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Domingo, Novembro 28, 2021

Prémio “Nest Film Students” para o filme português “Em Caso de Fogo” de Tomás Paula Marques

José M. Bastos
Crítico de cinema

67º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián

Concluímos hoje a referência ao palmarés do festival que terminou na noite do sábado passado. Depois de em texto anterior temos dado conta dos prémios da secção oficial centramos agora a nossa atenção nas áreas da programação ditas de ‘descoberta’, dedicadas a novos cineastas e novas abordagens.

O primeiro destaque vai para a secção ‘Nest Film Students’ cujo prémio, no dizer da organização do festival, “tem por objectivo impulsionar e apoiar os trabalhos futuros efectuados pelos jovens estudantes interessados na aprendizagem da técnica e da linguagem cinematográficas e apoiar a distribuição e internacionalização das curtas-metragens apresentados a concurso”.

Este ano foram pré-selecionados catorze filmes escolhidos entre as 373 candidaturas apresentadas. As escolas de cinema presentes na competição eram da Rússia, República Checa, França, Argentina, Bélgica, Espanha, Alemanha, Chile, Reino Unido, China e Portugal.

“Em Caso de Fogo”

Entrega do prémio a Tomás Paula Marques

O vencedor foi “Em Caso de Fogo”, uma curta-metragem de 23 minutos produzida pela Escola Superior de Teatro e Cinema e que já tinha estado na competição nacional do IndieLisboa deste ano e vencido a secção ‘Take One!’ do Curtas de Vila do Conde.

O seu realizador é o portuense Tomás Paula Marques, nascido em 1994, que em 2013 se mudou para Lisboa para estudar na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde se licenciou em Realização.

O prémio, no valor de dez mil euros, foi atribuído por um júri composto por estudantes das escolas participantes e presidido pelo realizador e produtor argentino Martín Reitman que decidiu premiar “Em caso de fogo”, por “criar um retrato sugestivo e subtil da adolescência no Portugal rural”.

 

 

“Algunas Bestias” do chileno Jorge Riquelme Serrano venceu na secção “Nuevos Directores”

Constituída por primeiras ou segundas obras dos seus autores a secção ‘Nuevos Directores’ teve, nesta edição, catorze filmes em competição. O vencedor foi “Algunas Bestias”, segundo trabalho do realizadorJorge Riquelme Serrano. O filme já tinha sido premiado na 35ª edição de ‘Cine en Construcción” (Toulouse / 2018), um dos programas de apoio à produção patrocinados pelo Festival de San Sebastian, neste caso em consórcio com o festival francês.

“Algunas Bestias”

Entrega do prémio a Jorge Riquelme Serrano

“Algunas Bestias”, que conta com elenco encabeçado por dois grandes nomes da representação chilena – Paulina Garcia e Alfredo Castro-, passa-se numa pequena ilha desabitada e onde existe apenas uma casa que um casal pretende transformar em hotel turístico. Com o resto da família desloca-se para lá durante um fim-de-semana, mas o desaparecimento do homem e da embarcação que para lá os levaram, a falta de água, de electricidade e de outros bens essenciais faz vir ao de cima uma tensão crescente, por vezes animalesca. Este é um filme que nos fez lembrar “A Festa” de Thomas Vinterberg mas que não consegue atingir o nível da obra do realizador dinamarquês.

Em ‘Nuevos Directores’ o filme “Sestra” de Svetla Tsosorkova (Bulgária /Qatar) recebeu uma menção especial.

Filme argentino “Las Buenas Intenciones” recebeu o Prémio da Juventude

Oriundo da mesma secção – “Nuevos Realizadores” – “Las Buenas Intenciones” da argentina Ana Garcia Blaya conquistou o Prémio da Juventude atribuído por um júri constituído por cerca de 150 jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos.

“Las Buenas Intenciones”

Ana Garcia Blaya com o Prémio da Juventude

“Las Buenas Intenciones” é um trabalho muito pessoal da sua autora que, a partir de filmagens do seu pai já falecido, reconstitui a história da sua infância em família. Uma história de crianças, filhas de pais separados e, em particular, de um pai que diríamos pouco responsável, pelo menos segundo os padrões mais convencionais. “Las Buenas Intenciones” é um trabalho intenso e comovedor com uma construção de grande originalidade.

