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Sábado, Outubro 16, 2021

Sangomato: a cura para o Covid-19

Paulo César
Professor e escritor galardoado.

O Sangomato está para breve. A tão esperada cura para o Covid-19 está prestes a chegar às nossas casas e aos nossos sistemas imunitários. Putin já anunciou uma vacina, uma vacina russa, tão credível como a democracia por si dominada há largos anos. De nada adiantou anunciar que “obrigara” a filha a ser cobaia.

Para um sociopata megalómano e narcisista todos estão ao seu serviço e aqueles que se lhe negarem são seus inimigos, incluindo familiares directos, filha ou filha, mulher ou pais, tios ou primos. Entre uma possível injecção mortal ou vários efeitos secundários, a filha terá escolhido a vacina, sabendo que o pai, facilmente, a levaria no seu cavalo branco em tronco nu para um “gulag” na Sibéria ou obrigá-la-ia a beber uma bebida enriquecida com radionuclídeo polónio-210, como terá feito com Alexander Litivnenko, Alexei Skripal e Alexei Nabalny, mais recentemente. Parece que, afinal, tantos anos depois, a canção de Sting teve uma resposta, não de um país inteiro, mas do seu líder supremo e incontestável, pouco favorável, pois o “I hope the russians love their children too” parece ter obtido por parte de Putin uma resposta firme: “Claro que amamos! Até testámos vacinas nos nossos filhos para que eles sejam os primeiros a ficar imunes!”, “E se houver efeitos secundários?”, “Quais efeitos secundários? Isto é a Rússia, a maior potência do mundo! Se aparecerem efeitos secundários, eu próprio os levo no meu cavalo branco em tronco nu para um “gulag” na Sibéria! Eles que se atrevam!”. Lamento que a teimosia e o culto do espelho impeçam Putin de vir a pedir que o Sangomato seja distribuído na Rússia e salve os russos do Covid-19, já que de Putin só a morte do mesmo os livrará dele.

Como se vai chegar ao salvador Sangomato? António Costa, depois da magistral jogada de se livrar de um inconveniente e possível sucessor Mário Centeno, contratou um outro parecido consigo, pelo menos no nome, e menos ambicioso para relançar a Economia e evitar o colapso total do país. Chamou António Costa Silva que, como bom samaritano, como todos os políticos, se prestou a ajudar o país “pro-bono”. Há patriotas como os que Camões cantou e celebrizou e este Silva não faz parte daqueles “cobiçosos, corrompidos e pouco nobres” que emporcavam o Portugal de quinhentos. Também não faziam parte da “gente surda e endurecida” a “task force” secreta criada pelo génio visionário de António Costa, sem Silva, para desenvolver uma cura para o Covid-19, fosse de que forma fosse, vacina, rebuçado, comprimido, emplastro, bebida, bolinhos de bacalhau ou croquetes.

António Costa, o primeiro (primeiro-ministro, entenda-se), incumbiu um dos seus múltiplos assessores de recolher alguns elementos de relevante valia e louvor para comporem a sua “task force” o mais rapidamente possível. No dia seguinte, o seu assessor, pelos vistos sobrinho de um seu primo direito e primo de mais sete outros assessores de Costa, após uma visita noturna a alguns locais pouco afamados e mal frequentados, segundo o senso comum, apresentou-lhe alguns “experts” para a sua “task force”: Manel Pinga, também conhecido por “Beiça roxa” (cor que não era causada pelo frio nem pela morte que ainda não chegara, apesar da cirrose já ter consumido mais de três quartos do fígado), Zé três-dedos (cujo superpoder não era a visão dupla, era melhor, era a visão tripla), Rui Lagar (a mãe dera-o à luz no lagar enquanto pisava as uvas), Quim Botelhas (copos era para os fracos, só pedia garrafas), Tino Aspirador (sorvia os copos de vinho com aquele irritante sonido de quem beberica “ad continuum”), Tó Cuba (não bebia muito, mas era comunista e podia ser um bom suporte desta “task force”), Lipe Barba-Ruiva (não era pirata, mas afirmava que já navegara por mares de vinho nunca antes navegados) e o Manuel Viravinho (antigo presidente do Benfica que se arrastava por casas pouco afamadas desde que o Benfica perdera um campeonato ainda na sua adolescência).

