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Domingo, Outubro 24, 2021

Tem hoje início a segunda edição em pandemia

José M. Bastos
Crítico de cinema

A partir de hoje e até ao próximo sábado 25 vai decorrer em San Sebastián a edição de 2021 do maior festival de cinema da Península Ibérica.

69º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE SAN SEBASTIÁN

Depois de no ano passado, e fortemente condicionado pela pandemia, o certame basco ter, de forma muito corajosa, dado uma extraordinária prova de vida, este ano vamos ter uma edição um pouco mais próxima da realidade pré-pandémica.

Recorde-se que em Setembro de 2020 estava-se ainda longe do aparecimento das vacinas e, ao contrário do que se passava em Portugal, a utilização de máscaras na via pública era obrigatória em Espanha. Com uma forte diminuição do número de filmes, uma drástica redução da lotação das salas (disponível apenas 30% da lotação normal) e um cuidado extremo no cumprimento das normas sanitárias foi possível levar a cabo o evento e, dessa forma, não deixar que 2020 fosse um ano em que San Sebastián não tivesse festival. Com as deslocações muito condicionadas, nomeadamente as que implicavam deslocações aéreas, foi muito menor que o habitual o número de participantes, foram suprimidos e adiados ciclos de filmes, as actividades da indústria (habitualmente responsáveis pela presença de muitas centenas de pessoas) realizaram-se em regime não presencial e os habituais espaços de encontro, de debate e de festa foram quase inexistentes. Enquanto isso, a secção oficial beneficiou do facto de não se terem realizado muitos outros festivais e acolheu, por esse motivo, muitos dos títulos que tinham sido selecionados pelo Festival de Cannes.

Embora a situação de pandemia esteja ainda longe de poder ser considerada ultrapassada espera-se que esta 69ª edição possa já acontecer ao abrigo de uma “nova normalidade”: mais filmes, mais gente (a ocupação das salas passou este ano para 50% da lotação), mais movimento numa cidade à qual no ano passado faltou o bulício habitual. Mas… os cuidados continuam a ser muitos. Lugares previamente marcados para todas as sessões, desinfecção das salas entre as sessões e nada de festas, encontros e ‘coktails’.

Zhang Yimou e Carlos Saura na abertura da secção oficial

Com a actriz Sigourney Weaver a dar a cara no cartaz do festival, a principal secção da mostra basca vai abrir na noite de hoje, no belo espaço do “Kursaal”, com dois filmes de cineastas consagrados: o chinês Zhang Yimou e o espanhol Carlos Saura.

Do primeiro, um dos mais prestigiados e premiados realizadores chineses, será exibido “Yi Miao Zhong” (Um Segundo), uma obra ambientada no período da “revolução cultural” e que segue um condenado num campo de trabalho que procura ver, ao menos através do cinema, a filha que entretanto participou num filme. Quer também apropriar-se da respectiva bobine. Mas não é o único. Uma vagabunda com que se cruza também a quer. O objecto que ambos disputam vai converter-se na origem de uma amizade inesperada.

De Carlos Saura será vista uma curta-metragem, de apenas seis minutos, apresentada fora de competição: “Rosa Rosae. A Guerra Civil”, uma história que recria a Guerra Civil Espanhola através da manipulação de poucas dezenas de imagens, desenhos e fotografias.

 

Laurent Cantet, Terence Davies, Fernando León de Aranoa e Iciar Bollaín competem pela ‘Concha de Ouro’

Como é costume a principal secção competitiva apresentará este ano um conjunto de títulos de autores com diferentes graus de experiência e notoriedade. A par de realizadores com grandes (ou muito grandes…) currículos, com várias passagens por San Sebastián – e alguns casos também com prémios – como Zhang Yimou, Laurent Cantet (“Recursos Humanos”, “A Turma”, …), Fernando León de Aranoa (“Às Segundas ao Sol”, “Barrio”,…), Terence Davies (“Vozes Distantes, Vidas Suspensas”, “A Bíblia de Néon”, …) ou Iciar Bollaín (“Dou-te os Meus Olhos”, “A Oliveira do Meu Avô”, …), encontramos também um lote de cineastas pouco conhecidos. Quanto à origem, não é tão diversificada como em anos anteriores. Quatro filmes franceses, dois chineses e a costumada “armada espanhola”. Para além disso, Reino Unido, Roménia, Argentina, Dinamarca e algumas co-produções de vários países.

De relevar o expressivo número de filmes realizados por mulheres.

É a seguinte a lista dos filmes que integram a principal secção do festival:

  • “Arthur Rambo” de Laurent Cantet / França
  • “Benediction” de Terence Davies / Reino Unido
  • “Camilla saldrá esta noche” de Inés Barrionuevo / Argentina
  • “Crai Nou“ de Alina Grigore (Lua Azul) / Roménia
  • “El Buen Patrón” de Fernando León de Aranoa / Espanha
  • “Enquête sur um scandale d’ Etat” de Thierry de Peretti / França
  • “Du Som Er I Himlen” (Como no Céu) de Tea Lindeburg / Dinamarca
  • “Earwig” de Lucile Hadzihalilovic / Reino Unido, França, Bélgica
  • “La Abuela” de Paco Plaza / Espanha, França
  • “Quién lo impide” de Jonás Trueba / Espanha
  • “Maixabel” de Iciar Bollaín / Espanha
  • “Fire on the Plain” de Zhang Ji / China
  • “The Eyes of Tammy Faye” de Michael Showalter / EUA
  • “Distancia de Rescate” de Claudia Llosa / Perú, EUA, Chile, Espanha
  • “Vous ne désirez que moi” de Claire Simon / França
  • “La Fortuna” de Ajandro Amenábar / Espanha (fora de concurso)
  • “La Hija” de Manuel Martín Cuenca / Espanha (fora de concurso)

 

“Las Leyes de la frontera” de Daniel Monzón, no encerramento

Para o encerramento foi escolhido um trabalho do maiorquino Daniel Monzón autor de alguns grandes sucessos do cinema espanhol como “Celda 211” e “El Niño”. Em “Las Leyes de la Frontera”, que será exibido fora de concurso, a acção começa em 1978. Um estudante introvertido e algo inadaptado, tem dezassete anos e vive em Girona. Ao conhecer dois jovens delinquentes do bairro chinês da cidade vê-se envolvido num triângulo amoroso que o conduz a uma série imparável de roubos e assaltos que se prolongará durante todo o Verão…

 

Déa Kulumbegashvili presidirá ao júri oficial do Festival

A realizadora e guionista de “Beginning” (em Portugal, “O Começo”), filme abundantemente premiado na edição do ano passado de San Sebastián (melhor filme, melhor realização, melhor argumento e melhor actriz) presidirá ao júri oficial deste 69º Festival.

Nascida em 1986 na Geórgia, Déa Kulumbegashvili estudou cinema nos Estados Unidos e os seus primeiros trabalhos participaram no Festival de Cannes. “Beggining”, premiado em vários festivais, foi o representante na Geórgia na corrida aos ‘Óscares’.

A chilena Maite Alberdi e a franco-libanesa Audrey Diwan, também realizadoras e guionistas, a actriz espanhola Susi Sánchez e o produtor norte-americano Ted Hope completam o grupo de personalidades que vão ter a seu cargo a definição do palmarés do certame.

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