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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Quelimane – Uma cidade capital órfã de cinemas

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Pode-se imaginar a alegria e o entusiasmo das pessoas que se aglomeraram na inauguração do Cine-Teatro Águia em Quelimane nos anos 50. Uma sala de sonho e de sonhos. Desde então centenas e centenas de filmes foram exibidos. A exibição de longas e curtas-metragens multinacionais (americanas, chinesas, japonesas, francesas, italianas, indianas, soviéticas, espanholas, cubanas, checoslovacas, búlgaras, húngaras, portuguesas, brasileiras, alemães de leste e ocidentais, coreanas, egípcias, senegalesas, costa-marfinenses, argelinas) e nacionais, de peças de teatro, de apresentações musicais, de espectáculos de dança que animaram a sala até aos anos 90.

O Cine-Teatro Águia tinha uma sala robusta e sumptuosa, no exterior ainda hoje revela um autêntico e gigante monumento arquitectónico. Era um Ex-Libris da cidade, um postal que orgulhava os Quelimanenses.

Mas é desolador o cenário do seu interior depois do incêndio que para mim ainda me parece suspeito. Em Moçambique desde a morte de Samora Machel o primeiro Presidente da primeira República, aconteceram coisas estranhas, primeiro o incêndio do INC – Instituto Nacional do Cinema em Maputo e depois o desaparecimento sucessivo de várias excelentes salas de cinema em Maputo, muitas delas demolidas ou reconvertidas  e a ascensão meteórica da especulação imobiliária.

Na história da bela e pacata cidade de Quelimane, primeiro surgiu o Cine Chuabo que entrou em decadência nos anos 70 e 80 quando começou a exibir apenas filmes pornográficos e o seu bar foi transformado em sala de moagem de farinha , depois houve uma tentativa de recuperação que não resultou e finalmente foi arrendado por uma Igreja para cultos religiosos, entretanto ardeu o grande, monumental e histórico Cine-Teatro Águia fundado nos anos 50   e agora chegou a vez do  moderno  e relativamente pequeno Cine Estúdio que é património do Sport Quelimane e Benfica  e que foi sabiamente gerido pelo  seu antigo gerente  senhor Barroso.

As imagens “interiores” desoladoras e decadentes que me chegaram dos cinemas Águia e Estúdio e que hoje partilho , fazem-nos lembrar que algo tem falhado na cultura de Moçambique no que concerne à defesa e promoção do património cultural na cidade de Quelimane. E parece não haver responsáveis. Por outras palavras, reina uma cultura de irresponsabilidade.

Também a antiga sede da histórica Associação Africana de Quelimane que também foi clube desportivo onde já se exibiu cinema e havia noites dançantes  e posteriormente foi transformada em Casa da Cultura da Zambézia tinha já sofrido um incêndio de menores dimensões e a Igreja de Nossa Senhora do Livramento (ex. Catedral Velha um valioso património histórico, religioso e arquitectónico da cidade) que primeiro foi arrendada aos Hossana e  foi-se degradando a olhos vistos até ao limite do inviável para uso, até que enfim, um grupo de cidadãos de boa vontade  unidos numa associação decidiu recuperá-la com ajudas e apoios internos e externos privados  e de algumas embaixadas de países europeus amigos. Nem o facto de Armando Artur de Alto Molócuè ter sido Ministro da cultura  e vice-Presidente do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa e ser um ilustre poeta, de Armando Inroga ter sido Ministro da Indústria e Comércio de 2010 a 2015 e posteriormente Presidente do Conselho de Administração da Televisão de Moçambique (TVM), de Salimo Abdula ser Presidente da Confederação Empresarial da CPLP e ter sido Presidente do Grupo Intelec Holdings e Presidente Executivo da Vodacom, de Abdul Carimo Hassamo ser proprietário de uma cadeia de cinemas e Cônsul Honorário da Malásia em Moçambique,de Hélder Muteia ser um alto funcionário e diplomata da FAO e ilustre poeta, de João Ribeiro ser um dos melhores realizadores e produtores de cinema de Moçambique ou de um herói nacional, General Bonifácio Gruveta (entretanto já falecido) serem Zambezianos conseguiram salvar o cinema em Quelimane.