Primeiro, Costa, o primeiro, ficou incrédulo. Segundo, Costa, o primeiro, decidiu trocar este assessor por outro familiar em breve, ou um parente do Vieira da Silva, e decidiu que a constituição da “task force” deveria ser tarefa do outro António Costa, o grande patriota que trabalhava de graça para o Governo. Para não haver equívocos, o simples Costa pediu ao Costa Silva que criasse não uma “task force”, mas antes uma “EIR”, “Equipa de Intervenção Rápida”, para encontrar a cura para o coronavírus. Assim, o António Costa das borlas reuniu um grupo de competentes cidadãos que se ocupariam de, em “brain storming”, encontrar a cura. A alguns ilustres, como Graça Freitas, Marta Temido, Francisco George, juntaram-se algumas dezenas de amigos e familiares de Costa Silva, mas não “pro-bono”, destacando-se, entre eles, Henrique Raposo, professor de História, Manuela Pinheiro, professora de Literatura Comparada, Luís Figo, empresário Hortofrutícola, Gentil Visthury, cirurgião, Álvaro Genet, geneticista, e Leonídio Bonsangue, Hematologista. Esta secreta reunião deu-se há uns meses e seguiu as regras do saudável e fecundante “brain storming” e de adequada higienização. Numa das salas do Ministério da Saúde, depois de testes prévios ao Covid-19, de máscaras no rosto e mãos ainda besuntadas de álcool-gel, sentaram-se em círculo, afastados dois metros de cada um. Soou um gongo, o “brain storming” tinha início!

O Professor de História, vetusto ancião no activo aos 66 anos e profundo conhecedor do passado e crente na repetição de ciclos, atirou logo para cima dos outros participantes a invejável fama das sangrias, cura de muitas maleitas no passado e injustamente ignoradas pela medicina moderna. Logo de seguida, o Hematologista Leonídio Bonsangue lembrou que o sangue era fulcral para a protecção e manutenção saudável do corpo e que os leucócitos eram deveras essenciais para o sistema imunológico que actua no combate às infecções do corpo. Não querendo deixar de vincar a sua posição e a oportunidade de promover os seus produtos, o hortofruticultor Luís Figo lembrou que as frutas e os legumes eram ricos em vitaminas e minerais, nomeadamente a vitamina C, poderosa aliada do organismo contra as infecções, e o magnésio, potente agente na luta contra as mesmas. Em particular, destacava as propriedades do tomate, rico em licopeno, um antioxidante que, quando absorvido pelo organismo, ajuda a impedir e reparar os danos às células causados pelos radicais livres.

Ninguém tinha ainda percebido o que fazia ali uma professoras de Literatura comparada nem perceberam imediatamente o alcance destas palavras: “Mikhail Bulgakov escreveu “Coração de cão”. Na obra, relata-se a inigualável façanha concretizada pelas mãos cirúrgicas do Dr. Filipovich e do seu adjunto, Dr. Bormental. Charik, um cão vadio, foi usado como cobaia numa nunca vista experiência. A esse rafeiro implantaram os testículos e a hipófise de um alcoólico condenado e menos digno de vida do que um infeccioso rato de esgosto espalhador de doenças fecal e urinicamente transmissíveis chamado Tim Tchungukin. O cão cresceu, desenvolveu-se e tornou um homem de “coração de cão”. De súbito, levantou-se Álvaro Genet, o geneticista, gritando que o único homem com coração de cão que conhecia era o Ricardo Salgado, não só porque lhe subtraíra milhares de euros na compra de papel comercial do Bes, e a muitos outros mais desgraçados do que ele, como também, devido a um processo de apuramento de raça através de casamentos entre burgueses de sangue opulento e azul-aurífero, tinha particularidades corrosivas e insensíveis no sangue podre que lhe corria pelas veias. “Pois bem, – disse de rompante Gentil Visthury, o cirurgião,- é preciso que a ciência extirpe desse verdadeiro espécime de desumano ser o seu coração de cão e o substitua por uma coração de propriedades curativas e de limpeza. Depois de ouvir o Sr. Luís Figo, penso que deveríamos aliar as propriedades destrutivas do sangue desumano de Ricardo Salgado às do licopeno, substituindo-lhe o coração de cão por um tomate coração de boi”.

