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Terça-feira, Maio 28, 2024

Prémios Donostia para Hirokazu Koreeda, Danny DeVito e Judi Dench

José M. Bastos
José M. Bastos
Crítico de cinema

66.º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián

São três os galardoados na presente edição com o “Prémio Donostia”, o prémio de carreira instituído pelo Festival de San Sebastián em 1986 e que ao longo de mais de trinta anos homenageou mais de seis dezenas de grandes intérpretes e realizadores do cinema de todo o mundo.

Hirokazu Koreeda, Danny DeVito e Judi Dench são os nomes que este ano passaram a integrar uma lista impressionante de que constam, e apenas a título de exemplo, personalidades como Woody Allen, Robert de Niro, Al Pacino, Francis Ford Coppola, Julia Roberts, Richard Gere ou Meryl Streep.

Hirokazu Koreeda

O cineasta Hirokazu Koreeda é o primeiro asiático a receber o ‘Donostia’. Nome cimeiro das últimas décadas do cinema japonês (nasceu em 1962), e cada vez mais reconhecido internacionalmente, Koreeda tem estado em San Sebastián com apreciável assiduidade.

Competiu na secção oficial em 1998 com “Wandafuru raifu / After Life”, em 2006 com “Hana”, em 2008 com “Aruitemo auritemo” / Andando e em 2011 com “Kiseki” / O Meu Maior Desejo, filme que lhe valeu finalmente um prémio oficial, o de melhor guião. Recompensa escassa já que nos anos anteriores, e na nossa opinião, os seus trabalhos mereciam amplamente fazer parte do palmarés do “Zinemaldia”. Não foi essa a avaliação dos júris. Melhor sorte teve o cineasta em Cannes, Veneza, Locarno e outros festivais em que foi colecionando prémios.  A presença de Koreeda em San Sebastián tem acontecido também noutras áreas do Festival: na secção ‘Zabaltegui’ com “Nochi-no-hi / The Days After” (2011) e em ‘Perlas’ com “Tal pai, Tal filho” (2013), “Our Little Sister” (2015), “After the Storm” (2016) e “O Terceiro Assassinato” ( 2017).

Grande cronista da sociedade japonesa dos nossos dias, e com grande parte da sua obra centrada no ambiente familiar, o também produtor Koreeda não pode queixar-se dos ‘não especialistas’ que frequentam o Festival de San Sebastián: arrecadou por duas vezes o Prémio do Público , com “Tal pai, Tal filho” e “Our Little Sister”. E agora aqui apareceu (pela décima vez!) com o filme que lhe valeu, há quatro meses, a ‘Palma de Ouro’ de Cannes: “Um Assunto de Família” obra que apresenta no elenco uma das suas colaboradoras mais frequentes, a veterana e grande actriz nipónica Kiki Kirin desaparecida há poucos dias.

Tantas vezes ignorado pelos júris oficiais Koreeda recebeu agora o ‘Prémio Donostia’. O Festival de San Sebastián finalmente emendou a mão.  Face ao passado do realizador no certame basco será caso para perguntar: foi Koreeda que viu o seu currículo enriquecido ou foi o ‘Zinemaldia’ que ficou mais prestigiado por ter o japonês na lista dos Prémios Donostia?

Danny DeVito

Outro dos galardoados foi o norteamericano Danny DeVito. Actor, argumentista, produtor e realizador, este artista polifacetado e extremamente versátil, nascido em 1944, é uma das figuras mais populares da televisão americana. Foi de resto aí que obteve os principais prémios da sua carreira: Emmys e Globos de Ouro. Com significativas passagens pelo teatro, nomeadamente na Broadway, a sua filmografia é também relevante com várias dezenas de títulos, alguns deles particularmente importantes. Por exemplo, “Voando sobre um ninho de cucos” de Milos Forman, “A Caminho do Sul” de Jack Nicholson, “Laços de Ternura” de James L. Brooks, “Por favor, matem a minha mulher” de Jerry Zucker, “As Virgens Suicidas” de Sofia Coppola ou “O Grande Peixe” e “Batman Regressa”, ambos de Tim Burton. Em alguns casos Danny DeVito, tido como um dos grandes nomes do humor, tem acumulado as suas performances na interpretação com o trabalho de realização (“Atira a Mamã do Comboio”, “A Guerra das Rosas”, …) ou produção (“Pulp Fiction”, “Homem na Lua”, ”Jogos quase perigosos”, “Erin Brokovitch”, …) ou ambas as coisas, como em “Hoffa – O Preço do Poder” (filme com argumento de David Mamet e com Jack Nicholson como protagonista principal).

