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Quarta-feira, Julho 6, 2022

PMDB volta a ser MDB: alma de Ulysses protesta no além

Tereza Cruvinel, em Brasília
Tereza Cruvinel, em Brasília
Jornalista, actualmente colunista do Jornal do Brasil. Foi colunista política do Brasil 247 e comentarista política da RedeTV. Ex-presidente da TV Brasil, ex-colunista de O Globo e Correio Braziliense.

Numa convenção extraordinária chamada para hoje pelo senador Romero Jucá, o PMDB voltará a se chamar MDB. Em algum lugar do outro mundo alguns líderes do partido que combateu a ditadura devem estar protestando contra esta heresia, entre eles Ulysses Guimarães, Franco Montoro e Teotônio Vilela.  Diferentemente do MDB, que enfrentou a ditadura lutando pela restauração democrática e teve por isso muitos de seus líderes cassados, o PMDB de Jucá, Temer, Geddel e Eliseu Padilha enxovalhou a democracia que herdam com o golpe parlamentar de 2016.

Outro ponto da pauta da convenção de hoje também deve incomodar os verdadeiros emedebistas que já se foram. Terá início a discussão do novo programa do partido, que na prática é uma adaptação do documento “Ponte para o Futuro”, base programática com que Temer e sua turma buscaram apoio da elite econômica para a derrubada da presidente eleita Dilma Rousseff e a posse de seu vice.

O documento “Ponte para o Futuro”, que defende a redução do Estado, as privatizações e a abertura entreguista ao capital estrangeiro,  é a antítese do programa do velho MDB, que tinha forte viés nacionalista, defendia um Estado forte e com papel ativo no desenvolvimento nacional e a criação de políticas e direitos sociais que vieram a ser inscritos na Constituição de 1988.  Economistas, políticos e pensadores como Severo Gomes, Luciano Coutinho, Celso Furtado, Carlos Lessa e Maria da Conceição Tavares eram os responsáveis pela atualização permanente do programa do MDB e sua tradução em propostas de políticas para o desenvolvimento nacional soberano e includente.

Para rebatizar o partido que já foi qualificado pela PGR como organização criminosa, Jucá argumenta que a letra P foi imposta pela ditadura mas não foi bem assim. A reforma partidária de 1979 extinguiu a Arena e o MDB e exigiu que as novas agremiações tivessem a palavra partido em seu nome.   Para preservar sua identidade oposicionista, o partido optou pela colocação do P.  O que o PMDB de Jucá busca agora é apropriar-se da aura e da memória do velho partido de oposição ao arbítrio para atenuar a mácula que carregará,  para sempre,  por ter sido o principal agente de um golpe contra a ordem democrática.

A autora escreve em Português do Brasil

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