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Domingo, Julho 21, 2024

Somos tão iguais nas nossas diferenças!

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

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A frase, que então me ficou, voltou-me à memória durante um Congresso onde participei há dias. Estava então a pensar que o que move o mundo são as forças que se opõem às fraquezas – e que, nesse combate maior, a inteligência é o pior inimigo da violência -, forças em oposição e essas sim, muito superiores às formas e aos objetos e isto talvez porque o inanimado, ou melhor, o inorgânico, só tem força numa dimensão simbólica ou espiritual, sendo que a verdade humana reside naqueles que se assumem e dimensionam no Humano.

Nem sempre os Congressos – encontros mais ou menos formais sobre densas unidades temáticas, tantas vezes distanciadas da realidade do mundo e até fortuítas – têm momentos altos.

Participar num Congresso feito quase exclusivamente de momentos altos, desses que edificam, que aproximam e formam deixando sementes para mudanças futuras é muito raro – é uma honra. Aconteceu-me.

Falo do Congresso Cidadania e Religião – Diálogo Inter-religioso que ocupou o muito digno espaço do Teatro Armando Cortez, em Lisboa, nos passados dias 21 e 22 de setembro, numa iniciativa conjunta do Alto Comissariado para as Migrações, I.P., em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, o Observatório para a Liberdade Religiosa, e a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

Da abertura, que contou logo com a presença do Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, Vera Jardim, ao encerramento que culminou com a atribuição do IV Prémio Revista Consciência & Liberdade, Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa e Área de Ciências da Religião da Universidade Lusófona, o percurso foi exemplar. Mas isso pouco contou perante os acontecimentos que produziu: líderes religiosos das mais diferentes comunidades encontraram-se e subiram ao palco para dizer o que afinal sabemos: somos tão iguais nas nossas diferenças.

Não há fora do humano lugar para o religioso. E o religioso é um ponto culminante da formatura humana.

Em suma, uma estrutura de crença – mesmo a do ateu -, tendo o Homem como centro, é sempre condutora a um mundo melhor.

congresso-cid-religiao

No Congresso não só o que foi dito teve o peso da ocasião: dos moderadores dos debates, que disseram coisas tão ou mais importantes que os oradores – e recordo as exemplares moderações de mesa de Joaquim Franco, José Brissos-Lino, Sofia Lorena, Cândida Pinto – aos oradores e aos representantes das comunidades religiosas que contribuíram com intervenções cirúrgicas, eficazes, esclarecedoras (e muitos foram aqueles que estiveram presentes).

Os oradores foram Alberto Melloni, Professor de História do Cristianismo (Univ. de Modena e Reggio Emilia) e Presidente do Comité da UNESCO para o Pluralismo Religioso e a Paz, que interpretou a Conferência – O fenómeno religioso na contemporaneidade e, com ele, no I Painel Temático subordinado ao tema Corresponsabilização social – o cuidado do outro, onde falaram Suryakala Chhaganlal e Alexandre Honrado.

No II Painel Temático: Papel da educação na promoção da tolerância religiosa, foram oradores Paulo Mendes Pinto e Fernando Catarino.

Sheik Ibrahim Mogra – Imã de Leicester e Secretário-Geral Adjunto do Conselho Islâmico da Grã-Bretanha
Sheik Ibrahim Mogra

A 22 de setembro ocorreu a Conferência – Religião e Paz, com o Sheik Ibrahim Mogra – Imã de Leicester e Secretário-Geral Adjunto do Conselho Islâmico da Grã-Bretanha. Talvez a mais impressionantes das intervenções, já que ao contrário de alguns, o Sheik defendeu a exegese hermenêutica do Alcorão, o que é urgente, inteligente, corajoso e desejável. Assim todos os líderes islâmicos o promovam.