Judi Dench

O outro ‘Prémio Donostia’ deste ano foi para a actriz inglesa, já octogenária, Judi Dench. Como muitos dos principais intérpretes britânicos, também ela começou, na sua juventude, por ser fundamentalmente actriz de teatro com particular enfoque no reportório shakespeariano. Alíás, durante toda a sua longa carreira, Judi Dench tem sido, em primeiro lugar, uma actriz de teatro, das mais importantes da sua geração.

Não obstante, a sua contribuição para o universo cinematográfico é relevante. Com um Oscar de actriz secundária pela sua interpretação de Isabel I em “A Paixão de Shakespeare” de John Madden (1998), e um BAFTA, um Globo de Ouro e uma nomeação para o Oscar com “Mrs. Brown”, do mesmo John Maden, Judy Dench tem um currículo recheado de prémios:  vários Globos de Ouro, 10 prémios BAFTA, 8 prémios ‘Lawrence Olivier’, entre muitos outros.

Também nomeada para os Oscares pelos seus desmpenhos em “Chocolat” de Lasse Hallstrom, em “Iris” e “Notes on a Scandal” de Richard Eyre e em “Mrs Henderson Presents” e  “ Philomena”, de Stephen Frears,  da lista de filmes em que participou (para além de sete dos “James Bond”, de “GoldenEye” a “Skyfall”), constam, por exemplo, “Chá com Mussolini” de Franco Zeffirelli, “Quarto com vista sobre a cidade” de James Ivory, “Henrique V” e “Hamlet” de   Kenneth Branagh, “Nine”, de Rob Marshall; “Jane Eyre”, de Cary Fukunaga; “J. Edgar”, de Clint Eastwood; “O Exótico Hotel Marigold” e a sua sequela, ambos de John Madden ou  “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children” de Tim Burton.

Para ilustrar a presença de Judi Dench en San Sebastián foi apresentado o seu mais recente trabalho: “Red Joan” / A Espia Vermelha, de Trevor Nunn. Baseado em factos reais, conta a história de uma jovem inglesa estudante de Física que se envolve num grupo comunista da sua universidade. A sua carreira profissional vai levá-la a ter acesso a informação privilegiada que, depois da deflagração das bombas em Hiroshima e Nagazaqui, ela vai fazer chegar à União Soviética. Dezenas de anos mais tarde será julgada por espionagem e traição mas ela assume, até ao fim, que com a sua atitude contribuiu para a paz mundial. O que é verdade é que a bomba atómica nunca mais foi utilizada…

Retrospectiva clássica: Muriel Box

A exemplo do que tem vindo a acontecer na maior parte das edições também este ano a programação inclui uma retrospectiva clássica. E se, muitas vezes, o realizador evocado é um criador muito conhecido, noutros casos os espectadores têm oportunidade de aceder à obra de autores quase completamente caídos no esquecimento. É este o caso presente. Confessamos que, para nós, Muriel Box era uma completa desconhecida.

Esta britânica, nascida em 1905 e falecida em 1991, foi escritora (para teatro e cinema), guionista, produtora e realizadora tendo desenvolvido a sua actividade ente 1945 e 1964. Os seus trabalhos abordam temas na época quase interditos e que viriam a chegar aos ecrãs com mais ‘normalidade’ nas décadas seguintes. A prostituição, o abuso de menores, o aborto, os filhos ilegítimos ou o sexo adolescente perpassam no cinema de Muriel Box com uma ousadia e uma clareza surpreendentes tendo em conta o contexto social, e em particular o puritanismo, da Inglaterra do pós-guerra.  Não é por isso de estranhar que, apesar da sua filmografia ter ficado num ‘limbo’, ela seja frequentemente referida como uma das grandes influências dos cineastas britânicos das décadas seguintes e, em particular, dos do chamado ‘realismo britânico’. A obra de Muriel Box sucede a uma época quase totalmente dominada por filmes de filmes de comédia e integra-se num movimento que passa a fazer uma abordagem mais séria e profunda da sociedade da época, não só no registo de drama mas também na forma policial, melodrama ou ‘comédia romântica’.

Autora que, se actuasse nos nossos dias, poderia ser considerada integrando o ‘cinema independente’, Muriel Box é também comparada pelos estudiosos da história do cinema a outras mulheres, como as norteamericanas Dorothy Arzner e Ida Lupino, iniciadoras de um discurso feminista no cinema e pioneiras da afirmação das mulheres no contexto da produção e realização.

Em 1946, Muriel Box ganhou o Oscar para o melhor guião original por “The Seventh Veil”, filme realizado por Compton Bennett.

A retrospectiva apresentada em San Sebastián foi constituída por 28 filmes e contou com a organização da Filmoteca Espanhola e a colaboração da Filmotecas Basca e Valenciana.

 

 

 

 

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