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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

O prestigiado festival de Valladolid tem hoje o seu início

José M. Bastos
Crítico de cinema

64ª SEMINCI – Semana Internacional de Cinema

Começa hoje, e decorrerá até ao próximo dia 26, a 64ª edição da Semana Internacional de Cinema que se realiza na cidade espanhola de Valladolid.

Criada em 1956 com a designação de ‘Semana de Cine Religioso’ e durante vários anos realizada na Semana Santa, esta mostra foi evoluindo até se tornar desde há muito numa das mais prestigiadas manifestações de divulgação da cultura cinematográfica de toda a Espanha. Com uma programação focada no chamado “cinema de autor” a sua secção oficial tem habitualmente uma qualidade bastante assinalável. Como este certame não pertence à divisão maior dos festivais internacionais o comité de seleção pode escolher filmes já exibidos e premiados noutras mostras congéneres o que elimina os constrangimentos com que se debate, por exemplo, o Festival de San Sebastián e permite integrar filmes que já trazem consigo algum reconhecimento internacional.

Refira-se também que, apesar de a SEMINCI ser um festival importante e com uma assinalável adesão de público, tem ainda uma dimensão que permite a fruição serena da sua vasta programação sem que se tenha que passar o tempo em filas de espera para entrar nas sessões. Há tempo para a conversa sobre os filmes e para o encontro, formal ou informal, com aqueles que o fazem.

Cerca de duas centenas de filmes repartem-se pelas várias secções do festival. Espaços para a revelação de novos cineastas e de documentários, ciclos temáticos e uma aposta continuada na promoção das curtas-metragens são pontos importantes a salientar numa programação que oferece uma muito ampla gama de opções para os espectadores, sejam eles locais, cinéfilos vindos de toda a Espanha e do estrangeiro ou profissionais do cinema ou da comunicação.

A secção oficial

Com tanto cinema à disposição dos participantes a secção oficial é, em princípio, a que concita mais atenção.  Nesta edição serão dezoito as obras em competição. Dois filmes espanhóis, dois islandeses, uma surpreendente presença da Mongólia e uma importante representação de mulheres realizadoras (sete filmes) são pontos a relevar numa seleção muito centrada no cinema produzido por países europeu (em vários casos por via das co-produções). Abordagens da condição feminina em várias latitudes (nomeadamente nos países do Norte de África), do drama dos refugiados, e de histórias de doença e do envelhecimento são alguns dos temas presentes nas obras a concurso. A apresentação de trabalhos de autores que no passado conquistaram o prémio principal da SEMINCI – a ‘Espiga de Ouro’-, casos de Goran Paskaljevic, Jean-Pierre e Luc Dardenne e de Grímur Hákonarson, é outro facto que deve ser salientado.

De registar que a secção oficial, pretende também ser um espaço de descoberta e de divulgação de novos autores. Assim teremos em competição cinco primeiras obras e duas segundas.

Co-produção luso-espanhola abre a secção oficial: “Intemperie”  de Benito Zambrano

A exemplo do que tem acontecido nas edições mais recentes o filme de abertura da SEMINCI, a exibir na Gala Inaugural que terá lugar hoje à noite no Teatro Calderón, é espanhol.  Na verdade uma co-produção luso-espanhola já que uma das produtoras é a portuguesa Ukbar Filmes.  Trata-se de “Intemperie” quarta longa-metragem do multi-premiado realizador Benito Zambrano, com Luis Tosar, Luis Callejo e jovem Jaime López nos principais papéis. Adaptação cinematográfica do romance de Jesús Carrasco, vencedor do Prémio da Literatura Europeia 2016, o filme é, no dizer da produção, “uma comovedora história, repleta de suspense e emoção, que narra a fuga de um rapaz através de um país governado pela violência e castigado pela miséria material e moral da época, e no qual se procura que prevaleçam a amizade, a solidariedade e a compaixão”.  Obra de ficção, Intemperie” aparece como um retrato de situações vividas nos dias de hoje em muitas geografias. É verdade. No tempo em que vivemos a realidade parece-se cada vez mais com a ficção…

“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” de Karim Aïnouz – filme brasileiro compete na secção oficial

O cinema brasileiro que, apesar dos pesares (e referimo-nos concretamente à perseguição que os detentores do poder político daquele país têm vindo a fazer à criação e divulgação cultural), continua a colecionar prémios nos mais prestigiados festivais de todo o mundo (por exemplo, em San Sebastián, onde há poucos dias “Pacificado” conquistou a ‘Concha de Ouro’), está presente na principal competição da SEMINCI, através de “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz, vencedor da secção ‘Un Certain Regard’ do Festival de Cannes e representante do  Brasil na corrida ao Oscar do Melhor Filme falado em língua não-inglesa.

