Diário
Director

Independente
João de Sousa

Terça-feira, Maio 24, 2022

Lazzaro Felice, um filme feminino?

Netflix coloca o título do filme em inglês, Happy as Lazzaro, mas o bom mesmo é o título original e me parece bem da província italiana, Lazzaro Felice. A diretora Alice Rohrwacher é uma jovem cineasta com menos de 40 anos. Embora seja judia de origem alemã, ela se mostra no seu cinema uma autêntica nativa italiana. De fato, ela nasceu em Fiesole e fez seu curso de formação na Universidade de Turim.

Eu não conhecia esse cinema de Alice Rohrwarcher, mas ela já é bem ativa após os anos 2000. Esse Lazzaro Felice é produção do ano passado. E vejam como os filmes de Alice têm nomes provincianos, tais como: Le Meraviglie (As Maravilhas, que talvez tenha a ver com o nome da diretora e a estória de Alice), Corpo CelesteLe Donne dela Vucciria. O sentimento que tive foi de que Alice Rohrwarcher lidera um grupo na região de Turim e faz um cinema para agradar aos seus. E com a participação deles.

Em Lazzaro Felice, na verdade não temos a história de um Lázaro, pois na primeira metade do filme tudo acontece em torno de uma família aristocrática que, ao que parece para fugir do mundo capitalista, vai morar numa região tradicional e quase deserta. Na segunda parte é que a estória se desenvolve em torno de Lazzaro e de sua desdita pelo fato de ter seguido o caminho da cidade, e nesse caminho vai mesmo sem querer até o momento do desastre final.

A gente pode ficar se pensando o que aconteceria se o belo Lazzaro Felice fosse dirigido por um cineasta homem; o filme seria, por exemplo, mais contundente. Claro que não seria o mesmo produto. E não só por ser feito por uma mulher ou por um homem – mas pelo fato de que cada cineasta sempre terá sua própria expressão artística. Cada artista é um artista. E também se a própria Alice fosse masculina? Também, claro, seria outra pessoa. No Universo sempre cada um é um. É o que nos ensina a filosofia e a própria psicologia.

Talvez um espectador com o senso mais apurado considere que Alice Rohrwarcher tenha perdido um pouco a mão em certos momentos deste seu filme e o ritmo tenha desequilibrado, particularmente nas sequências em que Lazzaro (Adriano Tardiolo) caminha pelas estradas e pela cidade sozinho. Porém, a densidade dramática não é perdida. O que me parece, então, aparecer mais é um clima não agressivo, que poderíamos chamar de mais feminino.

Cena do filme Lazzaro Felice, uma produção italiana que retrata “os velhos tempos”

Há tempos que eu não assistia a uma produção italiana tão parecida com a Itália, essa dos velhos tempos, dos anos 50 e 60 e 70. Sem saudosismos de ‘velhos tempos fascistas’, é bom que se frise. Mas temos em Alice Rohrwarcher uma artista capaz de buscar e encontrar a atmosfera forte de um cinema que certamente fala de um povo.


por Celso Marconi, Crítico de cinema, referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -