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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

O despertar da França

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O assassínio jihadista do professor Samuel Paty parece ter finalmente despertado as elites francesas para a necessidade de responder à ameaça fascista que pesa sobre o país em particular e a Europa em geral.

  1. A essência do crime

O assassínio jihadista do professor Samuel Paty parece ter finalmente despertado as elites francesas para a necessidade de responder à ameaça fascista que pesa sobre o país em particular e a Europa em geral.

Como sempre, a brigada de apaziguadores – que dos tempos de Hitler até hoje pouco mudou – procura diluir os factos, encontrar desculpas, identificar bodes expiatórios. O famoso cartoon do ‘Charlie Hebdo’ erradamente denominado de caricatura, não é de forma alguma ofensivo para a figura do profeta do Islão, e na verdade, projecta-o com uma imagem favorável, como se opondo aos fanáticos que falam em nome dele.





Sendo o debate sobre os limites da liberdade de expressão perante as crenças religiosas um debate interessante, ele nada tem a ver com este cartoon; e a ser travado ele teria de o ser a respeito de um sem número de publicações do Charlie Hebdo como de outros órgãos de comunicação social que caricaturam os protagonistas da religião cristã de forma ofensiva.

Depois, claro, temos o argumento de que se tratou de um ‘acto isolado’ de um menor, e não de um grupo, argumento que as autoridades justamente refutaram, acusando o líder da organização antissemita Cheikh Yassine ligada ao grupo jihadista Hamas de autoria moral do crime.

Este parece-me ser o ponto essencial da luta contra o jihadismo. O jihadismo no seu estado mais puro caracteriza-se sempre pela tríade: doutrinação, apoio logístico e executante. O doutrinador não tem a mínima intenção de colocar a sua vida em risco e utiliza apenas as palavras suficientes para ser entendido. Várias fatwas de Khomeini decretaram explicitamente o assassínio por ‘espalhar a corrupção na terra’ enquanto outras mais recentes de Khamenei apenas classificam o acto de ‘grande pecado’ sem explicitarem a pena, mas deixando-a subentendida.

No outro extremo encontra-se o executante, que é de preferência uma criança ou qualquer outro elemento da sociedade que se considera frágil e de cuja vida se despreza o valor, e que se oferece como mártir (como aconteceu neste caso).

Walter Laqueur

Devo ao mais importantes dos historiadores do jihadismo, o recém-desaparecido Walter Laqueur, a compreensão de que é errado entender isto como suicídio, porque se trata na verdade de um duplo assassínio: o da vítima e o do instrumento do crime.

E em terceiro lugar temos a rede de apoio logístico que, por agora, está apenas provada nos pagamentos feitos aos jovens que identificaram a vítima mas que, se obedecer ao padrão geral, passa por pagamentos regulares feitos à família do instrumento do crime bem como a outros elementos da cadeia logística de maior ou menor importância.

É esta a essência do assassínio jihadista que não precisa de estruturas organizativas e cadeias de comando pesadas e complexas para se fazer sentir, embora não os dispense em atentados de maior dimensão, como qualquer outra actividade de maior complexidade.

O discurso oficioso ocidental sobre o jihadismo está feito para que nada disto se entenda. Metamorfoseia a lavagem ao cérebro em ‘radicalização’, como se o problema fosse a forma radical com que a juventude por sistema tende a olhar para a realidade e não a sua submissão à doutrinação obscurantista; privilegia a figura do ‘lobo solitário’ para que não se vejam os cabecilhas ideólogos e a rede logística; pretende ver formas organizativas típicas do Ocidente como critério distintivo para identificar as redes islamistas que nada têm a ver com essas formas organizativas.

É por isso que a forma como as coisas estão a ser enfrentadas em França me parece denotar uma salutar mudança.

  1. O debate sobre o Islão

Não há religião – ou pelo menos grande corrente religiosa – que possa afirmar que nunca se matou ou exerceu violência em seu nome, sendo a evidência histórica do facto tão abundante que me parece desnecessário insistir no ponto.

Daí a dizer que devemos olhar para a violência organizada contemporânea em nome de qualquer religião de forma equivalente, a distância é grande. Não é possível fazer qualquer paralelo entre a dimensão global, o nível de barbárie e a importância política da violência posta em prática por dirigentes fanáticos islamistas de várias escolas e credos e a violência feita em nome de outras religiões.

O jihadismo moderno é totalitário, aquilo que eu considero o seu texto fundador, a Jihad, de Maulana Maududi de 1927, ambiciona o poder mundial a exercer-se em toda a esfera da vida humana.

