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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

O remorso do homem branco ou o sentimento de culpa dum adolescente desiludido

José Carlos S. de Almeida
Professor de Filosofia do ensino secundário. Licenciado em Filosofia e em Direito.

Pascal Bruckner é um filósofo e ensaísta francês, nascido em 1948 e geralmente associado ao neoconservadorismo europeu[1]. Contudo, o seu percurso, como muitos intelectuais franceses que estiveram ligados ao grupo dos «nouveaux philosophes» de que fazia parte André Glucksman e Bernard Henri-Lévy, também teve o seu passado esquerdista, concretamente ligado ao maoísmo e que, tal como os seus compagnons de route, desenvolveu uma crítica feroz (ou ressentida) ao marxismo, como que para expurgar os demónios da adolescência. Percurso que também encontramos entre muitos políticos e intelectuais portugueses.

De Bruckner, autor de vasta obra, muitas vezes dedicada a uma reflexão sobre as relações amorosas na contemporaneidade e outros temas do viver quotidiana, surgiu em 1983, Le Sanglot de l’Homme Blanc, e que foi editado entre nós com o título O Remorso do Homem Branco[2].

Basicamente, Pascal Bruckner tenta denunciar a má consciência e remorso dos europeus que procede a um ajuste de contas com o passado colonial do continente europeu.

Demonstra que há uma evolução política que anima uma certa intelligentsia de esquerda e que vai do anti-colonialismo do pós-guerra para o terceiro mundismo dos anos 60. Aqueles setores da esquerda estão, assim, desiludidos com a ausência de perspetivas políticas na Europa, mas ganham um certo ânimo com o ódio de si, alicerçado na ideia de que o homem branco é mau, o que vai provocar um desejo de arrependimento e penitência, abrindo um caminho de expiação militante, apesar de coabitar com a indiferença da maioria da população face aos países subdesenvolvidos.

Os terceiro-mundistas seriam animados por uma “confusa certeza”: a da infâmia do Ocidente[3].

É assim que muitos progressistas europeus estariam dispostos a auto-punir-se e auto-imolar-se para “resgatarem as obrigações contraídas pelos seus pais”[4].

Ao mesmo tempo, esta auto-flagelação do homem europeu elege os EUA como bode expiatório, um alvo ideal por se tratar ainda dum parente próximo. A América seria a “filha desnaturada”, enquanto a península europeia, para se libertar da sua má consciência que lhe advinha do seu passado colonial, se tornava num “novo departamento do Terceiro Mundo”[5]!

Ora, esta pretensa denúncia das propostas multiculturalistas acaba por ser a sua encapotada confissão dos seus amores pela economia capitalista e pela cultura burguesa e conservadora. Não era sem razão que o americano Irving Kristol, outro teórico do neoconservadorismo, defendia que o problema da economia capitalista não era uma questão económica mas cultural e que o combate era ainda um combate no campo ideológico. Por isso (ou para isso) também, modestamente, cá estamos.

[1] Entre nós foi publicado pela Gradiva, em outubro de 2017, Um Racismo Imaginário Islamofobia e Culpabilidade, tradução do original que apareceu em França no início de 2017. Retoma aqui algumas das suas ideias fundamentais contra o multiculturalismo e o racismo dos anti-racistas. Sobre esta última tese, ver em Enlightenment fundamentalism or racism of the anti-racists?.
[2] Pascal Bruckner, O Remorso do Homem Branco, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1990, 265 pp.
[3] Cf. Pascal Bruckner, op. cit., p. 31.
[4] Op. cit., p. 32.
[5] Op. cit., p. 37.

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