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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Recuperação social, política e económica

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Inesperadamente em Lisboa, nestes últimos dias, pude-me dar conta pela rádio do ambiente de telenovela que se vive no país. António Costa resolveu ouvir António Costa Silva, o que me parece ser acertado, dado que António Costa Silva foi um dos mais interessantes portugueses que conheci antes de emigrar.

  1. Lagarde no Parlamento Europeu

A Presidente do Banco Central Europeu (BCE) anunciou, no passado dia 4, um significativo aumento do plano de compra de títulos, no contexto da ‘Emergência Pandémica (PEPP, no acrónimo em língua inglesa) que tem agora um limite orçamental de 1350 mil milhões de euros a ser utilizado até pelo menos daqui a um ano e mantido pelo menos por mais dois.

Christine Lagarde, depois de apresentar as decisões do BCE em conferência de imprensa, irá fazê-lo junto da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu no dia de publicação desta crónica, dia 8 de Junho.

De acordo com David Marsh, director do Fórum Oficial das Instituições Monetárias e Financeiras (OMFIF, no acrónimo em língua inglesa) em crónica significativamente intitulada de Kafka e Karlsruhe Lagarde vai tentar dar uma explicação para a política prosseguida que possa ser interpretada como consentânea com a exigência do Tribunal Constitucional Federal Alemão (que tem sede na cidade de Karlsruhe) sem por isso deixar de formalmente responder perante as instituições europeias, num jogo teatral tão complexo que fez lembrar ao autor da crónica o nome de Kafka.

Aquilo de que se trata, na avaliação do BCE e na generalidade dos analistas, é fazer face à maior depressão económica alguma vez registada na Europa, que se estima que atinja os 9% neste ano, conjugada a uma continuada deflação. Para os países mais endividados da Europa – como Portugal – é a única forma de evitar uma catástrofe económica sem precedentes, e é de longe mais importante do que todas as outras medidas e milhões de que se tem falado.

As diatribes da chanceler alemã, os planos de recuperação e as anunciadas chuvas de milhões, como assinalámos aqui na semana passada, terão seguramente um impacto diminuto na resolução destes problemas, pelo que seria bom que olhássemos seriamente para este domínio, que é o que realmente interessa.

  1. A telenovela nacional

Inesperadamente em Lisboa, nestes últimos dias, pude-me dar conta pela rádio do ambiente de telenovela que se vive no país. António Costa resolveu ouvir António Costa Silva, o que me parece ser acertado, dado que António Costa Silva foi um dos mais interessantes portugueses que conheci antes de emigrar; tem visão e tem conhecimento que muito interessam ao país.

Resolveu, para além disso, ou a comunicação social resolveu por ele sem que este terminasse o enredo, dar a António Costa Silva um papel que não se entende se é supletivo, alternativo ou de reserva à sua demasiado vasta equipa ministerial, depois de ter deixado desenvolver durante meses a fio a outra novela da saída, não saída ou transferência de Mário Centeno.

No meio de tudo isto, resolveu relançar uma regionalização que a realidade dos últimos meses se encarregou de explicar que tinha derradeiramente deixado de fazer sentido, em vez de uma desconcentração governativa que tudo aponta ser o principal instrumento de política regional ao alcance das autoridades portuguesas.

No meio de tanta trapalhada, as sondagens são-lhe favoráveis, muito em particular as que indicam a incapacidade da Dra. Ana Gomes para entusiasmar quem quer que seja no eleitorado socialista, apontando antes para que ela se possa vir a constituir como rival eleitoral do PCP e do BE.

Enfim, convém não abusar da providência e fazer algo que permita ao Primeiro-ministro fazer face aos tremendos problemas que temos pela frente.

  1. Enfrentar os desafios

Portugal ainda não saiu da pandemia de coronapânico e tudo tem servido para continuar a alimentar a grande psicose que paralisou o país, esperando os portugueses que uma varinha mágica qualquer faça com que um país, cuja economia depende duas ou três vezes mais do que a média europeia da circulação dos seus residentes que trabalham no estrangeiro e nos turistas (emigrantes portugueses muitos deles) que gastam o seu dinheiro no país, possa fechar-se em casa sem que isso acarrete o descalabro económico, social e político.

Não há nesta matéria Centeno, Lagarde ou Costa Silva que façam milagres! Têm que ser os portugueses a entender o que se passa; quais os epidemiologistas que são sérios e equilibrados e quais os que (a maior parte sem qualquer competência técnica na matéria) querem vender notícias ou curas cada vez mais sofisticadas e, naturalmente, caras, ou que pura e simplesmente são também eles psicóticos por natureza.

No longo prazo estamos todos necessariamente mortos, mas poderemos deixar às gerações futuras uma herança mais sã e equilibrada ou, ao invés, menos interessante de se viver.

O Governo, que através do Ministro Santos Silva, que em declaração solene, apelou aos emigrantes para não porem os pés em Portugal em 2020 – um minuto e meio de imagem largamente difundido nas redes sociais que constituiu uma das maiores aberrações que já vi na vida – tenta emendar a mão, apercebendo-se finalmente que a concorrência turística está lançada.

Tem agora que entender que está em causa ultrapassar a lógica do medo como instrumento político e conseguir restabelecer a confiança.


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