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João de Sousa

Domingo, Outubro 17, 2021

Quando se ouve Chico Buarque

Ludwig Van Bethoven disse que a música é o vínculo que une a vida do espírito à vida do sentido.

Eu estive escutando Chico Buarque, e como é bom! Suas canções são como aqueles livros de romances, contos, crônicas ou poemas que você lê mil vezes e não se cansa, e a cada leitura encontra novidades. Estive escutando Chico ao lado de uma mulher linda, e que gosta de música boa, e estivemos conversando sobre música e o que ela nos ensina. Foi em um sábado à noite, já faz alguns dias, mas só agora me veio esse pensamento.

Geni e o Zepelin

E comecei a pensar na canção Geni e o Zepelin, ative-me a esta canção, e acabei mergulhando numa reflexão que resultou numa constatação: Geni e o Zepelin não é apenas uma canção que traz uma narrativa sobre a ingratidão. Geni não é apenas uma mulher que fora injustiçada e maltratada porque era dada às orgias com os desvalidos. Geni não é somente uma alusão à Maria de Magdala. Geni é um todo coletivo e múltiplo, atemporal, plurissignificativo.

Geni é todas as mulheres, as que se prostituem para sobreviver e alimentar os seus, as que trabalham durante o dia e duplicam sua jornada, as que ficam em casa cuidando da prole, e todas as outras injustiçadas de alguma maneira.

As primeiras porque são julgadas a partir de epítetos que as desqualificam, sofrem injúrias e violência, sem que aqueles que a praticam saibam as razões de essas mulheres levarem aquela vida. As segundas porque mesmo com a jornada dupla, ainda são tão competentes quanto os homens em suas profissões, contudo recebem menos pela execução de seu trabalho e tantas vezes em casa não tem o reconhecimento do companheiro e filhos que a sobrecarregam com afazeres domésticos. As terceiras porque escolhendo ficar em casa cuidando do lar, e da família, tantas vezes são negadas quanto agentes na cadeia produtiva – Minha mulher não trabalha! – É o que se ouve sobre estas mulheres.

Para quem crê que a canção é uma alusão à Maria Madalena, duas informações: Ela nunca foi prostituta, e sim pertencia a uma comunidade de cultura mais livre e a ideia de tal epíteto se deve à cultura católico-cristã que a priori renegou a figura feminina, deixando para ela um papel secundário, até a necessidade de atrair fieis fazê-la render-se a outra mulher, Maria, a mãe de Jesus.

Dito isto, creio em que Geni é um produto metafórico andrógino colhido da tradição bíblica cristã (João, 8, 1-11), lá a pedras que eram atiradas na mulher bíblica eram para Geni na música, mas acertaram em Jesus. O sacrifício a que se submeteu Geni se equipara ao sofrido por Jesus segundo a narrativa bíblica. Ambos se submeteram para a remissão e salvação de um povo. Povo este que os perseguia antes, depois e até hoje os persegue.

Essa perseguição fica mais perceptível em dias de agruras como os que estamos vivendo. Quantas Genis “idiotas úteis” dentro das universidades tiveram suas bolsas de pesquisa cortadas? Quantas Genis LGBT`s não estão sendo espancadas neste momento após serem lambuzadas não pelo comandante de um zepelin, mas de um Corolla, Hillux ou BMW prateadas? Quantas Genis, vítimas de seus parceiros, algozes, não adicionaram as estatísticas de feminicídio em todo o país?

Genis crianças esquálidas pelas ruas vendendo balas porque o trabalho dignifica; pequenas Genis estudantes metralhadas quando vem da escola. Genis nos quilombos às arrobas sem serventia nem para procriação. Genis nas tribos tendo seus territórios invadidos. Geni artista quase centenária, dama do teatro, sendo chamada sórdida em praça pública. Geni condenada por um juízo de exceção, inquisitorial, sem provas. Geni boa é Geni morta. Ao praticarmos a alteridade, verificaremos que somos todos Genis.

Mas também somos o povo daquela cidade da canção. Tantas vezes julgamos o efeito e não a causa, e colocamos na mesma balança mega traficantes e simples funcionários. Quando destilamos bordões de aceitação da violência pelas vítimas do tráfico: “mais um CPF cancelado”. Quando condenamos o pequeno e nos omitimos ante a culpa do grande.

Quando nos sentimos superiores por ganharmos um pouco mais que nosso vizinho, e assim assimilamos a causa do patrão. Quando movidos pelo ódio machista, homofóbico e racista perseguimos nossos irmãos.

Quando movidos pela inveja de quem galgou postos e títulos através da dedicação e estudos acadêmicos buscamos desqualificar, desimportantizar o Ensino, a Pesquisa e a Extensão. Quando somos covardes ante a luta e nos omitimos da busca do bem coletivo.

Tudo isso eu sei e percebi ouvindo Chico Buarque, este cantorzinho, que ganhou o prêmio Camões recentemente. Experimente! Escute Chico Buarque e haverá de me dá razão.


por Francinaldo Dias, Professor, cronista, contador de “causos” e poeta | Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Revista Cariri) / Tornado

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