Carol Duarte, a grande Fernanda Montenegro e Julia Stockler são as principais intérpretes da história de duas irmãs, Guida e Eurídice, que, no Rio de Janeiro dos anos 1950, são cruelmente separadas e impedidas de viverem os sonhos que alimentaram juntas quando eram adolescentes. Duas mulheres que, contra a sociedade do seu tempo, conservadora e paternalista, lutam pela possibilidade de seguirem o seu próprio caminho. Adaptação da obra literária de Martha Batalha este é um filme de memórias, um melodrama sobre mulheres e com mulheres.  “A Vida Invisível”  fala da vida que é, afinal, o quotidiano de milhões de mulheres que sofrem todo o tipo de violência. Como alguém disse este é um filme ‘mais que feminista’, não obstante ser realizado por um homem. Mas o homem é Karim Aïnouz, o cineasta que nos ofereceu, por exemplo, “Madame Satã”.

Outros filmes em competição

  • ‘Despite the fog’ / Apesar do Nevoeiro, (Itália), de Goran Paskaljevic. Vencedor de três ‘Espigas de Ouro, o realizador sérvio, tenta uma quarta vitória na SEMINCI com um filme sobre um rapaz refugiado, abandonado, que perdeu os seus pais durante a viagem para Itália;
  • ‘Le Jeune Ahmed’ O Jovem Ahmed, (Bélgica), de Jean-Pierre e Luc Dardenne, vencedores da ‘Espiga de Ouro’ em 1996 com ‘A Promessa’. O filme segue a trajectória de um jovem muçulmano que planeia matar o professor em nome da religião. Prémio para o melhor realizador no Festival de Cannes;
  • ‘Héradid’ / O Condado, (Islândia), de Grímur Hákonarson, vencedor da ‘Espiga de Ouro’ em 2015 com ‘Hrútar’/ Carneiros. A protagonista de ‘Héradid’ é uma mulher viúva de meia idade que procura, após a morte do marido, gerir uma propriedade rural numa zona isolada da Islândia. Exibido no Festival de Toronto.
  • ‘Adam’, (Marrocos/França/Bélgica), primeira obra de Maryam Touzani que conta a história de uma mulher que vive com a filha de 8 anos e que dirige uma padaria em Casablanca. Candidato por Marrocos ao Oscar de Melhor Filme falado em língua não-inglesa;
  • Papicha’, (França/Argélia/Bélgica/Qatar), de Mounia Meddour. Argélia, anos 90. Uma estudante de 18 anos desafia os tabus e as proibições dos radicais islamitas e organiza um desfile de moda. Candidato pela Argélia ao Oscar de Melhor Filme falado em língua não-inglesa;
  • ‘Cat in the Wall’, (Bulgária/Reino Unido/França), de Mina Mileva e Vesela Kazakova. Uma família de búlgaros, no sudeste de Londres, em conflito com os vizinhos por causa de um gato. Presente na secção oficial do Festival de Locarno;
  • ‘Un divan à Tunis’, (França), primeira obra de Manele Labidi Labbé. Um retrato, em tom de comédia, da capital da Tunísia, como uma encruzilhada repleta de contrastes, contradições e confrontos culturais, através da história de uma psicoanalista que, no seu regresso a Tunes, trata um grupo de pacientes. Prémio do Público em ‘Giornate degli Autori’ do Festival de Veneza;
  • ‘El Plan’, (Espanha), primeiro filme de Polo Menárguez. Adaptação de uma peça teatral homónima esta é a história de três homens no desemprego desde o encerramento da empresa de segurança em que trabalhavam;
  • ‘The Farewell’, (Estados Unidos), segunda longa-metragem da realizadora Lulu Wang. Sob a forma de um almoço de festa, uma família chinesa junta-se para se despedir da matriarca que padece de um cancro não tratável e cujo diagnóstico é mantido em segredo. Prémio do Público do Festival de Sundance;
  • ‘Lara’, (Alemanha), segundo filme de Jan-Ole Gerster. No dia em que Lara completa 60 anos o seu filho dá o seu primeiro concerto como pianista. Prémio Especial do Júri e Prémio para a Melhor Actriz em Karlovy Vary;
  • ‘Bashtata’ / O Pai, (Bulgária/Grécia/Itália), de Kristina Grozeva e Petar Valchanov. A personagem principal da terceira longa-metragem desta dupla é Vasil, um homem que acaba de perder a sua esposa, Ivanka. Quando uma mulher diz, depois do funeral, que recebeu uma chamada telefónica da falecida o homem procura a ajuda de um ‘médium’ para contactar a sua mulher. Vencedor do Festival de Karlovy Vary;
  • ‘Bergmál’, (Islândia), de Rúnar Rúnarsson. Terceira longa do realizador, vencedor do Festival de San Sebastián em 2015 com ‘Sparrows’. Rúnarsson desenha através de 56 cenas um retrato da sociedade moderna. Presente na secção oficial do Festival de Locarno e vencedor do Prémio da Juventude daquele festival.
  • ‘Da Ceven Vicekvet (And Then We Danced), (Suécia/Geórgia/França), de Levan Akin. Terceiro filme do cineasta sueco de ascendência georgiana. Conta a história de Merab, um bailarino que integra o Ballet Nacional Georgiano onde partilha ensaios e confidências com a sua colega Mary. Candidato pela Suécia ao Oscar de Melhor Filme falado em língua não-inglesa;
  • ‘Hombres de piel dura’, (Argentina), de José Celestino Campusano. Um jovem abusado por um padre pedófilo assume a sua condição homossexual, numa história dura passada na Argentina rural erealizada por um dos mais prolíficos cineastas argentinos;
  • ‘Kiz kardesler’ / Uma História de Três Irmãs, (Turquia), de Emin Alper. Três irmãs que foram trabalhar para casas na cidade regressam, uma após outra, à sua pobre casa paterna na Anatólia. Presente na secção oficial do Festival de Berlim;
  • ‘Öndög’, (Mongólia) de Wang Quan’na. De produção mongol, este filme é realizado por um renomado realizador chinês pertencente à chamada ‘6ª geração’, premiado em Berlim em 2010 e onde já foi membro do júri oficialem 2017. Em ‘Öndög’ a polícia encontra o cadáver de uma mulher no meio da planície. O polícia mais jovem fica a vigiar o cenário durante a noite.

