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Quinta-feira, Maio 26, 2022

Pra sempre, Elza

Valdete Souto Severo
Valdete Souto Severo
Doutora em Direito do Trabalho pela USP/SP, juíza do trabalho no Tribunal Regional do Trabalho da Quarta Região, professora de Direito e Processo do Trabalho da UFRGS e escritora

Contemple o desenho fundo
Dessas minhas jovens rugas
Conquistadas a duras penas
Entre aventuras e fugas
(Na Pele, Elza Soares) 

A morte é algo assustador, que nos desajusta. Não importa a idade, não queremos perder nossos afetos. Somos treinados a pensar que os possuímos. Se é de posse que se trata, precisamos da carne viva, da interação, do contato. Semana passada, Elza Soares se despediu desse plano, aos 91 anos. Esses tempos, ouvi ou li, nem lembro onde: “perdi meu pai, ele tinha 90 anos, viveu tempo suficiente para nos fazer acostumar à sua presença, por isso essa ausência dói tanto”. É isso, nos acostumamos, especialmente com as pessoas que amamos. Ou que admiramos, como é o caso de Elza.

Pensar sobre a morte é importante, embora seja exigente. Afinal, é essa nossa principal condição de existência. Somos seres transitórios nesse corpo físico. Imersos em uma cultura, segundo a qual o que importa é esse intervalo entre o nascimento e a morte. Em nome dele, consumimos, destruímos, acumulamos. Encaramos a morte como um fim. Ao contrário de povos indígenas e africanos, que a compreendem como passagem, integração, constituição de uma nova forma de existir nos outros.

Claro, nada disso alivia a dor da saudade. Aceitar a privação do convívio é um desafio. Sobrevivemos, mas de outro jeito. Já não seremos as mesmas. Resgatar essa compreensão da morte como passagem e da vida como algo plural, que a visão racionalista cartesiana ignora, separando-nos em corpo e alma, vivos e mortos, é uma urgência. Especialmente para que seja possível enfrentar o que hoje estamos vivendo e sobreviver como coletividade.

Durante esses tantos meses de pandemia e aprofundamento da miséria, foram muitas perdas precoces. Mortes demais, que seguem ocorrendo. Ainda são mais de 300, por dia, no Brasil, apenas em razão da covid-19. Tanta dor suspensa no ar, guardada no peito, sofrida em silêncio. Além da saudade, a revolta. Afinal, são escolhas políticas que expõem os corpos à morte. Sempre os mesmos corpos! E seguimos, sem entender bem porque a vida, tão supervalorizada em uma sociedade de consumo, torna-se descartável, torna-se estatística. Se falo da pandemia, da loucura política, do sintoma do que somos como seres autofágicos, é porque Elza foi um corpo em luta. Casou com 12 anos e aos 13 pariu seu primeiro filho. Lutou contra a fome, contra a violência do companheiro, contra o preconceito. Lutou para ser ouvida. E fez de suas músicas manifestos.

A despedida de Elza, em uma realidade de persistência escravista que faz da carne negra “a mais barata no mercado”, na qual reconhecer-se como coletivo é compreender-se como vida que queima, que sofre, que sangra e passa fome, é uma boa oportunidade para refletir. Nosso intervalo por aqui é breve. O tempo não é contado em segundos. Basta olhar para os filhos, para perceber a velocidade da vida. Mas, se somos fios que tecem a trama, somos rios, florestas, somos energia. Nossa existência é plural. Por isso, cada morte nos atinge a todas. Por isso, cada vida importa. Por isso, toda luta é potência para a transformação. A morte não é uma questão privada. Nos coloca diante do que somos, evidencia nossos limites. Compreender que prosseguimos como parte de uma existência entrelaçada, em que a vida “tem sido água, fazendo caminhos esguios, abrindo veios e vales”, é o que irá nos permitir sobreviver a tanta tragédia. E mudar nossa forma de existir.

Afinal, temos um compromisso com as gerações futuras. Seguir fazendo da vida um espaço de gozo e extração não permitirá que o futuro aconteça. Isso é nossa responsabilidade. Elza sabia bem. Ela conseguiu ocupar espaços em que corpos femininos e negros na maioria das vezes não chegam, mas nem por isso deixou de lutar. Seguiu pontuando a urgência de repensarmos a vida.
Esse texto é uma homenagem à Elza, não como um ser físico que desencarnou deixando um legado de luta. E sim como expressão da força feminina, das vozes negras que se erguem e persistem. Elza é uma existência que soube reexistir muitas vezes, contra todas as evidências, é leito de rio, a mulher dentro de cada um. Persiste em nós como potência, provando que vale a pena seguir, vale a pena insistir, vale a pena lutar.


Texto em português do Brasil

Fonte: Brasil de Fato

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