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João de Sousa

Quarta-feira, Maio 25, 2022

Percursos da Luta de Libertação Nacional

Viagem ao interior do MPLA. Memórias pessoais de Hugo Azancot de Menezes.

Lançamento do livro terá lugar no próximo dia 25 de Julho, terça-feira pelas 1800 horas no Auditório da Biblioteca Nacional, em Lisboa.

Na sessão intervirão o historiador Carlos Pacheco, que fará a apresentação do livro, o editor e alguns familiares do Autor.

Editora Nova Vega

Azancot no início da escrita deste livro confessava-me exactamente o seu enorme desconforto e tensão emocional, não tanto pela árdua tarefa que tinha pela frente, para ele absolutamente vital para se manter vivo, mas pela obrigação histórica de pôr a nu os registos de veracidade duvidosa que amiúde saltavam para a ribalta a optimizar o passado em toda a sua extensão. Dizia-me ele que os criadores dessa “glorificação estética do passado” pretendiam, por exemplo, fazer passar a luta armada de libertação nacional por um majestoso conjunto de acções épicas e os seus protagonistas dotados de qualidades excepcionais. E mais: que, em nome desse “património heróico de luta”, os mesmos propagandistas forçavam impor legitimidades partidárias (exclusivas) nos seus países e investir-se no papel de entidades históricas redentoras. A estes inimigos viscerais da história, Azancot entendia ser necessário, pelos caminhos da memória, responder com a verdade da sua experiência militante, sem concessões, por ser o melhor contributo a prestar às futuras consciências colectivas, ajudando-as a defender-se de novas utopias fundamentalistas e de novos fanatismos. Esta é essencialmente a linha de pensamento que vai servir de motor à narrativa de Azancot. Em crescendo o autor vai cravando diante dos nossos olhos, sem disfarces, a realidade hiperbólica do MPLA. Há realmente coisas únicas (jamais lidas ou faladas noutros espaços) que chocam neste livro.

Documento da PIDE

Angola: Documento da PIDE sobre Hugo Azancot de Menezes

Nasceu em São Tomé e Príncipe a 2 de Fevereiro de 1928 e desde a primeira infância passou a viver em Angola por força da situação jurídica do seu pai (também médico e tenente miliciano), a quem o regime de Lisboa transferiu compulsivamente na década de 1920 para aquela colónia por actividades políticas relacionadas com a sua malograda tentativa de se candidatar a membro do Conselho Colonial por proposta da Liga dos Interesses Índigenas de São Tomé e Príncipe.

Enquanto herdeiro da fibra política do progenitor, fundou e foi dirigente da casa dos Estudantes do Império (CEI) e do Grupo Desportivo do Ultramar (GDU).

Após a sua formatura em Lisboa expatriou-se em Londres onde selou boas relações pessoais com distintos dirigentes políticos do Committee of African Organisations, em especial com Dennis Phombea.

Graças à influência e à caução política desta e doutras personalidades junto do governo de Sékou Touré, estabeleceu-se na Guiné Conakry a 5 de Agosto de 1959 e ali ajudou a organizar o Movimento (ou Comité Nacional) de Libertação dos Territórios Africanos Sob Domínio Português (MLTADP), constituído por refugiados políticos da Guiné-Bissau e de cujo Bureau directivo fez parte. Do mesmo modo ajudou a criar as condições necessárias à instalação da FRAIN (ex-MAC) em Conakry, bem como à entrada de Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Mário Pinto de Andrade e outros destacados membros do PAI e da UDENAMO, em diligências para as quais foi determinante a excelente relação que tinha com Diallo Saifoulaye, secretário político do Partido Democrático da Guiné.

Em Túnis, na última semana de Janeiro de 1960, contribuiu para a fundação do MPLA e integrou o seu quadro de militantes com o estatuto de membro do Comité Director.

Em meados de 1962 mudou-se com a família para Accra, no Gana, para preencher o posto de representante do MPLA naquela cidade. Devido à grave ruptura interna no Movimento em Julho de 1963, que se saldou em prisões e espancamentos de militantes, demitiu-se do seu cargo partidário e converteu-se em locutor da Rádio Ghana, na secção de língua portuguesa.

Em 1966 exilou-se no Togo e aqui contou com o providencial valimento de bons amigos que tinha no regime de Nicolas Grunitzky. Em meados de 1967 o país foi sacudido por um golpe militar que o obrigou a fazer as malas e a rumar para o Congo-Brazzaville.

Em Novembro de 1968 Agostinho Neto, presidente do MPLA, ofereceu-lhe o posto de responsável dos Serviços de Assistência Médica na II Região Político-Militar .

A sua experiência de quatro anos em Dolisie foi tão desanimadora (do ponto de vista político e institucional) que, a custo, se viu forçado para uma espécie de auto-exílio. Renunciou ao cargo e acolheu-se à protecção do PNUD em Brazzaville onde, com a família, sobreviveu em condições precaríssimas.

Em 1974 aderiu ao grupo de contestação interna do MPLA, denominado Revolta Activa, que criticava o génio imperioso e autocrático de Agostinho Neto na condução do Movimento.

Depois da independência nacional de Angola requereu o vínculo de cidadania ao novo Estado e aceitou dirigir o Hospital Central de Luanda.

Faleceu a 1 de Maio de 2000 às sete horas da manhã no hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra, Portugal), após doença prolongada.

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