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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

Trabalhadores palestinos têm uma longa história de resistência

A greve geral palestina de 18 de maio se encaixa em uma história muito mais longa de mobilização dos trabalhadores palestinos. Dos anos coloniais britânicos ao presente, essas lutas encararam repressão severa, mas mantiveram um espírito de resistência vivo. Em 18 de maio, todos os setores do povo palestino se uniram em uma greve geral: residentes da Cisjordânia ocupada por Israel, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza, e cidadãos árabes palestinos de Israel e seus compatriotas na diáspora. A “greve da dignidade” amplamente observada lembrou duas anteriores greves gerais palestinas para avançar em demandas nacionais, em 1936 e 1976.

Por Joel Beinin (Jacobin) | Tradução de Luciana Cristina Ruy

A greve desafiou as táticas de dividir para governar que Israel implantou para dispersar e dominar os palestinos, desde seu estabelecimento em 1948. Igualmente importante, ela destacou a importância dos cidadãos palestinos de Israel, não apenas como uma força na política israelense, mas como um componente de todo o povo palestino.

O Alto Comitê de Acompanhamento para Cidadãos Árabes de Israel, o corpo dirigente não oficial dos palestinos israelenses, que compreende cerca de 20% dos cidadãos de Israel, iniciou a chamada de greve. Subsequentemente, ambos Fatah e Hamas – os partidos dominantes na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, respectivamente – assim como a Autoridade Palestina, a endossaram. Federações sindicais palestinas na Cisjordânia também aprovaram a greve.

“O ataque aos palestinos em Jerusalém, em Sheikh Jarrah e na mesquita de al-Aqsa” e “o ataque ao público em geral e em cidades mistas em particular” provocaram a greve de 18 de maio, afirmou um porta-voz para o Alto Comitê de Acompanhamento. Ayman Odeh, chefe da Lista Conjunta dos três principais partidos árabes no Parlamento de Israel, o Knesset, adicionou:

A provocativa e violenta política de repressão do governo Netanyahu falhou e não terá sucesso em repreender a nossa luta ou nos desviar de nosso caminho – uma luta civil organizada e justa contra a ocupação, o bloqueio , os ataques em Gaza e por paz e igualdade.

A expressão mais visível da greve de 18 de maio foram os negócios árabes fechados no Leste de Jerusalém e na Cisjordânia, assim como em cidades israelenses com grandes populações palestinas, tais como Haifa, Jaffa, Lydda e Acre. Foi amplamente observado pela classe trabalhadora palestina israelense e de Jerusalém Oriental, que são desproporcionalmente representados na construção, saneamento, setores de hotéis e restaurantes, assim como nas fileiras de motoristas de táxi e de ônibus. Várias centenas de trabalhadores foram demitidos por fazer greve.

De acordo com a Associação de Construtores de Israel, apenas 150 trabalhadores da construção palestinos da Cisjordânia apareceram para trabalhar, resultando em perdas estimadas de perto de $40 milhões. “Se todos nós lutássemos dessa forma pelos direitos dos trabalhadores, talvez nós conseguíssemos alguma coisa,” comentou um operador de guindaste grevista. Contudo, a maioria dos palestinos israelenses no setor de saúde, onde eles são particularmente proeminentes – compreendendo 17% dos médicos, 24% dos enfermeiros e 47% dos farmacêuticos – não observaram a greve.

Muitos palestinos, como Mudar Younes, chefe da União Nacional de Municípios Árabes, não conseguiam lembrar uma ocasião anterior quando os palestinos israelenses iniciaram uma greve que se espalhou para a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A última vez que isso aconteceu foi quarenta e cinco anos atrás.

Dia da Terra de 1976

A primeira ocasião que os cidadãos palestinos através do País resistiram as políticas israelenses como um coletivo nacional foi na greve geral do Dia da Terra, de 30 de março de 1976. O Dia da Terra protestou contra o Plano de Desenvolvimento da Galileia. Os termos do plano confiscaram cerca de dois mil acres de terras palestinas de propriedade privada e as alocou para a construção da cidade totalmente judia de Carmiel e cinquenta menores assentamentos judeus, para “tornar a Galileia judia”. As forças de segurança israelenses mataram a tiros seis manifestantes palestinos desarmados e feriram mais cem naquele dia.

