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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Entre o crer e o acreditar

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

Num encontro recente com pessoas habituadas a refletir sobre temas que vulgarmente chamamos religiosos, falávamos de fundamentalismos e do fundamentalismo crescente na Igreja Católica de um pequeno mas duro grupo de contestatários que combate a linha traçada e sobretudo aplicada por Francisco à Santa Sé e à imensa hierarquia que dela depende.     Sempre que se levanta uma alcatifa, saem os ácaros, e a Igreja Católica, do topo à base, tem um inquietante exército desses ácaros, que veem heresias nas reformas ou no bom senso, mesmo no acompanhar dos tempos, andando agora a ganhar coragem para deitar as unhas de fora – quando é tempo, possivelmente, de uma união e não de uma fratura, pois o mundo está realmente ameaçado e não é, obviamente, pelas reformas religiosas ou mesmo pela religião que essa ameaça surge ou pode ser combatida. Provavelmente, esses conservadores agem em nome de uma outra heresia, aquela que todos os fundamentalistas usam para enriquecer e cumprir os seus mais nefastos objetivos, e os daqueles que servem, pois são sempre servos e nunca homens livres.

Há dias, nas redes sociais, um desses servos, pobre homem, vociferava com os elementos do presépio do Vaticano e bufava e repetia: “só gostava que me explicassem porque estava lá um homem nu” (referia a figura de um homem nu, considerada por muitos como “homoerótica demais” que faz parte de um conjunto de 20 estátuas de, em média, 2 metros de altura cada uma, criado pelo artista Antonio Cantone e doado por monges beneditinos da abadia de Monte Vergine, no sul da Itália. Ocupando cerca de 80 metros quadrados, as figuras que acompanham as tradicionais imagens de Maria, José e Jesus representam as sete Obras de Misericórdia corporais recomendadas pelo papa Francisco: Dar de comer a quem tem fome; Dar de beber a quem tem sede; Dar pousada aos peregrinos; Vestir os nus; Visitar os enfermos; Visitar os presos; Enterrar os mortos.

A peça que especificamente representa “vestir os nus” inquietou os tradicionalistas e provavelmente os que são incapazes de ficar sexualmente calmos perante um corpo nu. Toda a beleza da obra e da sua simbologia, entraram diretamente na interpretação suja de alguns intérpretes que vociferaram, pedindo polémica: “só gostava que me explicassem porque estava lá um homem nu”).

Quem estuda história religiosa, sabe como a Igreja e os seus fundamentalista e fundamentalismos perseguiram cristãos e mataram mulheres e homens bons. Para quem não sabe, a Santa Inquisição nasceu para perseguir cristãos que, à margem da sede da Igreja, interpretavam a sua fé à sua maneira. Essa palavra, fé, merece profunda reflexão. Ainda hoje existe, sob a nova designação de Congregação para a Doutrina da Fé (em latim Congregatio pro Doctrina Fidei, CDF) e é a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, um dos órgãos da Santa Sé. Substituiu a Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício, que anteriormente chamava-se Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal da Idade Moderna, e era responsável pela criação da Inquisição em si. Luis Ladaria é hoje o seu chefe hierárquico. Entre 1981 e 2005 foi o Cardeal Raztzinger, isto é, mais tarde o Papa Bento XVI (entre 2005 e 2013; hoje é Papa Emérito e Romano Pontífice Emérito da Igreja Católica).

Embora algumas pessoas pareçam confundir formas de vida, a fé não é uma opinião, ou um juízo de valor, mas uma coisa mais profunda e elevada, por traduz a adesão através de uma forma incondicional a uma hipótese que, desde que aceite, enrizada e estabelecida como padrão do sentir e do pensar, muitas vezes também do agir passa a ser uma verdade. Em nenhuma circunstância, portanto, é possível duvidar e ter fé. Pois isso é incompatível. Assim como é completamente inútil procurar modificar a fé de outro.

É quando se fala de fé que se fala de crer. É quando se dá crédito a uma ideia ou a uma pessoa, por exemplo se ela crê, que se fala em acreditar. Quando se vê o exército inimigo à nossa porta acredita-se no perigo e na sua força. Quando se sente que não há exército capaz de alterar quem somos, é de crer que estamos a falar.

Quando falamos de fé somos levados, erradamente, para o campo das religiões. Também será errado pensar no homem religioso, aquele que é capaz de sentir, ter, acreditar nas formas estruturadas da religião, como a religião que lhe dá estrutura. O homem religioso crê. A religião organiza-o, depende dele, estrutura e planifica a sua crença. Podemos ter fé em sistemas que não são religiosos, por exemplo em sistemas meramente culturais. A ambiguidade reside também no facto dos sistemas religiosos serem também sistemas culturais, o que pode confundir o raciocínio. As religiões são tipos concretos de sistemas culturais e de crenças , além de visões de mundo, que estabelecem os símbolos que relacionam a humanidade com a espiritualidade e seus próprios valores morais. A fé é muito mais importante e essencial: é um estabelecimento do crer em cada um, de forma inequívoca, inegável e verdadeira para quem foi capaz de a sentir. Nos dias que correm, parece ter pouco a ver com a religião e nada com aqueles que em vez de correr a vestir os que estão nus, perguntam alarvemente porque não têm roupa.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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