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Quarta-feira, Fevereiro 28, 2024

Riscos e medos para 2024

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Num ano que vai registar uma pesada agenda eleitoral, que envolverá quase oitenta países e metade da população mundial, e onde se destacam eleições como a russa e a norte-americana (para não falar da populosa e intrincada Índia), é expectável que se viva, em grande parte, um cenário de imobilismo político onde poucas ou nenhumas decisões de fundo serão tomadas, inclusive em termos de relações internacionais e de diplomacia, implicando a difícil implementação de estratégias num contexto de tão grande incerteza política como o que se vive com os conflitos na Ucrânia e na Palestina, mesmo que para tal existam condições e se reconheçam necessidades.

Piorando este cenário e complicando consideravelmente as coisas é o facto da mais importante desta série de eleições, especificamente a eleição presidencial norte-americana, ocorrer em último lugar e próximo do final do ano, pelo que as mudanças políticas possíveis de realizar serão, portanto, feitas em cenário de incógnita sobre as orientações políticas, económicas e geoestratégicas que (para o melhor e para o pior) virão dos EUA.

Destacam-se assim, neste cenário, duas tendências. Por um lado, uma paralisia estratégica do hemisfério ocidental que entrará em modo de hibernação antes de produzir quaisquer novidades, sendo disso claro exemplo a situação de quase suspensão do apoio norte-americano à Ucrânia e a aparente tibieza e dualidade da diplomacia norte-americana face à crise no Médio Oriente; ao invés, a outra parte do mundo (BRICS e Sul Global) deverá aproveitar esta estagnação para avançar a sua estratégia, sem ter em conta uns EUA crescentemente desacreditados e um mundo ocidental ocupados com os seus próprios problemas, sendo que o menor dos quais não será o evidente fracasso da política de sanções económicas à Rússia (já vamos no 12º pacote) e o efeito de ricochete sentido especialmente nas economias europeias.

Esta dupla tendência deixa antecipar novos avanços por parte dos BRICS (previsão que em nada deverá ser afectada pela recente renúncia da Argentina à adesão ao grupo) que assim deverão ver reforçado o seu papel como actores geopolíticos, facilitadores de reconfigurações estruturais e criadores de novos métodos de governança global, a par com a expectativa de um crescente divórcio entre eleitos e eleitores nos países ocidentais, em resultado do imobilismo destes face à premência das questões e das necessidades dos primeiros.

Assim, 2024 deverá ser para o Ocidente um ano eminentemente político, onde a perspectiva de expressão democrática oferecida pelas eleições talvez já não consiga aplacar o descontentamento popular (tanto mais que a situação socio-económica inflacionista deverá permanecer e o crescimento económico deverá continuar a ser fraco, apesar das mais recentes previsões optimistas do FMI e da propalada imagem de uma “aterragem suave”), debilidade que tem vindo a ser explorada por uma extrema direita populista em fase de crescimento e que agrava a incerteza sobre os próximos resultados eleitorais, enquanto no resto do mundo (BRICS e Sul Global) o ano será eminentemente geopolítico, com as populações a alimentarem perspectivas positivas que as tornarão mais indulgentes com as reconhecidas falhas democráticas, tanto mais que o modelo democrático ocidental está a deixar de ser a quimera que já foi.

Resume-se que deveremos esperar um ano pleno de alertas geopolíticos destinados a agitar as águas, mas de forma bastante controlada, onde as reações mais exacerbadas do campo ocidental poderão assustar, mas, a crer neste despacho da Xinhua News (a agência noticiosa oficial chinesa) sobre o conflito israelo-palestiniano, dificilmente produzirão mais danos que medos.

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