) tinham sido (alegadamente e de acordo com a primeira notícia veiculada) expulsas de uma piscina por usarem um burkini, fato de banho integral (como o que as nossas bisavós usavam, se tivessem coragem de ir à praia, o que era raro). As duas britânicas teriam sido expulsas de um complexo turístico no Algarve, em Albufeira, e seriam Maryya Dean, de 36 anos e a sua cunhada Hina (idade não revelada pelo jornal britânico que parece ser o mais bem informado do ocorrido, embora Albufeira fique aqui tão perto).

Não há, todavia, confirmação do ocorrido (ocorreu?), nem por parte do complexo turístico nem das próprias, que não apresentaram queixa. Os argumentos que teriam sido usados para as despir, seriam os do respeito pela cultura portuguesa, que tem por hábito descobrir a celulite e a barriguinha, mal aperta o sol.

Já houve quem dissesse que sendo os britânicos lestos na apresentação de queixas e pedidos de indemnização, a ser verdade a coisa teria andado pela polícia e pelos tribunais, crescido nos tabloides e enfrentado microfones e câmaras.

Esta tentativa de transformar Albufeira em Nice, onde, recordamos, em agosto do ano passado, dois polícias obrigaram uma muçulmana a sair de uma praia por usar um burkini, não é inocente. Há muita maneira de provocar atentados à liberdade, e há fundamentalistas de todos os credos. Alguns estão na imprensa

Para já, ainda temos a liberdade de poder vestir o que quisermos. Quanto a despir, há que refrear as boas intenções e o proselitismo das “autoridades” que anda por aí.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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