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João de Sousa

Terça-feira, Junho 22, 2021

Primeiros números sobre a crise

Arnaldo Xarim
Economista.

Apesar de ser prematura qualquer avaliação rigorosa, ninguém duvide que os elevados custos da actual situação sanitária, tal como sucedeu com todas as crises anteriores, irão recair em breve sobre as populações.

Confirmando-se que os governos reagem ao aparecimento de situações de crise, especialmente quando a dimensão da referida crise é significativa, a pandemia Covid-19 está a constituir, pelas suas consequências económicas e sociais, uma crise de dimensão ainda difícil de fixar. As medidas até agora tomadas para limitar a sua propagação, e em especial as medidas para a sua contenção, estão a desencadear um choque recessivo de grande escala, talvez sem paralelo na história recente.

As ondas de choque chegaram à economia pelo lado da oferta, devido a interrupções na produção, e pelo lado da procura, pelo facto de as famílias não conseguirem manter os seus habituais níveis de rendimento. A resposta à crise da saúde, expressa no esgotamento das capacidades médicas e sanitárias, mediante o confinamento das populações, traduziu-se numa redução drástica da actividade económica, pesou negativamente sobre o emprego, sobre o rendimento e a situação financeira das empresas. Alguns sectores, como o comércio, a restauração e o turismo, foram especialmente afectados, necessitando de ajudas directas (subvenções orçamentais) ou indirectas (empréstimos garantidos, ajudas de liquidez) que foram aplicadas pelas autoridades monetárias (bancos centrais), levando, inclusive, a que a resposta, dos governos e dos bancos centrais, até ultrapassasse normativos em vigor.

A partir dos resultados, provisórios, da evolução da economia em 2020, e da estimativa feita pelo Fundo Monetário Internacional dos montantes das ajudas, tanto orçamentais como de liquidez, o economista francês Jacques Sapir produziu um trabalho (resumido no quadro anterior) que oferece uma primeira ideia do esforço e capacidade de reacção dos governos, permitindo ainda avaliar quais os que reagiram de forma mais profunda ou mais moderada. Os dados compilados, relativos a 25 países, de várias regiões e orientações económicas e relativamente aos quais existem algumas garantias sobre a qualidade dos dados de 2020 (a excepção são as regiões de África, Médio Oriente e América Latina), analisa a evolução do PIB para 2020 e os montantes das ajudas orçamentais e de liquidez discricionária (em percentagem do PIB).

Este grupo de 25 países inclui os principais membros da Zona Euro e da UE, EUA e Canadá, Austrália, Japão, Coreia do Sul e Indonésia, onde impera o modelo ocidental de economia aberta, mas ainda a Rússia, China, Índia e Vietnam, que apresentam modelos económicos menos liberais; à excepção de três – China, Irlanda e Vietnam – todos registaram quedas no PIB em 2020, com especial destaque para a vizinha Espanha, que, com os 11% registados, atingiu a quebra mais elevada.

Todos os países optaram ou viram-se compelidos a criar programas de apoio às suas economias, situação em que se destacaram o Japão e a Itália, com despesas acima dos 40% do PIB, logo seguidos pela Alemanha e pelo Reino Unido, com valores de 38,9% e 32,4%, respectivamente.

Estes e outros aspectos curiosos ressaltam da mera comparação entre a evolução anual do PIB e o volume de apoios (orçamentais e à liquidez) decidido por cada governo.

Aqui é especialmente interessante constatar a inexistência de uma correlação directa e rigorosa entre os apoios e a queda do PIB, sendo especialmente notórios os exemplos do Japão, que reagiu a uma queda de 4,8% no PIB com incentivos da ordem dos 44%, da Espanha, que resolveu alocar apenas 18,6% do PIB face a uma quebra de 11% na actividade económica nacional, ou do Reino Unido, que respondeu a uma queda de 9,9% no PIB com apoios que totalizaram 32,4%.

Não existe, do mesmo modo, relação directa entre os montantes das ajudas e os sistemas económicos mais liberais e os menos liberais, com os primeiros a apresentarem uma queda média do PIB de 5,5% e apoios na média de 19,6% do PIB e os segundos a apresentarem uma queda média no PIB de 1,5% e apoios de 4,9%, em média. Merecendo, talvez, destaque nesta comparação o facto de duas (China e Vietnam) das três economias que registaram crescimento no PIB pertencerem ao grupo das economias menos liberais.

No que se refere à ajuda orçamental, apenas nove países (36%) estão acima da tendência, incluindo três (Austrália, Estados Unidos, Japão), muito acima e com um diferencial superior a 100%, a reagiram de forma muito clara e vigorosa às consequências económicas da pandemia; a estes segue-se outro grupo de três países (Canadá, Reino Unido e Alemanha) com desvios da tendência do apoio orçamental situados entre 90% e 45%.

Já no que respeita às ajudas directas ou à liquidez, onze países apresentam um desvio positivo da tendência, com seis deles (Irlanda, Japão, Alemanha, Itália, Coreia do Sul, China) a apresentarem desvios de 99% ou mais, acima da tendência.

Se observarmos agora o total da ajuda, vemos que os países se distribuem quase equitativamente acima (13) ou abaixo da média (12), com dois dos primeiros (Bélgica e China) a situarem-se sobre a média e o grupo dos segundos a ser quase integralmente constituído pelas economias mais débeis e frágeis, como a portuguesa, que tendo previsto gastar 21% do PIB se ficou por uns meros 11,2% (desvio de quase 50%) e que até a Grécia está a conseguir realizar um esforço quase 50% superior ao nosso.

Entre os países que menos ajudaram as suas economias encontramos, além de Portugal, aqueles que o terão feito por opção ideológica ou política (Áustria, Eslováquia e Rússia) e países onde as consequências da crise da saúde foram baixas (caso do Vietnam) ou aqueles onde os meios serão mais limitados.

A evidente fragilidade da posição portuguesa deve ser cotejada com a aparente satisfação dos nossos líderes, tanto mais que estamos muito longe dos países que mais procuram ajudar as suas economias em face das consequências da crise de saúde.

Esta pequena comparação evidencia não só o valor relativo das opções de cada governo e a respectiva posição relativa, mas também o contributo da crise da saúde na revelação dos princípios e pressupostos ideológicos de cada um.


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