A principal consequência imediata do Dia da Terra foi a consolidação de uma aliança de partidos políticos de esquerda chamada de Frente Democrática pela Paz e Igualdade, que foi liderada pelo Partido Comunista. Ele se tornou o partido político mais popular entre os cidadãos palestinos e judeus não sionistas de Israel pelos próximos quinze anos.

Houve mais greves de solidariedade na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em campos de refugiados palestinos no Líbano no Dia da Terra de 1976. Em última análise, o Dia da Terra se tornou um símbolo amplamente observado da conexão do povo palestino com sua terra em todas as comunidades palestinas.

O Dia da Terra de 2018 iniciou a Grande Marcha de Retorno, organizada pela juventude da Faixa de Gaza. Manifestações semanais as sextas feiras, ao invés de greves, continuaram até dezembro de 2019. Durante esse período, forças israelenses mataram a tiros 183 palestinos, dos quais apenas uma pequena minoria eram membros de grupos armados (as estimativas variam de vinte e nove a quarenta e sete). Eles também feriram mais 9.200.

A greve geral e a revolta árabe de 1936-39

A observação do operador de guindaste grevista sobre a greve de 18 de maio sugere uma potencial ligação entre a causa nacional palestina e as demandas de classe dos trabalhadores. Esse potencial foi realizado na greve geral de 1936 contra o projeto colonizador sionista e o domínio colonial britânico, durante o período de 1922-1948 quando a Grã-Bretanha governou a Palestina sob um mandato da Liga das Nações.

Inspirada por uma greve geral síria que tinha garantido uma promessa da França de negociar a independência da Síria mais cedo naquele ano, a comunidade árabe palestina conduziu a mais longa greve geral na história moderna, entre 19 de abril e 16 de outubro de 1936. A greve foi a fase de abertura da revolta árabe de 1936-39. Suas demandas eram a proibição de mais imigração judaica e vendas de terras a judeus, e o estabelecimento de um governo nacional – que refletiria a grande maioria árabe – responsável perante um conselho representativo.

Comitês Nacionais Árabes localmente organizados, em Nablus e Jaffa, iniciaram o chamado de greve. Eles imediatamente ganharam forte apoio de trabalhadores árabes, mais notavelmente os trabalhadores do porto de Jaffa e motoristas de veículos motorizados, assim como comerciantes urbanos, mercadores e juventude nacionalista radical.

Contudo, conservadores tradicionais notáveis, incluindo grandes proprietários de terra que tinham vendido terras aos sionistas e explorado seus arrendatários camponeses, rapidamente tomaram a liderança da greve e da revolta árabe mais ampla. Eles formaram o Comitê Superior Árabe sob a liderança do Grão-mufti al-Hajj Amin al Husayni, que subsequentemente se tornou um abertamente colaborador nazista.

No verão de 1936, os camponeses afirmaram sua participação, enquanto a greve evoluía para uma revolta armada no campo. Voluntários do Iraque e Síria se juntaram à luta. Um deles, um ex-otomano, então sírio, oficial do Exército, chamado Fawzi al-Qawuqji, proclamou a si mesmo comandante militar da revolta. Esse foi um sinal de que os palestinos comuns estavam perdendo o controle do movimento.

All Hajj Amin al-Husayni e o Comitê Superior Árabe conspiraram com clientes britânicos, os reis do Iraque e da Arábia Saudita e Amir Abdullah da Transjordânia para terminar a greve geral em tempo de os pomares de frutas cítricas dos líderes da greve serem colhidos. Os reis publicaram cartas proclamando ridiculamente: “Nós confiamos nas boas intenções de nossa amiga Grã-Bretanha, que declarou que vai fazer justiça.”

Resistindo a Comissão Peel

Em julho de 1937, uma comissão real britânica propôs partilhar a Palestina em estados judeus e árabes, o que acarretaria a transferência forçada de mais de 225.000 palestinos para a Transjordânia. Em resposta ao plano da Comissão Peel, o banimento do Comitê Superior Árabe, e a prisão de sua liderança, os camponeses retomaram e intensificaram a guerra de guerrilha na região montanhosa do Norte, depois da colheita de verão.

Com os tradicionais notáveis agora desempenhando um papel menor, a revolta tomou um caráter de revolução social dirigida contra os senhores de terra e as elites urbanas. Bandos de guerrilheiros camponeses impuseram uma moratória de todas as dívidas, cancelaram aluguéis em apartamentos urbanos e apreenderam a propriedade de ricos urbanos que tinham fugido do País, vendendo-a em um leilão público simulado por preços nominais.

Em agosto de 1938, o movimento camponês controlava várias cidades. Líderes rebeldes decretaram que todas as mulheres palestinas deviam usar lenços na cabeça e os homens deviam pôr de lado seus barretes árabes (fez) de classe média e adotar o toucado camponês – o kaffiyeh. Isso permitiu aos rebeldes circularem em cidades sem serem prontamente identificados e transformou o kaffiyeh em um símbolo nacional palestino.

O Exército Britânico, em colaboração com milícias sionistas, reprimiu brutalmente a revolta árabe, matando quatro mil rebeldes e ferindo quinze mil. Eles prenderam mais de quinze mil pessoas e deportaram vários líderes notáveis.

Em 1938-39, partidários de facções notáveis concorrentes começaram a assassinar seus rivais em uma guerra civil de pequena escala. Entre os alvos estava Hasan Sidqi al-Dajani, o líder do Sindicato dos Motoristas Árabes. Ele estava alinhado com uma facção que se opunha a al-Hajj Amin al-Husayni, cujos apoiadores eram os prováveis assassinos.

Enquanto isso, os sionistas aproveitaram a oportunidade da greve geral árabe para construir um novo porto na Tel Aviv totalmente judaica e expandir a força de trabalho judaica no porto de Haifa. A combinação de repressão massiva, dissensão interna, um vazio de liderança e deslocamento econômico significou que os palestinos árabes estavam mais tarde incapazes de oferecer resistência substancial aos sionistas assumirem o controle de 78 por cento da Palestina durante a guerra árabe-israelense de 1948, conhecida como a nakba.

Greves trabalhistas da era do mandato

Como Zachary Lockman mostra em sua história das relações árabes-judaicas no movimento trabalhista do Mandato Palestino, trabalhadores árabes palestinos, que começaram a envolver em greves para ganhos econômicos já na década de 1920, enfrentaram um desafio duplo.

Primeiro, a tendência política dominante na federação sindical sionista, a Histadrut, rejeitou a solidariedade da classe trabalhadora árabe-judia. A Histadrut também possuía uma empresa de construção e muitos empreendimentos relacionados ao movimento de assentamento trabalhista-sionista. Ela procurou assegurar emprego para trabalhadores judeus em tantos locais de trabalho quanto possível e temeu que se os trabalhadores árabes palestinos ganhassem experiência em organização sindical, isso poderia realçar sua capacidade política e consciência nacionalista.

Segundo, notáveis nacionalistas procuraram converter o nascente movimento trabalhista árabe em seus clientes e afastar seus apoiadores da consciência de classe.

Trabalhadores árabes e judeus se organizaram conjuntamente desde a formação do Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários, Postais e Telegráficos. Mas a liderança da Histadrut minou sua unidade. Em 1925, a maioria dos trabalhadores árabes saíram e se uniram a Sociedade de Trabalhadores da Palestina Árabe (PAWS, na sigla em inglês).

Não obstante, houve um número de notáveis ações conjuntas de trabalhadores árabes e judeus, durante os anos de 1930. Em agosto de 1931, uma greve de dez dias de motoristas de caminhões e ônibus, que estavam protestando contra novos impostos sobre a gasolina e sobre o transporte motorizado, imobilizaram o tráfego através do País.

Em fevereiro de 1935, centenas de trabalhadores árabes e judeus empregados pela Companhia de Petróleo Iraquiana, em Haifa, fizeram greve por salários mais altos, menos horas e melhores condições de trabalho. Sua ação inspirou outros trabalhadores na área de Haifa, o centro industrial da Palestina, incluindo os trabalhadores ferroviários, que eram agora representados por dois sindicatos, um inteiramente árabe e outro principalmente judeu. A Histadrut minou a solidariedade árabe judia, procurando usar este aumento de mão-de-obra para conseguir mais judeus contratados – a mesma questão que havia quebrado a unidade dos trabalhadores ferroviários árabes e judeus, uma década mais cedo.

A pedreira Even Vesid e o forno de calcário eram conjuntamente de propriedade do escritório de contratação de construção da Histadrut e um rico empresário árabe de Haifa, Tahar Qaraman. Os proprietários pagavam aos trabalhadores árabes doze piastras por dia e para os trabalhadores judeus, vinte e cinco piastras por aproximadamente o mesmo trabalho. Os trabalhadores árabes fizeram greve em abril de 1935, exigindo um salário diário de quinze piastras, oito horas diárias e a remoção de um capataz odiado. A Histadrut, em seu papel como empregadora, lutou contra a greve, mas acabou envergonhada e subiu os salários dos trabalhadores árabes.

A greve da Even Vesid exemplifica os limites da solidariedade da classe trabalhadora árabe-judia. A lucratividade da empresa e os empregos dos trabalhadores judeus mais bem pagos dependiam dos trabalhadores árabes recebendo salários abaixo da média, mesmo embora isso contradissesse a política da Histadrut de contratar apenas trabalhadores judeus.

Em 1944, havia cem mil árabes-palestinos na força de trabalho assalariada, seus números aumentaram devido às necessidades dos militares britânicos em tempo de guerra. Um número substancial deles aderiu ou estava sob a influência da Federação de Sindicatos e Sociedades de Trabalho Árabes, estabelecida por membros dissidentes árabes do Partido Comunista da Palestina, em 1942. Pelo fim da Segunda Guerra Mundial, os comunistas lideravam cerca de vinte por cento da classe trabalhadora organizada árabe.

Ameaçada pelo crescimento da radicalização do sindicalismo árabe além de seu controle, a Histadrut começou a competir com a maior federação sindical árabe, a PAWS, para representar trabalhadores, tanto árabes quanto judeus, nos acampamentos militares britânicos. Em 10 de maio de 1943, sem consultar os líderes da PAWS, a Histadrut convocou uma greve de trabalhadores do acampamento militar, buscando um subsídio de custo de vida, que funcionários regulares do governo haviam recebido anteriormente. Os líderes da PAWS consideraram a ação da Histadrut um desafio político e convocaram os trabalhadores árabes a não entrarem em greve. A maioria não entrou.

Movimentos rivais

Essa greve dividiu o Partido Comunista da Palestina em uma facção totalmente judia, cujos membros tinham apoiado a greve, e membros árabes, que se opuseram a ela. O último passou a estabelecer a Liga de Libertação Nacional (NLL, na sigla em inglês). A NLL promoveu ambos a luta nacional árabe palestina pela independência do imperialismo britânico e o sindicalismo árabe. Em 1945, ela estabeleceu o Congresso de Trabalhadores Árabes (AWC, na sigla em inglês), que logo desafiou a PAWS pela preeminência entre os trabalhadores árabes.

Enquanto as tensões nacionais entre árabes e judeus se intensificavam depois da Segunda Guerra Mundial, ações conjuntas por trabalhadores árabes e judeus alcançaram um ponto alto. Isso foi em parte porque a NLL e o AWC distinguiram entre o movimento sionista e a comunidade judia, especialmente os trabalhadores, e advogavam por cooperação entre trabalhadores árabes e judeus em questões econômicas.

Em setembro de 1945, o AWC e a Histadrut conjuntamente lideraram uma greve de sete dias de 1.300 trabalhadores árabes e judeus empregados nas oficinas militares britânicas, nos arredores de Tel Aviv. Os grevistas exigiam o reconhecimento de seu comitê conjunto, um subsídio de custo de vida e a reintegração de trabalhadores demitidos injustamente. Eles organizaram uma marcha conjunta pelas ruas de Tel Aviv, cantando em hebreu e árabe, “Vida longa à unidade entre trabalhadores árabes e judeus!” – uma visão extraordinária na principal cidade judia da Palestina. Mas a greve foi apenas parcialmente bem-sucedida.

