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Quarta-feira, Maio 25, 2022

Portugal está mais desigual na repartição da riqueza

desigualdades
Com base em dados divulgados já este ano pelo Instituto Nacional de Estatísticas (INE), o economista Eugénio Rosa analisa a evolução da parcela da riqueza criada (PIB) que reverte para os trabalhadores. E mostra que se atingiu em 2015 a percentagem mais baixa verificada nos últimos 20 anos.

“A repartição do rendimento em Portugal tem-se agravado de uma forma contínua aumentando as desigualdades no País”, assegura. Ou seja, a repartição primária do rendimento entre o Trabalho e o Capital revela “uma contínua deterioração da parte do rendimento que cabe ao Trabalho”.

 

grafico
Gráfico elaborado com dados do INE. Eugénio Rosa conclui que em 2009, os “ordenados e salários” representaram 37,4% do valor do PIB deste ano; em 2010 desceu para 36,8% e, a partir desse ano, a diminuição foi contínua atingindo apenas 33,7% do PIB em 2015, portanto, o valor mais baixo dos últimos 20 anos, que é o período contemplado pelo gráfico (3,4 pontos percentuais do PIB é = a mais de 6.000 milhões€).

“Obstáculo ao desenvolvimento”

Eugénio Rosa explica que para se poder ficar com “uma ideia mais clara da profunda injustiça e desigualdade” que se verifica em Portugal na repartição da riqueza criada, importa referir que os trabalhadores que receberam o valor correspondente apenas a um terço da riqueza criada (em 2015) representavam 81,6% da população empregada. (Os trabalhadores por conta de outrem eram 3.710.600 num total de 4.548.700 empregados).

eugenio-rosaRessalva ainda que se está a analisar apenas a repartição primária da riqueza ilíquida. Este não é ainda o rendimento disponível que os trabalhadores levam para casa. Ele terá de ser submetido aos cortes dos inúmeros impostos (repartição secundária), nomeadamente do IRS que, nos últimos anos, sofreu um aumento enorme “amputando uma parcela importante dos rendimentos”.

“Esta grave desigualdade na repartição da riqueza criada, que se tem acentuado nos últimos anos, para além de ser um factor de pobreza, é também um obstáculo importante ao crescimento e ao desenvolvimento do país”, alerta o economista.

 

Transferência de riqueza para o exterior

O doutorado pelo ISEG acrescenta que a situação é ainda agravada pelo facto de uma parcela da riqueza criada em Portugal continuar a ser transferida para o exterior, “beneficiando outros países como a Alemanha”.

Entre 2002 e 2015 a soma dos PIB´s (riqueza criada) foi superior à soma do RNB (Rendimento Nacional Bruto ou riqueza que ficou no país) em 55.825 milhões de euros. “Isto significa que esta riqueza criada não foi distribuída internamente”, sublinha.

Por fim, refere que após a entrada da “troika” e da coligação PSD/CDS verificou-se um “crescimento negativo” do investimento. “Entre 2012 e 2015, o investimento realizado foi inferior ao Consumo de Capital Fixo, ou seja, àquele que envelhece, se desgasta e desaparece”.

“Muito investimento que se degradou e desapareceu não foi substituído nem renovado. E não é com o investimento público previsto no OE-2016 (2% do PIB) que se inverte isso”, conclui.

Recorde-se que precisamente a 6 de Abril de 2011, o Governo de Sócrates chefiado nas Finanças por Teixeira dos Santos enviava o pedido de “assistência financeira” à Troika. E cinco anos depois do resgate financeiro, Portugal ainda apresenta um défice e uma dívida pública acima do permitido pela União Europeia.

 

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