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Terça-feira, Maio 24, 2022

Trolha, o seu sonho era ser trolha

João Vasco AlmeidaAcordou turvado pela sombra do trolha. Sabia-lhe a boca a constitucionalistas. O soslaio do sol batia no andaime e entrava na persiana – de fora havia homens a brochar ou a pintar. Não lhe apeteceu sequer o primeiro cigarro na cama nem  o telefonema para o ministério, a perguntar se havia lá um submarino socialista a tirar fotocópias da agenda do dia. Ou pior – um independente que os do rato tanto adoram, a passear-se entre os Prazeres e as Necessidades, em cata de trunfo eleitoral.

Não ligou a Pedro, era o dia 2 de Julho de 2013. Não lhe perguntou nada, não viu mails nem mensagens, desprezou um dos seis telemóveis. Abriu a janela e perguntou aos maçons: “Meninos, quero ser trolha, posso?”.

Os romenos, o transmontano e o guineense sorriram complacentes, sentaram-se na tábua e ficaram-lhe com os joelhos à altura do nariz. “Porquê, pá? Tens um bom emprego, nada de complicações, isto é horas a pichar, a tábua nem sempre direita, se um gajo diz que se demite o patrão não nos aumenta, manda logo vir um gajo do instituto de emprego a ganhar metade. Não faças isso”. Um deles abriu a lancheira.

3767649074_9ed647934d_oDavam as oito, a transitada apupava os espertos que se metiam pela esquerda e bloqueavam os da direita prioritária. “Eu gosto de cinema. Aquelas cenas do Buster Keaton, a imagem do trabalho. Um homem começa na lavoura, nas palavras da terra, no pomarão, mas eu quero construir. Sinto-me das catedrais, dos palácios, de Belém. Posso ficar convosco”?

Era sincero, aquilo. António, o romeno mais loiro, ainda lhe fez uma festa na cabeça e, segurando-o, muito fixo os olhos nos olhos: “Ouve, isto não é para ti. Não há rede, lá em baixo. Quando caíres, cais mesmo. Não há indemnização, tens de mandar piropos ás gajas antes que os proíbam”.

“Eu sei mandar piropos”, sugeriu.

“Não, não sabes”, desiludiu-o António. Mas insistiu. “Sei, sei. Olha este: Ó Nuno Melo, és muitabom“.

Os do andaime não sorriram, levantaram-se, pegaram nas trinchas, nas chaves, nas cordas e nos baldes.

Ontem, sem tirar da cabeça aquela manhã de Julho, apresentou-se ao serviço.

Era um homem feliz.

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