Durante o outono de 1945, um comitê conjunto da Histadrut e da PAWS negociou e venceu as demandas de 1.800 trabalhadores na Refinarias Consolidadas de Haifa, a maior empregadora industrial na Palestina. A Histadrut e o AWC continuaram em uma greve conjunta de vinte dias dos trabalhadores da Socony Vacuum, em abril de 1946. A PAWS, sob pressão de apoiadores de al-Hajj Amin al Husayni, se recusou a se juntar à greve, que não obstante conquistou alguns ganhos para os trabalhadores.

Outra greve árabe judia estourou na Refinarias Consolidadas, em janeiro de 1947. Ela também foi minada pela liderança da PAWS. Em março deste ano, 2.500 árabes – a vasta maioria da força de trabalho – e judeus, na Companhia de Petróleo do Iraque, fizeram greve por quatorze dias e conquistaram uma vitória parcial.

A maior ação conjunta trabalhista árabe judia pós-guerra foi a greve de abril de 1946 de operários de colarinho azul e branco, telégrafos, telefônicos e ferroviários através do País – a primeira greve geral de ferroviários e trabalhadores dos correios na Palestina. Eles logo se juntaram a funcionários públicos e trabalhadores do Departamento de Obras Públicas e portuários, com cerca de vinte e três mil trabalhadores participando no total.

A incapacitada administração do mandato britânico teve que conceder à muitas das demandas dos grevistas, incluindo aumentos salariais, um subsídio de custo de vida e melhorias de pensão. Nem os líderes da Histadrut, nem os nacionalistas palestinos conservadores acolheram essa expressão de solidariedade árabe judia.

Depois da Nakba

A guerra árabe-israelense de 1948, a Nakba, dispersou e enfraqueceu a classe trabalhadora árabe palestina. Ex-membros da Liga de Libertação Nacional vivendo na Cisjordânia, que estabeleceram o Partido Comunista da Jordânia, forneceram a única continuidade organizacional.

A maioria dos 156.000 palestinos permaneceram no que se tornou Israel depois da guerra foram governados por um governo militar, de 1949 a 1966. As autoridades israelenses regularam firmemente seus movimentos e empregos fora de suas aldeias. Sob essas circunstâncias, se engajar em greves estava fora de questão. Além disso, o governo israelense proibiu o Congresso de Trabalhadores Árabes, que mal tinha sobrevivido a guerra de 1948, antes de permitir israelenses palestinos de se juntar aos sindicatos da Histadrut, em 1952. Muitos foram não obstante excluídos da associação e tiveram seu emprego negado com base nisso. Só em 1965, os cidadãos árabes palestinos puderam votar nas eleições da Histadrut como membros plenos.

No resto do que tinha sido o mandato da Palestina, a Transjordânia anexou a Cisjordânia, depois da guerra de 1948, para formar o Reino Hachemita da Jordânia. Os governantes do reino proibiram greves. Até hoje, eles ainda são fortemente restritos pela Lei Trabalhista de 1996. O Egito administrou a Faixa de Gaza de 1949 até 1967. As greves eram efetivamente ilegais no Egito depois que Gamal Abdel Nasser consolidou seu poder em 1954, e a mesma restrição se aplicava à Faixa de Gaza.

Os territórios ocupados desde 1967

Depois que Israel ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza durante a guerra árabe-israelense de 1967, dezenas de milhares de palestinos desses territórios começaram a trabalhar em Israel e, paradoxalmente, na construção de assentamentos judeus. Bem mais de 100.000 palestinos tinha permissão para trabalhar em Israel, em 1990, e dezenas de milhares o fazia sem a permissão – constituindo talvez tanto quanto um terço da força de trabalho assalariada palestina.

Suas condições eram muito precárias. Eles não tinham permissão de se unir a Histadrut e eram inelegíveis para a maioria de seus benefícios sociais, embora eles pagassem uma “taxa de organização” igual a 1 por cento de seus salários. Isso era supostamente para cobrir o custo da negociação coletiva, na qual eles nunca eram envolvidos. Muitos recebiam menos do que o salário mínimo legal, mas fazer greve para remediar isso estava fora de questão.

O Partido Comunista da Jordânia era a única tendência política que tentava organizar os trabalhadores da Cisjordânia antes da ocupação israelense de 1967. Mas o partido era ilegal e suas conquistas limitadas. No final dos anos de 1970, as quatro principais facções políticas palestinas – Fatah, a Frente Popular pela Libertação da Palestina, a Frente Democrática pela Libertação da Palestina e o Partido Comunista – organizaram blocos sindicais concorrentes, levando a uma divisão definitiva em 1981.

