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Quarta-feira, Fevereiro 1, 2023

Telepatia, de João Paulo Esteves da Silva

Yvette Centeno
Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Chegou pelo facebook este poema, oferta generosa do autor aos seus seguidores, que são muitos.

 

(de João Paulo Esteves da Silva)

Telepatia

E se tudo fosse, mesmo, água,
como queria Tales, e como
tantas línguas parecem querer dizer
em seus pronomes aquáticos, os quais
evocam, quase sempre, a relação
com aquele modo de ser primordial?
Se fosse assim, o meu e o teu rio
que levam cursos tão diferentes,
por serras e países afastados, seriam
no fundo, e sem se ver, um mesmo rio.
E os versos que aqui ponho a flutuar
poderiam chegar à tua margem,
claro que já apagados pelas águas, mas
com uma música corrente que ainda ouvisses.

 

 

Prendeu-me a relação com o “modo de ser primordial”, se tudo fosse mesmo água. Aqui se revela uma das imagens essenciais para a compreensão do poema. A água, no seu modo de ser primordial, é de súbito a água inicial da criação do mundo, onde todo o ser é indistinto e Deus devagar, ao longo de vários dias, irá diferenciar. Com a separação que introduz se modifica o mundo e o seu desejo de ser e de criar.

Não há poesia inocente, não há imagem, ideia, movimento, que no caso deste poeta não transporte algo mais, de muito longínquo no pensamento, na cultura de que é herdeiro e nos aponta a herança. Aqui teremos de deixar Tales de Mileto, o pré-socrático e tentar beber no Génesis a lição mais escondida da criação do mundo e do primeiro homem:

“Ao princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra era vaga e vazia, as trevas cobriam o abismo, o espírito de Deus planava sobre as águas”.

Estas as primeiras referências: já existiam “as águas”, o Todo que cobria céu e terra criados por Deus, que tal como as águas era também ele antigo e primordial. O seu Espírito, no momento da criação, planava sobre esse Todo. Talvez daqui tenha retirado o filósofo a sua ideia de que tudo era água, ideia que João Paulo desenvolve no correr do poema. Mas na verdade há outra, subjacente, e é sobre essa que temos de meditar, e que surge no dia dois da criação, depois de já separadas luz e trevas, no primeiro:

“Deus disse: que haja um firmamento no meio das águas e que separe as águas das águas e assim se fez. Deus fez o firmamento que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão sobre o firmamento, e Deus chamou céu ao firmamento”.

Foi o segundo dia.

As águas estão ainda presentes no início do dia 3, em que a diferenciação continua, com a descrição no fim da verdura que cobrirá a terra. Mas falemos das águas:

“Deus disse: Que as águas que estão sob o céu se reúnam numa só massa e que apareça o continente; e assim foi. Deus chamou ‘terra’ ao continente e à massa das águas ‘mares’, e Deus viu que isso era bom.

A criação foi um acto ordenador de um universo caótico na sua origem, e que culminará com a criação do homem, Adão, feito à imagem e semelhança de Deus, ao sexto dia. No sétimo dia Deus repousará.

Mas não há repouso no mundo.

Será por via do par Adão/Eva que a história do mundo seguirá afinal outro curso.

Deus verifica que uma centelha de si mesmo permanece em Adão, feito à sua imagem, ele que entretanto também já se dividira de si mesmo e se chama agora Jeová, continuando o seu diálogo, a sua interferência num mundo que até hoje tem parecido escapar-lhe. Jeová assume a forma de uma divindade poderosa, arcaica, a quem é necessário prestar tributo, sacrificar vidas para o honrar.

A interrogação de João Paulo, no poema, é feita de uma líquida nostalgia de um outrora em que o absoluto do universo era reconhecido e ao qual o homem (o poeta) e o seu Verbo se podiam entregar, vogando, confiantes.

A música das esferas, que o todo da água primordial envolvia, sempre haveria de chegar ao seu destino.

O destino era o “outro”, o outro de si mesmo e do deus implacável a quem a interrogação, como se cada poeta fosse um Job expectante, se dirigia: “e se tudo fosse, mesmo, água”…

Não haveria sofrimento, não haveria divisão (a ruptura que os causava) e então sim, o verso poderia recuperar a inocência que a consciência de si, e a satisfação com a sua Obra, no velho Jeová, tinha transtornado para sempre.

O Verso único, o do Som puro, perdido.


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