Quem não conhece a dinâmica das sessões de “brain storming” estranhará o acontecido de imediato: naquela sala, relâmpagos e trovões se fizeram visíveis e audíveis como num dia de perfeita tempestade tropical de tempo quente e seco. Fez-se luz e som em todos os intervenientes. Faltava só “convencer” Ricardo Salgado. Há quem pense que o ex-banqueiro ladrão, agiota, corrupto e indiferente aos outros está, depois de pagar três milhões de euros de fiança, em prisão domiciliária na sua moradia de Cascais, guardado por polícias. Não, na verdade, Ricardo Salgado está, depois de um acordo secreto delineado pelo António Costa (e Silva), que lhe prometeu tratamento semelhante ao de Rui Pinto, o pirata informático, se ele colaborasse, não com a justiça porque lhe era impossível redimir-se dos seus pecados, nem que entregasse a cabeça do José Sócrates numa bandeja de prata da culpabilidade, com a Ciência, limpando o seu nome (e o seu sangue, obviamente) e, provavelmente, atribuindo-lhe a história um lugar de relevo pela positiva, numa unidade secreta onde já foi operado.

É claro que o Ricardo Salgado recusou a proposta, consciente de que nunca iria parar à cadeia e que o seu processo iria prescrever, mas o Costa Silva, ajudado por dois operacionais da polícia secreta, fê-lo desmaiar e levou-o, dizendo, ameaçadoramente, à família que, se abrissem a boca e contassem o que acontecera, ele publicitaria que o Ricardo Salgado tentara fugir e que iria passar o resto da sua vida na cadeia. Toda a gente pensa que Ricardo Salgado está “preso” na sua moradia de Cascais, mas não é essa a verdade. Em breve, o mundo saberá onde está Ricardo Salgado e de que forma ele mudará o destino do mundo. Durante a operação, o Dr. Gentil Visthury notou que, em vez de um coração de cão minúsculo, ele tinha um coração de um porco selvagem e que, na sua inumanidade, em nada se alteraram os seus sinais vitais depois de transplantado o tomate coração de boi. Dois dias depois, recolheram amostras do sangue de Ricardo Salgado e, após várias tentativas e experiências, concluíram que o sangue venenoso de Ricardo Salgado misturado com o licopeno do seu coração de boi poderia ser diluído numa concentração de água do mar e álcool a 70 graus.

Para testar esta curativa bebida (não seria uma vacina convencional, de chuta para o músculo do antebraço), Costa, o primeiro, lembrou-se de pedir ao seu assessor que convidasse a sua “task-force”. Iludidos pelo álcool a 70 graus, eles concordaram, apesar do desapontamento ao verem uma pequena dose do sangomato numa minúscula pipeta de vidro. Os resultados têm sido encorajadores. Todos eles desenvolveram já anti-corpos ao Covid-19 e, inesperadamente, talvez o mais notado dos efeitos secundários, passou-lhes a febre do álcool e têm vindo a diminuir gradualmente a sua presença nas vulgares tabernas, ficando em casa a assistir às aditivas telenovelas depois do jantar. O próximo passo será sintetizar o sangue bombeado pelo coração de boi do Ricardo e distribuí-lo pela população mundial. O processo ainda não está ultimado, mas pode-se afirmar, com relativa segurança, que o Sangomato irá mudar o mundo. Portugal e o Sangomato irão dominar o mundo e a Economia Mundial será mais saudável graças à EIR criada pelo António Costa e Silva. Depois de a Inglaterra ter um famoso rei, Ricardo Coração de Leão, Portugal e o mundo celebrarão Ricardo Coração de Boi, antigamente conhecido, em Portugal, como DDT (Dono Disto Tudo), mas, agora, depois de “corajosamente” se entregar à causa humanitária e ter dado origem ao milagroso Sangomato, conhecido como SDT (Salvador Disto Tudo).


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