 

Prémio ‘Horizontes’ para “De Nuevo Otra Vez” da argentina Romina Paula

“De Nuevo Otra Vez”

Romina Paula com o Prémio ‘Horizontes’

‘Horizontes Latinos’ é uma área do certame destinado à apresentação de filmes produzidos no último ano nos países da América Latina. O grande vencedor de entre os treze trabalhos apresentados, parte deles vindos do programa ‘Cine en Construcción’, foi “De Nuevo Otra vez”, produção argentina dirigida por Romina Paula. Este é também o retrato da vivência familiar da autora que regressa a casa da família depois de ter sido mãe e de se afastar do pai do seu filho. O dia-a-dia vivido com a mãe e a tentativa de recuperar a sua vida de solteira são o pano de fundo de uma história de procura de identidade, de regresso às origem e de reconstrução da história familiar.

“De Nuevo Otra vez” é a estreia na realização da escritora, dramaturga e actriz Romina Paula e esteve presente na secção ‘Bright Future’ do Festival de Roterdão.

Refira-se ainda que nesta secção ‘Horizontes’ o filme peruano-colombiano “La Bronca”, de Diego Vega e Daniel Vega, recebeu uma menção especial

A propósito do cinema latino-americano anote-se que o grande vencedor do “Cine en Construcción” desta edição do Festival foi o mexicano “Sin Señas Particulares” de Fernanda Valadez que muito provavelmente veremos a competir no próximo ano.

 

Prémio ‘Zabaltegi’ para a alemã Angela Schanelec

Na secção mais aberta do certame basco estiveram, como habitualmente, ficções e documentários, filmes mais convencionais e outros experimentais, de novos autores ou de cineastas consagrados, de géneros variados, longas e curtas-metragens. Em ‘Zabaltegi’ cabe quase tudo! De “Nimic” do ‘oscarizado’ Yorgos Lanthimos ao franco-senegalês “Atlantique” de Mati Diop, Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes.

“Ich War Zuhause”

Angela Schanelec vencedora do Prémio ‘Zabaltegi’

Também com carácter competitivo, o prémio da edição deste ano, foi para “Ich War Zuhause”/ Estava em Casa, Mas…  de Angela Schanelec, filme vencedor do ‘Urso de Prata’ para a melhor realização no Festival de Berlim.

“Les Enfants de Isadora”,  filme franco-coreano de Damien Manivel, recebeu uma menção especial nesta secção.

 

 

Prémios do Público

“Hors des Normes” de Olivier Nakache e Éric Toledano

“Sorry, I Missed Yoy” de Ken Loach

De há alguns anos a esta parte o festival atribui dois Prémios do Público / Cidade de San Sebastián, um ao filme mais votado pelos espectadores e outro ao filme europeu mais votado.

Pois bem, nesta edição os dois premiados foram europeus e ambos foram apresentados na secção “Perlas”. Dois filmes excelentes.

Dos franceses Olivier Nakache e Éric Toledano, no seu estilo habitual em que o humor e o drama se combinam de forma harmoniosa ( tal como em “Amigos Improváveis” ou “Samba”) vimos “Hors des Normes”, que em Portugal se vai chamar “Especiais”, uma abordagem ao trabalho de organizações não reconhecidas oficialmente que se ocupam de jovens autistas ou com outras necessidades especiais, fazendo o trabalho que a Segurança Social francesa não quer ou não pode fazer.

Ken Loach, fiel ao cinema de temática social que desde sempre vem fazendo, apresentou aqui “Sorry, I Missed You” mais um retrato de gente pobre que vive (mal) do seu trabalho precário e em que as entidades para quem trabalham não assumem nenhum risco nem responsabilidade. Não tendo, provavelmente, a mesma contundência ou impacto que “I, Daniel Blake”, este novo trabalho de Ken Loach é, em todo o caso, um filme muito recomendável.

Breve apreciação final

Tentámos nos últimos dias dar conta dos factos mais relevantes desta 67ª edição do Festival. As notas mais marcantes foram a repetição do que temos visto em edições anteriores:

  • uma enorme afluência de público;
  • uma secção oficial sofrível, pouco apelativa e muito extensa;
  • boa qualidade dos filmes apresentados nas chamadas secções paralelas;
  • uma aposta continuada no ‘glamour’ e na presença de inúmeros autores e participantes nos filmes, tanto nomes consagrados como outros de que haveremos de ouvir falar no futuro; e
  • uma importância crescente das áreas de formação e de apoio aos novos criadores com uma presença muito  relevante de estudantes e jovens realizadores.

 


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