Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quinta-feira, Fevereiro 29, 2024

Um cão à janela

João Vasco AlmeidaPrimeiro a voz: rouca, bebida, imagina-se nos sessenta e tal. Entra pela janela, estranhamente carinhosa: “Então? Aqui cocó”. Há-de ser um cão, decerto, a passear-se com o dono.

Prossegue o monologo: “Então, anda, aqui cocó. Já fizeste? Isso. Vá”.

Mas alguma coisa acontece, em segundos. Maldito cão. “Atão, pá? Isso é para morder? Cara***, pá, isso é para morder? É só p’ra estragar?”.

É de noite e como a janela é de águas furtadas não consigo ver os personagens. Por isso o homem passa a ter bigode, um casaco de cabedal, uma camisa de flanela e umas calças de fazenda. O cão é branco, rafeiro, novo, ainda. As traseiras do prédio não têm outra luz senão a da lua, cheia. “Mas viemos para aqui para me fo*eres a roupa toda? Ai o ca****o! Dou-te um biqueiro na tromba, mais a pu** que te pariu”.

Pausa.

“Vá, chichi, cocó, hoje não há brincadeira”, ouve-se um restolhar, “tá quieto cabr**, chichi, cocó, anda, já fizeste? Já, então anda. Agora vou com a pu*a das calças todas rasgadas”.

Foram-se. Voltou a ouvir-se a berraria dos putos na rua, lá ao fundo, um carro que expande música má à porta do café da esquina, um avião a fazer-se ao Humberto Delgado.

cão à janelaHá algo de aterrador e mágico neste monólogo. O homem de bigode que passeia o cão usa o vocábulo infantil porque toma o animal como toma as crianças. Não há linha separadora no seu afecto ou, havendo, a caixinha onde guarda os cães não é longe daquela onde se colocam os filhos. Usam-se os vocábulos infantis como se os cães fossem miúdos, como se houvesse esperança de os resgatar à condição de cães.

Mas o homem de bigode há-de ter sido duro com os filhos, se os teve. Não abandona as pueris palavras no que respeita ao outro (ao cão), mas para si, de trato duro de uma vida com sabe-se lá que afectos, permite-se o chorrilho de vernáculo. Consente-o num alívio de calças rasgadas.

Veio trazer o cão à rua, o malandrim rasgou-lhe as truces e agora ainda há-de ouvir se chegar a casa e, depois de minutos de discussão, dirá: “Passas tu a levá-lo, mulher, tu é que quiseste o cão”.

A gente sabe que é mentira. O cão é dele. E ele do cão.

Julgo que ainda ali andam.

Vou ver.

Andam sim. Ainda bem.

 

Leia mais artigos do mesmo autor

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -