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João de Sousa

Sábado, Setembro 18, 2021

Todos votam, custe o que custar

 

Isna festa 2005 (c) amigos de isna
Festa em Isna

No meio do país há um lugar onde as gentes percorrem veredas e asfalto velho para votar, por muito que chova ou seja longe a urna. Viagem a um lugar onde o PSD ganhou com 73 por cento, há quatro anos.

Maria dos Anjos Gonçalves, 69 anos, não se atreve ainda a sair de casa com a bátega que cai em Isna, Oleiros, nesta manhã de quatro de Outubro. “Eles andam lá para a mesa de voto, o senhor presidente da Junta, ele é que está à frente de tudo, andam aí de carro a levá-los de um lado para o outro”.

Este é o lugar, no extremo sul do concelho, onde mais se vota em Portugal. Em 2011 foram às urnas 90 por cento dos 234 inscritos. Isto é: só 23 pessoas não apanharam boleia de alguém para a única mesa de voto colocada na sede da freguesia. Diz Maria dos Anjos: “Dar aqui a volta à freguesia demora mais de uma hora e todo o dia andam para cima e para baixo a trazer as pessoas. Eu vou lá a pé, mas os dos lugares demoram muito e, se não tiverem as carrinhas, é-lhes difícil”.

Já lá vai o tempo em que a pequena Isna tinha 686 habitantes, vivaz terra de caça e de madeireiros. Desapareceram as pessoas mas o tempo de viagem à capital de distrito, Castelo Branco, mudou pouco: há 40 anos era hora e meia de carro, hoje demora-se uma hora, com passagem por Proença-a-Nova  em direcção à A23, onde se embica então para a cidade.

A terra tinha um café, mas Manuel (que apelido não quis dar) já se fartou do negócio: “Ninguém cá vinha, isto anda fraco, as pessoas comem em casa ou vão a trabalhar para a vila e tomam lá o pequeno-almoço. À noite chegam cansadas…”. E o nome do café? “Não tinha, eu tinha era a porta aberta, nem firma era, deixei-me de chatices”. Entendido.

Nem Maria dos Anjos nem Manuel dão explicação para tanto voto. A não ser essa das carrinhas e dos carros sempre a mexer durante o dia, a ir buscar as pessoas ao Pedintal, à Ribeira de Isna, ao Vale da Cuba e ao Vale de Lousa, os lugares e montes que ali se espalham. Serão dos partidos, dos militantes, esses carros? “Sei lá eu, não me faça essas perguntas”, riposta Manuel, já maçado com os repórteres, que chumba logo mais conversa: “E agora com licença que estava a tomar o pequeno-almoço”, e vai-se, deixando o piiiiii na linha telefónica deste que, já não sendo café, é ainda o único posto público de telefone fixo da terra.

Decerto que o pequeno tasco fechou por falta de clientela, mas que ali se deviam comer os petiscos mais famosos de Isna, os Maranhos e o excelente queijo de cabra (de casca amarela e estaladiça). Pouco se sabe se foi do abuso destas iguarias,  ou estar “embudeledo”, como se diz aqui em Isna, que levou um dia o Rei D. Carlos a cair da cama quando ali pernoitou. A “estambueirada”, ou queda desamparada – outro termo local – levou o rei a fazer algazarra enorme e pedindo ajuda para o levar de novo ao leito. Estas e outras expressões locais podem ser vistas em http://goo.gl/LYC447, lugar da liga dos amigos da terra, onde se descobrem os últimos casamentos, festas e até a descrição da chegada do homem à Lua.

Isna é o contrário de Rabo de Peixe, da Ribeira Grande, Açores, onde só  21.14 por cento dos 6482 inscritos foram votar em 2011. Isolada, distante, mas consciente da política e dos destinos que se pegam pelos votos, a freguesia serve de exemplo à Repúblia. Aliás, como se viu, foi lá que caiu, pela primeira vez, um Rei.

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