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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Reequacionar a covid-19

Arnaldo Xarim
Economista

Enquanto os meios de comunicação, com especial destaque para as televisões, insistirem no bombardeamento diário das “estatísticas” da covid-19 continuará a haver necessidade de apresentar outra leitura da realidade que nos querem mostrar e que está muito além do arrolamento diário do aumento das infecções e do número de óbitos.

Ainda que possa parecer um lugar comum, importa lembrar que já acumulámos seis meses de experiência do flagelo que tende a todos transformar em epidemiologistas e em estatísticos (nunca antes se falara tanto de taxas de infecção, curvas de crescimento e de médias), facto que deveria justificar uma melhor capacidade de análise e de divulgação de informação verdadeiramente importante para os cidadãos. Assim, mais importante que repetir até à exaustão o número acumulado de infectados e de óbitos (nacionais e estrangeiros) seria a informação relativa ao número de internados, porque é dele que verdadeiramente depende a operacionalidade dos serviços de saúde, ou até alguma apreciação relativamente ao modo como cada país tem procurado enfrentar a situação.

Foi procurando algo parecido com isso que encontrei este texto (Twice as many deaths in lockdown England compared to free Sweden) onde o autor (John C. A. Manley) procura estabelecer uma comparação entre dois países (Inglaterra e Suécia) que optaram por modelos de actuação diferentes, com a Suécia a preterir a solução quase universal do recurso ao confinamento e uma Inglaterra que depois de um tempo de hesitação acabou por a ele recorrer, com resultados aparentemente mais favoráveis para o primeiro.

Apesar de confesso adepto da ideia que os governos do mundo estão a usar a situação de pandemia como desculpa para violar as liberdades individuais, não deixa de apresentar argumentos sólidos, tanto mais que começa a sua análise com uma comparação histórica da evolução da mortalidade na Inglaterra e na Suécia (entre 2015 e 2020), medida não pelo número total de óbitos mas recorrendo a um indicador relativo – o número de óbitos por 100 mil habitantes –, facto que possibilita uma comparação mais efectiva e ajustada, porque não é influenciada pelo dimensão da população de cada um dos países.

Partindo de dados disponibilizados pelo Gabinete Nacional de Estatísticas do Reino Unido, conclui que ambos os países apresentaram uma ligeira queda nas mortes nos últimos cinco anos, a mortalidade relativa é menor na Suécia do que na Inglaterra e que o Inverno coincide com o período do ano em que se regista o maior número de óbitos.

Com o início de 2020, com a propagação da covid-19 e do recurso aos confinamentos, os dois países viram um aumento repentino e acentuado no número de mortes (até esta data quase 420 mil no Reino Unido e um pouco mais de 90.000 no caso da Suécia), com a Inglaterra a registar um pico que foi pelo menos o dobro do da Suécia, o que parece confirmar uma maior validade para a abordagem sueca, que aplicou muito poucas medidas de contenção, onde o distanciamento social foi feito de forma voluntária e não houve confinamento.

Os dados estatísticos parecem confirmar que a falta de restrições na Suécia não prejudicou a sua população e que o número de óbitos registados no Inverno não foi muito maior do que nos anos de 2015, 2017 e 2018. Ao contrário, apesar do confinamento, das máscaras e do distanciamento social do estado policial (Manley dixit), a Inglaterra registou cerca do dobro do número habitual de mortes para a mesma época do ano. O governo do Reino Unido pode argumentar que teria sido ainda pior se eles não tivessem optado pelo modo de confinamento, o que talvez nem eventuais diferenças nos respectivos sistemas de saúde expliquem as razões pelas quais a Suécia teve um resultado significativamente melhor.

Outra ideia subjacente à observação do comportamento das curvas de mortalidade é a de que apesar de tudo a covid-19 não se tem traduzido no cataclismo que muitos anunciaram no seu início e outros estudos mostram mesmo que «…a SARS-CoV-2 não é um patógeno de doença respiratória viral invulgarmente virulenta», como escreveram os autores daquele estudo que se debruçou sobre a realidade francesa a partir de 1946. Observaram ainda que, mesmo incluindo o “pico COVID”, a mortalidade por todas as causas do Inverno de 2019-2020 não é estatisticamente maior do que o normal e que tendência de crescimento na mortalidade não começou agora, antes remonta a aproximadamente 2008, que este é muito grande para ser explicado apenas pelo crescimento populacional e que pode estar relacionado com a crise económica de 2008 e com as suas consequências sociais de longo prazo.





O conhecimento e a leitura das novas análises e reflexões sobre evolução da covid-19 (proximamente veremos o caso português) ganham acrescida importância quando, parecendo generalizar-se na Europa a ideia da formação de uma “segunda vaga”, até os governos que no início não hesitaram na opção pelo confinamento generalizado mostram-se agora bem mais cautelosos na repetição daquela solução.


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