Comédia de Mika Kaurismaki no encerramento

Para a sessão de encerramento, a realizar no dia 26, a organização da SEMINCI escolheu um filme do realizador finlandês Mika Kaurismaki, irmão do porventura mais conhecido Aki Kaurismaki. Presente por quatro vezes na secção oficial – “Os Reis Magos” (2008), “Irmãos” (2011), “Rumo ao Norte” (2012) e “The Girl King”/ A Rapariga Rei (2015) – foi em 2005, com “Brasileirinho”, o documentário realizado no Brasil sobre o género musical brasileiro ‘chorinho’, que Mika Kaurismaki esteve pela primeira vez em Valladolid.

Desta feita vai apresentar, fora de concurso, “Master Cheng”/ Chef Cheng. Em tom de comédia esta é a a história dum chefe de cozinha chinês que, após a morte da mulher, viaja com o filho para uma remota aldeia da Finlândia em busca de um amigo finlandês que conheceu em Xangai. Ninguém na aldeia conhece o homem que ele procura mas o dono de um café oferece-lhe alojamento em troca da ajuda de Cheng na cozinha. De imediato os locais ficam rendidos às delicias da comida chinesa e, confrontados com o facto de visto de residência  de Cheng ter caducado, vão tramar um plano para o ajudar a permanecer no país.

Dois filmes portugueses na principal competição de curtas metragens

Como já foi referido a SEMINCI dedica uma particular atenção às curtas-metragens. Na secção oficial também há uma competição para este formato com a apresentação de onze trabalhos, seis deles de animação. Na lista de concorrentes encontram-se filmes da Hungria, Canadá, Coreia do Sul, França, Suíça, Finlândia, Lituânia, Argentina, um brasileiro e … dois portugueses !!!

Da celebradíssima autora de animação Regina Pessoa teremos “Tio Tomás, a contabilidade dos dias”, co-produção de Portugal, França e Canadá. Prémio do Júri no Festival de Annecy, Grande Prémio do Festival Internacional de Animação do Brasil – ‘Anima Mundi’ e candidato ao Oscar de melhor curta-metragem de animação. Sobre este filme damos a palavra à autora: “ a partir das memórias afectivas e visuais da minha infância, este filme pretende ser uma homenagem ao meu tio Tomás, um homem humilde e um pouco excêntrico que teve uma vida simples e anónima. Com este filme eu gostaria de testemunhar como não é preciso ser-se alguém para se ser excepcional na nossa vida.”

Leonor Teles, que com “Balada de um Batráquio” conquistou o ‘Urso de Ouro’ para a melhor curta-metragem no Festival de Berlim de 2016, competirá “Cães que ladram aos pássaros”, estreado no Festival de Veneza onde obteve a designação para concorrer aos Prémios do Cinema Europeu. O filme, de 20 minutos, acompanha os dias de Verão de Vicente e da sua família, obrigados a sair do centro do Porto, por força da especulação imobiliária.

Anote-se ainda a presença de “Carne” de Camila Kater, co-produção Brasil/Espanha, que participou no recente Festival de Locarno. Filme de animação e documentário, ao longo de 12 minutos, cinco mulheres de diferentes faixas etárias falam da sua relação com o seu próprio corpo, usando imagens habitualmente utilizadas na cozinha para caracterizar o grau de cozedura das carnes.

Josefina Molina preside ao júri da secção oficial

O Júri Internacional da SEMINCI será presidido pela realizadora, directora de teatro e guionista Josefina Molina, distinguida há poucas semanas, no decorrer do Festival de San Sebastián, com o Prémio Nacional de Cinematografia de Espanha.

Os outros jurados são o cineasta canadiano Philippe Lesage, vencedor da ‘Espiga de Ouro’ e do prémio para o melhor realizador da SEMINCI/2018 com “Gènese”, a renomada escritora e jornalista madrilena Rosa Montero, o produtor e fotógrafo francês Thierry Forte, o realizador indiano Dilip Metha, a georgiana Keti Machavariani, figura da televisão e do cinema do seu país e Iván Giroud, director, desde 2013, do Festival Internacional do Novo Cinema Latinoamericano de Havana.

 


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