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Sábado, Setembro 25, 2021

Recado aos senhores “civilizados”

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”
Leon Tolstói

Por vezes «a montanha acaba por parir um rato», já diziam as Fábulas de Esopo, depois renovadas por Horácio.

Talvez nas montanhas haja esgotos e certamente alberguem alguns ratos com hábitos e vícios duvidosos.

Embora respeite as pessoas por aquilo que são e não por aquilo que aparentam ser, não me apraz nada registar que não há regra sem excepção, isto é, há pessoas que são o que são, mas também aparentam em absoluto ser aquilo que são.

O total desprezo pelas origens  denota com clareza a ausência de carácter e ética desses artolas coloquiais. Não são os títulos de Bacharel, DR., Mestre, Doutor ou Professor Doutor alcançados na Europa ocidental ou nos EUA que nos devem levar a deixarmos de ser modestos, humildes, éticos, moralistas, correctos e altruístas, nem os cargos oficiais de liderança (temporários) que nos devem tornar egocêntricos, egoístas, snobs, anti-éticos e amorais, que nos devem levar regra geral a olhar para o outro de alto a baixo (o que ainda acontece infelizmente), que o céu até tem dono. Ou não será?

Num líder, a maior virtude está em reconhecer no povo (dos indígenas) um aliado natural e nele buscar orientação, força, coragem na busca dos caminhos mais acertados. Sempre com a humildade dos grandes. Sem povo há governação?

O povo (indígena) só é útil quando vota?

Os cargos oficiais são temporários, mesmo em ditaduras e mais curtos ainda em democracia. Feitas as contas, não são vitalícios, pois não?

Escusado será dizer que estamos todos de passagem, não é?

O povo (indígena com virtudes e defeitos), esse permanece sempre, mesmo que em permanentes metamorfoses e adaptações, próprias da vida humana e que lhe permitem resistir e existir.

Portanto, antes de disparatarmos quando alcançamos estatutos que perseguimos (com ética ou sem ela), devíamos reflectir sobre a importância da nossa origem e do nome que nos foi atribuído. Já pensaram no significado e no valor que cada nome encerra, senhores “civilizados”? E na nossa história pessoal, pensaram?

Já pensaram que antes de sermos “Bacharel, Dr., Mestre, Doutor, Professor Doutor”, já tínhamos um nome? Já éramos aquilo que somos? Sabiam que esses nomes nos remetem para as nossas origens? Para a nossa história? Para o nosso Húmus? Que possuem um significado intrínseco em si?

Valerá a pena ignorarmos as nossas origens, o nosso nome e seu significado, a nossa história, a nossa formação humana integral em nome dos disputadíssimos cargos de liderança oficiais temporários ou da formação académica convencionada em sociedade dita civilizada?

Em nome da dominação, valerá a pena tornar o mundo um lugar mau? Demasiado mau? Pior do que já está? Onde uns vivem e outros apenas sobrevivem?

Nós todos formamos o corpo da montanha, todos somos parte da montanha que nos pariu. Se não a acarinharmos e não a respeitarmos, jamais poderemos guiá-la e liderá-la!

Eu, um humilde vate, sou demasiado pequeno para isso, demasiado cobarde para tamanha façanha, sou mesmo um fraco, mas senhores “civilizados” e anti-indígenas, na verdade, não me pude conter e, vai daí, aquele desabafo.

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