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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

Sérgio Inocente e a tal semana

Luís Fernando, em Luanda
Jornalista, correspondente do Tornado em Angola

Sérgio Inocente e a tal semana

Os anos a imaginar-se poder, a ver-se na pele de inquilino daquele palácio e alegre com os dias da sua querida Zumba entretida com os mordomos e os cockteis «à moda do chefe», têm agora uma meta mais tangível.

Na passada semana, o partido “Vitória Certa” abriu finalmente o jogo. Entendeu não estender por mais tempo o mistério e lá se desembrulhou. Anunciou o nome do seu candidato ao lugar que, há várias eleições seguidas, Sérgio Inocente persegue.

Tinha pensado reunir a sua equipa de campanha um dia depois de ser conhecido o candidato a derrotar na sua estratégia mil vezes refeita, recauchutada, realinhada. Porque as leituras ensinaram-lhe que reagir a quente é sempre um risco. Deixar a poeira pousar rende mais. Pelo menos, demonstra prudência, calma, ponderação.

Pela primeira vez em meses, o candidato Sérgio Inocente dormiu sossegado na noite do dia do anúncio. Os pesadelos teve-os foi no dia seguinte, sem precisar que anoitecesse. Por gravíssima distracção, e pela qual não perdoa a equipa de campanha, só tarde se apercebeu que o tal «dia seguinte» era sábado e, sábado, para um político «com sentido de família» como ele, não era para mexer uma palha.

Deixou-se estar por isso enterrado no confortável sofá turco oferecido por um militante afoito nas eleições passadas, cinco anos atrás, à espera que chegasse a hora do inegociável funji de sábado. Zumba foi-lhe cuidando dessa parte quase sem agenda, para não ser devorado pelo tédio:

– Marido querido, sirvo-te outro whisky ou ficas pelas quatro doses?

– Mulher, sem continhas, please. Lá estás tu…

– Não é por nada, querido, só para teres ideia das coisas. O funji só estará pronto daqui a trinta ou quarenta minutos. Esquecemo-nos do jindungo cahombo de que tanto gostas…

– Sendo assim, manda-me outras quatro doses de uma vez. Preciso de afogar certas preocupações. Não foi bom saber que eles avançaram com o Joni Lô. Estou sem ideias. E eu tinha-te prometido o palácio, amor…

 Zumba perdeu-se num silêncio, como se naquela sala e em toda a geografia do mundo, fossem banidos os barulhos que dão a certeza de que a vida não foi descontinuada. O marido Sérgio, por sua vez, aceitou o sono como evasão reparadora, de imediato, incapaz de reagir com inteligência à golpada do partido «Vitória Certa» daquela sexta-feira. «Com o Joni Lô cabeça-de-lista, como é que nós nos safamos desta? Vamos criticar o quê na campanha», ouviu-se-lhe sussurrar antes do apagão.

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