Além disso, o trabalho sindical era subordinado a luta nacional, como os líderes trabalhistas decidiram “congelar” a luta de classes, porque “nós descobrimos que o perigo da ocupação era maior do que os capitalistas.” Enquanto alguns donos de negócios cooperavam com os sindicatos para resolver disputas trabalhistas, outros agiam como capitalistas “normais”, obstruindo os esforços dos trabalhadores para formar e se unir a sindicatos e jogavam um bloco sindical contra outro.

Não obstante, houve um punhado de greves contra empregadores palestinos na Cisjordânia, através do final dos anos de 1980. As mais intensas eram greves das equipes educacionais: uma principalmente mal sucedida greve de cem dias de professores de escolas públicas palestino empregados pelo governo israelense, em 1981, e uma parcialmente bem sucedida greve de três meses na Universidade de Birzeit, em 1986. A última frustrou o plano da instituição de demitir todos os seus empregados e recontrata-los com salários mais baixos em resposta a uma crise financeira.
A primeira Intifada de 1987-1991 viu muitas greves na Cisjordânia e na Faixa de Gaza avançarem em demandas nacionais palestinas. Elas eram similares em caráter a greve geral desse ano, embora os cidadãos palestinos de Israel não se uniram a elas. Apenas nos estágios finais da Intifada foi que as demandas dos trabalhadores como tais foram levantadas.

Depois da Guerra do Golfo de 1991, Israel restringiu fortemente a entrada de trabalhadores palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Cerca de oitenta mil da Cisjordânia obtiveram permissão para trabalhar em Israel nos anos recentes, a maioria em construção, em adição a cerca de trinta mil que trabalham lá sem permissão. Esses foram os trabalhadores que desativaram a indústria de construção de Israel, em 18 de maio. Outros trinta mil trabalham em zonas industriais operadas por Israel nas margens da Cisjordânia.

Apesar dos esforços para reunificar, a rivalidade entre sindicatos alinhados com diferentes facções políticas e as práticas antidemocráticas consolidadas na política formal na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, desde o Acordo de Oslo, continuam a enfraquecer o sindicalismo palestino. Não obstante, houve greves notáveis de taxistas, em 2012, e de professores, em 2016, da Cisjordânia.

Os professores, que não haviam recebido seu pagamento completo em meses, fizeram greve de novo, em outubro e novembro de 2020. Apoiadores da Autoridade Palestina criticaram essa e outras greves de seus empregados da PA. De fato, a Autoridade Palestina frequentemente não tem os fundos para pagar os seus 130.000 empregados porque Israel frequentemente se recusa a transferir direitos e receitas fiscais a ela segundo os termos do Acordo de Oslo requerem.

Em janeiro de 2021, oitenta trabalhadores palestinos entraram em greve na fábrica Yamit, que manufatura filtros de água no parque industrial operado por Israel, Nitzanei Shalom, perto de Tulkarem. Eles haviam se organizado com um sindicato independente de esquerda israelense chamado Maan, que era o único sindicato que desejava se organizar nessa situação politicamente carregada. Essa foi a primeira tal ação no parque industrial da Cisjordânia, onde todos os proprietários são israelenses, mas as leis trabalhistas israelenses não cobrem os trabalhadores palestinos, porque seu local de trabalho não é tecnicamente em Israel.

Contudo, ainda não há história recente substancial de sindicalismo independente e funcional palestino na Cisjordânia ou na Faixa de Gaza, e os cidadãos palestinos de Israel continuam integrados a Histadrut. Esses fatores significam que a greve geral palestina de 18 de maio só poderia ser uma greve principalmente comercial, na qual importantes setores de trabalhadores participaram, mas sem afirmar as suas próprias demandas de classe autônoma.


por Joel Beinin, Professor de história de Donald J. McLachlan e professor de história do Oriente Médio na Universidade de Stanford. Seu último livro é “Workers and Thieves: Labor Movements and Popular Uprisings in Tunisia and Egypt” (Stanford University Press, 2016)  | Texto em português do Brasil com tradução de Luciana Cristina Ruy

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

Fonte: Jacobin

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