Abul Ala Maududi

Pelo contrário, não creio que isso sempre tenha sido assim ou que tenha necessariamente de ser assim no futuro, para além de que é um completo abuso considerar todo o muçulmano como jihadista e, pelo contrário, são em geral os muçulmanos quem mais sofre na pele o jihadismo, quem melhor o entende e quem por essas duas razões o combate de forma mais determinada e consequente.

A forma como a direita tradicional e a pintada de vermelho colocam a questão do ‘Islão’ como sendo algo que deva ser considerado em bloco, como mau ou bom, parece-me por isso ser falsa e conducente aos maiores erros e desastres. Em particular, aqueles que vêm necessariamente no Islão a religião da violência (como obviamente de forma risível, os que dizem ser esta por natureza a religião da paz) estão a distorcer a realidade.

O Islão, como outras religiões, é complexo e multifacetado e não cabe seguramente na dicotomia e disputas infindáveis das várias correntes jihadistas, todas elas unidas no credo totalitário, mesmo quando se guerreiam entre si pelo poder, e passa seguramente por inúmeras correntes que defendem pontos de vista humanistas e tolerantes.

Há que esclarecer aqui que os que usam o chavão de Islão ou muçulmanos para as suas generalizações o fazem de uma forma desonesta. A administração Obama que pretende não discriminar os muçulmanos foi na verdade quem mais discriminou os muçulmanos não fanáticos, apoiando a ditadura teocrática e ignorando – quando não mesmo perseguindo – os seus opositores.

A mesma coisa se pode dizer de Marine Le Pen. Acaso alguém já a viu denunciar os crimes da teocracia iraniana? E o que tem ela a dizer sobre o Emirato da Chechénia e os seus crimes cobertos por Putin? Neste caso, eles poderão estar mesmo em relação directa com o atentado.

A única forma de considerar a questão é com conhecimento, com equilíbrio e sem qualquer concessão no plano dos princípios.

  1. A mudança de estratégia

A mudança de estratégia das autoridades francesas tem um atraso de décadas, mas mais vale tarde do que nunca. Ela assenta na compreensão de que o cerne do problema está na doutrinação jihadista. A este propósito, convém ter em conta que não são raros os casos de fanatização de jovens que não têm qualquer laço familiar ou outro com países muçulmanos, como convém naturalmente ter em conta que são os muçulmanos que rejeitam o fanatismo os que o melhor o combatem.

A escola é agora o palco de batalha, e já não a obrigatoriedade da escolarização como acontecia no passado, e isto porque o jihadismo passou da aprendizagem informal em casa ou das escolas corânicas para a escola pública, como este assassínio bem exemplifica.

A guerra das ideias, da verdade e da humanidade contra o obscurantismo e o fanatismo tem que ser travada na senda do exemplo de Samuel Paty e é dela que vai depender o sucesso do que temos pela frente.

As medidas clássicas de segurança são naturalmente indispensáveis mas não são de forma alguma o essencial. Quem quiser remeter isto a casos de polícia, como tem acontecido até aqui, fracassará inapelavelmente.

A grande questão que raramente é equacionada está no entanto para além disto, e coloca-se na dimensão global do fenómeno.

É fácil aderir à ideia de que isto se resolve fechando as fronteiras, ideia que tem estado na base do aumento exponencial da popularidade do populismo tradicional um pouco por todo o mundo.

Aqui, há naturalmente que ter em conta que uma coisa é a emigração, outra a colonização, e que a abertura desregrada de fronteiras para a trasladação em massa de populações sem cuidar de ver se elas querem adaptar-se a novas culturas e valores é a receita para o desastre. Pior ainda é considerar como refugiados políticos, gente que professa um ódio total aos valores que regem as nossas sociedades, e isto aconteceu comprovadamente vezes sem conta, estando por saber se não foi este o caso do estatuto dado à família chechena do jovem instrumentalizado.

Posto isto, a questão essencial é a de que a globalização é um facto e nada faz prever que venha a ser invertida. Uma coisa é contestar as estruturas políticas que gerem a globalização, o casamento que elas representam entre as declarações ocas, as ditaduras e o ‘big-business’, outra é achar que nos podemos alhear do que se passa no resto do mundo.

O fanatismo islâmico tem a dimensão que tem porque é impulsionado a partir de aparelhos de Estado, sendo a teocracia iraniana o exemplo acabado desse facto com vários outros candidatos e seguir-lhe os passos.

Julgar que se vence o fanatismo fechando as fronteiras e os olhos à repressão interna dos regimes jihadistas, à sua expansão para a vizinhança, e ao seu armamento atómico, como o propõem mais abertamente Le Pen ou Joe Biden e menos claramente a generalidade dos dirigentes políticos ocidentais, é um erro de trágicas dimensões e a receita para um naufrágio da nossa civilização.

Para que este despertar da França seja consequente é essencial que se entenda a globalidade do desafio e que não se fique a meio caminho.


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