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Domingo, Novembro 28, 2021

“Foi como um rio”

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

 Foi como um rio é a 3ª obra publicada pelo autor, antecedida de Jogo de janelas (2012) e Terra da paciência (2013). Nesta obra, Francisco Ceia dá continuidade a um estilo muito próprio, em que usa magistralmente as palavras para dar conta da magia e do encanto que ressalta em todos os seres. Ao que junta uma fina ironia sobre as fraquezas humanas e um claro sentido crítico sobre a realidade social, sobre o(s) podere(s) e as opressões que tolhem a humanidade.

Em 314 páginas com a chancela das Edições Colibri e com uma belíssima capa de Raul Ladeira, o autor coloca as palavras a navegar num rio de 22 margens onde, para deleite dos leitores, surgem os mais inesperados acontecimentos, aí por meados do século XX, num espaço que é o Norte Alentejano mas que pode ser o mundo pois Um rio é uma árvore de água, filho do choro da chuva doce, escrito no corpo do mundo.

Estamos, de facto, face a um rio que corre, ora sereno ora tormentoso, que desliza como enorme caudal de palavras através das quais se pretende alcançar o que de maravilhoso, cómico e trágico preenche o tempo dos seres que nele habitam. Um rio onde todos são (somos?) náufragos. Porque este rio é casa e é pássaro, não andorinha de louça mas pintassilgo. Pai… os pássaros nascem das árvores?…e as pessoas podem ser pássaros…?

Em cada uma das 22 margens Francisco Ceia levanta pontas, desafia-nos à interpretação, à realização de um entrelaçado do texto. Convida-nos a participar, também, na criação da obra. De facto, não há aqui uma história, não há um enredo, há pessoas que habitam um certo espaço e que nos vão dando sinais do que é a sua vida e do que caracteriza um determinado tempo histórico. Com efeito, as obras de Francisco Ceia são sempre uma aproximação aos meandros da História: é de seres situados e das suas circunstâncias que nos fala. Em todas elas estão presentes elementos comuns, um deles consiste na descrição das situações de opressão que, apresentando tonalidades diferentes, são, nos vários contextos, os muros que se colocam à liberdade individual e colectiva. De pensar, de ser e de agir.

Em simultâneo, a obra revela uma imaginação prodigiosa e um intenso sentir poético acerca da própria realidade física onde se desenrola a acção dos seres humanos. A banalidade do quotidiano, de um quotidiano de pobreza, e de vida simples numa cidade do interior em meados do século XX, é expressa numa linguagem de grande beleza estética e aparece a nossos olhos cheio de encanto e de magia

São diversificados os lugares que somos convidados a percorrer: o Jardim Operário, as casas, a do coronel com o seu piano, a sala de costura das irmãs Esperança e Liberdade, cheia de linhas, de retalhos e de muitas expectativas, a rua da Mouraria e as outras vielas e ruas da cidade que o cabo Ralha considera ter como função fazer andar nos eixos, a mercearia do sr. Pereirinha, com os caixotes empinados à parede, a janela da menina Esmeraldina, o coreto, a Sé, o terreiro da feira das cebolas, o café Alentejano e o café Central. E em todos eles, a presença do menino-operário Melim, o que constrói aviões de papel, que, nas suas mãos ganham vida e saltitam, de página em página. Da mesma forma que, a dado momento podem chover do céu bicos de cegonhas no largo do coreto, assim Uma tece o invisível fio do tempo que dá sentido a todos os mistérios guardados numa caixa de madeira.

Na obra anterior, Terra da paciência, uma das personagens, Orat, diz: Talvez se escreva, para que nessa conversa interior, lavrada no chão do silêncio, não se cale jamais, a voz do coração… e tudo se possa dizer, e todos possam ouvir!

É assim. Francisco Ceia escreve como se desenhasse um longo abraço a envolver-nos, como onda de fraternidade universal contagiando-nos. “Como um rio”.

Foi como um rio

Autoria: Francisco Ceia
Temas: Romance

Ano: 2016
Capa: capa mole
Tipo: Livro
N. páginas: 316
Formato: 23×16
Edições Colibri
ISBN: 978-989-689-626-3

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