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João de Sousa

Quinta-feira, Maio 26, 2022

Tréplica de Carlos Fino a José de Souza Martins

Como bem se sabe, em termos de resposta a um qualquer artigo de opinião, uma simples carta enviada a um jornal, normalmente relegada para canto menos visível, não é equivalente à publicação de matéria plena no mesmo espaço do artigo que suscitou a polémica.

Tendo o “Valor Econômico” recusado ceder-me idêntico relevo ao do autor cuja posição contesto, considerei que tinha todo o direito de divulgar abertamente a minha posição através da forma de Carta Aberta, que o “Tornado” teve a gentileza de publicar.

Dito isto, vamos ao essencial.

Como já fez no “Valor”, José de Souza Martins (JSM) insiste em que não visou o meu livro, tendo-se baseado apenas em declarações de escritores a jornalistas da “Folha de São Paulo” para, a partir daí, tecer considerações genéricas acerca de aspectos sociológicos do imaginário brasileiro sobre o estrangeiro.

Ora acontece que as declarações à “Folha” foram sobre o meu livro, e sou quem JSM cita, logo no primeiro parágrafo do seu artigo, no qual defende –  no próprio título! – que “chamar de lusofobia as anedotas sobre portugueses é uma simplificação”.

Baseado no artigo da “Folha” e não no livro, JSM tomou por boa a ideia errada de que o meu trabalho estaria centrado nas anedotas anti portuguesas e logo correu a escrever no “Valor” que atribuir lusofobia às piadas seria um “simplismo”. Fez assim levianamente pairar sobre mim e sobre o meu trabalho – avalizado por duas universidades, uma portuguesa, outra brasileira  –  uma pesada nuvem de ligeireza científica que, como verá quando e se finalmente ler o livro – não tem qualquer razão de ser.

Quanto ao resto, é o costume – depois de forma quiçá até inconsciente – expressar o seu antilusitanismo pela desvalorização do anedotário antiluso – do qual a comunidade portuguesa se queixa amargamente, vendo nele uma forma de imerecida humilhação – JSM acaba por revelar ser, também ele… descendente de portugueses! O que só vem confirmar a minha tese de que foram os portugueses do Brasil que, por razões políticas para justificar a separação, desencadearam – e os seus descendentes mantêm até hoje – a ideologia lusófoba, que embora não se limite às anedotas tem nelas uma poderosa arma de arremesso.

Depois de as ter desvalorizado, no texto do “Valor” como expressão de lusofobia, JSM acaba por reconhecer, agora, no texto ao “Tornado” – lembrada a sua origem lusitana –  que as anedotas anti portuguesas são afinal fonte de hostilidade e portanto “não são para rir, mas para estigmatizar”. Nisto, estamos certamente de acordo.

Duzentos anos depois da independência, é mais que tempo – como referiu Jorge de Sena – de os brasileiros perderem de uma vez para sempre “complexos indignos das grandes virtudes que possuem e da grandeza de um país extraordinário que eles conheceriam melhor, se conhecessem melhor Portugal do que julgam conhecer os portugueses.”

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