Foi feita ainda a apresentação dos resultados da primeira fase do inquérito às lideranças religiosas, trabalho do OLR com a Área das Ciências das Religiões da Universidade Lusófona e apresentação, também do MEETIR 2016 – Encontro de Jovens para o Diálogo Inter-religioso e leitura da Carta Comum ACM e jovens participantes.

Houve, naturalmente presenças políticas, que agregaram, institucionalmente, o Congresso à legitimidade democrática onde se move.

Em jeito de conclusão, diria que este foi o primeiro Congresso daqueles que virão para perseguir a utopia de um mundo melhor e de relacionamento eficaz entre opostos que precisam conhecer-se e trabalhar em conjunto pela casa comum que é o seu planeta. Parece ingénuo, mas as sociedades dos extremos não terão futuro, é o que o presente nos mostra sem precisarmos de grandes leituras políticas, sociológicas ou filosóficas.

E também falo do trabalho que promovo. Falo da minha experiência. O Observatório para a liberdade religiosa tem vindo a propor a criação de grupos de trabalho de base, a começar dentro das comunidades religiosas – que precisam de interpretar o mundo tal como ele está a manifestar-se – mas também que esses grupos venham a encontrar-se entre si, cruzando sensibilidades de diferentes religiões, para um efeito cultural que é urgente: só quando conhecemos o outro não o tememos.

Verificamos como as mais díspares comunidades religiosas produzem as melhores ideias: os seus líderes sabem e apontam os caminhos. Mas é nas bases – e sobretudo no seu esclarecimento e promoção do diálogo que está a senda que poderá levar à coabitação pacífica. Estrasburgo, por exemplo, é uma das capitais europeias do diálogo inter-religioso, com mais de 40 grupos que reúnem crentes de diferentes tradições e dezenas de iniciativas anuais. Lisboa, rota milenar de todas as diferenças, podia ser a cidade do lado mais urgente da intercultura.

IV Prémio Revista Consciência E Liberdade

A Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa, AIDLR.Pt, vem por este meio divulgar o trabalho vencedor do IV Prémio Revista Consciência e Liberdade, edição 2016.

Os Fundamentos Teológicos dos Direitos Humanos nas Relações Internacionais: uma Crítica
Autor: Victor Barros Correia

Destacando a multidisciplinariedade e reconhecendo a valia dos trabalhos a concurso nesta edição, o Júri atribui o Prémio a uma reflexão sobre a origem e os fundamentos dos Direitos Humanos constantes nos documentos internacionais e defendidos como boa prática na comunidade internacional.

Segundo o ponto de partida do autor: “Na viagem que nos propomos cruzar ao longo deste breve trabalho, olharemos para os Direitos Humanos através dos óculos da cristandade e tentaremos encontrar quais são as razões desses valores se terem vincado no mundo contemporâneo com tamanha grandeza ao ponto de serem louvados por diferentes povos, consagrados pelas diversas constituições, cartas e diplomas internacionais, onde os próprios Estados representados pelos seus mais altos dignitários se comprometem a cumprir esses direitos.”

Como conclusão, entre outras, o autor sugere: “Podemos considerar que Friedrich Nietzsche, quando afirmava que existe um fundamento Teológico espalhado por toda a parte, em certa medida não estava errado, a partir do momento em que as Relações Internacionais e o Direito Internacional estão aí fundamentados.”

O autor, de nacionalidade brasileira/portuguesa e a residir na Holanda, tem 25 anos, é Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade da Beira Interior e Mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Leiden, na Holanda. Desempenha presentemente funções como Consultor e Gestor Assistente de Projeto no Ramo de Cooperação Internacional da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPCW).

A AIDLR.Pt agradece a todos os autores que dignificaram este Prémio com os seus textos, incentivando todos os estudiosos e interessados nos temas das liberdades de consciência, culto e religião a participarem em futuras edições.

Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa

Este artigo respeita o AO90

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores e não reflectem necessariamente os pontos de vista da Redacção ou do Jornal.

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