Quem não se lembra que no Cine-Teatro Águia se realizaram sessões de cinema, teatro, música , dança e poesia? Quem não se lembra que lá foram divulgadas obras primas da sétima arte do mundo inteiro com especial destaque ainda para os ciclos de cinema africano, as semanas do dia  mundial da criança com cinema gratuito para todas as crianças quelimanenses  além da exibição regular do Kuxa-Kanema do INC que divulgava notícias actualizadas do país inteiro antes da exibição dos filmes.

O mesmo se passou com o Cine Estúdio com menos anos de vida já nos anos 80 e 90.

Quem duvida que os cinemas são também excelentes auditórios culturais e científicos? Quem duvida que lá se poderiam alocar realizações de grandes festivais e conferências nacionais e internacionais? Como pode desperdiçar-se o potencial que neles existe?

Como pode deixar-se degradar tanto património material que sempre foi, é , será e seria mais valia? Sem esquecer que esse património é escasso à nível local e nacional e que portanto deveríamos proteger, defender e preservar o pouco que existe, o que temos e o que já está erigido  sem deixar de erigir novos empreendimentos sempre que seja possível, viável ou imprescindível.

A justificação de que o cinema já não gera lucro é parola. É de gente com visão curta! E será mesmo o lucro a única vantagem da existência de salas de cinema? Um Quelimanense instalou-se faz alguns anos em Carcavelos /Cascais / Portugal e abriu duas salas de cinema nesta freguesia (luxuosas do meu humilde ponto de vista) e que em certas sessões chega a ter apenas 6 ou 7 espectadores, mas a paixão é tão grande que ele não desiste. Nestes cinemas regra geral passam filmes alternativos de qualidade europeus (sobretudo franceses) que alternam com os sucessos comerciais de bilheteira americanos. E resulta.

Numa cidade pequena como Quelimane, os cinemas podem ser potenciados ;além de se exibirem filmes selecionados e escolhidos estrategicamente e com critério, poderiam usá-los para exibição de peças de teatro nacionais e internacionais, concertos de música nacionais e internacionais com lotação definida, apresentação de cds e livros e alugueres das salas para conferências, congressos, palestras, formação e reuniões diversas.

Lembram-se quando íamos ao cinema aos fins de semana com o nosso melhor fato, os nossos melhores sapatos, a nossa melhor camisa, a nossa melhor maquilhagem, o nosso melhor vestido, – era uma espécie de ritual social das famílias. Ia-se indiscutivelmente para se ser visto e nos socializarmos e no final aprendíamos todos alguma coisa.

Como dizia a sábia académica e historiadora da arte portuguesa Margarida Acciaiuoli “Cada cidade tem o cinema que merece.”

Deste modo fica clara a descrição, de uma profunda tragédia, quase tragicomédia  que é, em traços muito simples a do desvanecimento e morte da indispensável presença urbana do  cinema, no desaparecimento ou na actual e cada vez mais comum demolição, reconversão imobiliária das salas de cinema ou eternização do seu esqueleto e sempre arquitectonicamente facilmente identificáveis  e inconfundíveis  pela sua  fachada.

O desaparecimento das salas de cinema em Quelimane (Chuabo, Águia e Estúdio), equivalem ao desaparecimento da face do cinema na vida e no tecido urbano Quelimanense. Portanto, a cidade ficou mais pobre. O Gúruè é um município da Zambézia de que Quelimane deve seguir o exemplo em nome do porvir e todos são chamados a intervir.

A transformação do Cine Cuabo em Igreja não surpreendeu devido a sua decadência nos anos 70/80, o incêndio que destruiu o Cine Teatro Águia(o maior da cidade) e o estranho encerramento  do moderno Cine Estúdio e a retirada das suas cadeiras, encarregaram-se de dar um final improvável a essa história que tornou Quelimane órfã de cinemas. Será que a história do cinema encerrou/terminou em Quelimane?

O que é fascinante no cinema é essa capacidade de os cineastas estrangeiros se darem a conhecer e de os cineastas  africanos  darem voz aos africanos, de forma a poderem comunicar de forma clara dentro das suas fronteiras e para além delas e dos seus espaços geográficos e com públicos diversos de outras esferas.

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