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João de Sousa

Domingo, Outubro 17, 2021

“Um Filme de Cinema” de Walter Carvalho

A essência do cinema na percepção de diversos cineastas em “Um Filme de Cinema”, de Walter Carvalho, e o descaso do governo Bolsonaro com a Cinemateca Brasileira.

Um excelente filme, esse do paraibano Walter Carvalho, e ainda melhor porque está no “streaming” da Netflix e se pode encontrar facilmente: “Um filme de cinema”. Walter começou batendo claquete para seu irmão, o grande cineasta Vladimir Carvalho, e terminou realmente se igualando a ele como cineasta. É outro tipo de abordagem do cinema a que Walter vem fazendo, mas em qualidade estética já estão bem próximos.

Esse “Um filme de cinema” coloca a questão do cinema em sua essência como arte e levanta um debate que dificilmente chega à oralidade. Realmente, a questão tempo e movimento colocada pelo filósofo Gilles Deleuze tem chegado aos livros acadêmicos e não às telas de filmes. E juntando um notável time de cineastas, Walter Carvalho criou uma obra capaz de interessar ao mais culto cinéfilo e também ao simples espectador que vê cinema como tempo de distração e na televisão.

A partir dos depoimentos, Walter Carvalho chegou a um filme específico. Com começo, meio e fim. E querendo ser entendido mesmo pelo mais simples cinéfilo. Buscando deixar claro que o que é fundamental num filme não é a própria estória, mas a sua imagem, o seu ritmo exterior e interior. O seu som que se enquadra no desenvolvimento da imagem. Os participantes vão sendo colocados no debate sem que seja explicitado o nome de cada um deles. Se você não conhece fisicamente cada cineasta que fala, não irá saber na hora quem está falando. Mas o fundamental é que Walter Carvalho vai juntando o dizer de cada um e ligando cada afirmação. Assim, a ideia que fica é de que quem está falando é um só entrevistado, pois o que um diz se completa no que o outro diz. Assim, temos um só discurso sobre o que é cinema, embora tenhamos um punhado de cineastas sendo entrevistados.

Gente como Ruy Guerra – o grande sobrevivente do Cinema Novo – vai falando toda a sua teoria sobre o que realmente é a arte cinematográfica e os grandes momentos que fazem uma autêntica obra de arte na tela. E a sua opinião vai sendo continuada por outra figura extraordinária do cinema que é o cineasta húngaro Béla Tarr, como se os dois fossem uma mesma voz. E segue assim com outros cineastas, como o brasileiro Júlio Bressane e suas marcas da composição de uma obra cinematográfica. Até mesmo um cineasta de uma produção tão desbragada e de direita, como José Padilha, se incorpora na explicação do que é criar filmes fundamentais para aqueles que buscam arte nas cenas de cinema. E vem também o norte-americano Gus Van Sant, que nos seus filmes nos parece tão distante em torno dos filmes que faz, mas também dando uma continuidade. E isso ainda é conseguido por Walter Carvalho com os depoimentos de um oriental como Jia Zhang-ke. E com uma argentina que é Lucrecia Martel. E o inglês que é tão conhecido pelos seus filmes de extremo cunho social como Ken Loach. E ainda temos o cearense Karim Ainouz e o polonês Andrzej Wajda. E o argentino-brasileiro – tão brasileiro – Hector Babenco. Eu não me lembro de um filme de entrevistas onde se encontre um grupo tão excelente reunido. Aí já começa a façanha criativa de Walter Carvalho.

Cineasta Ruy Guerra em cena do filme “Um Filme de Cinema”, de Walter Carvalho

Não sei como ele não colocou o seu irmão Vladimir. Mas colocou o famoso Ariano Suassuna, paraibano que na verdade não gostava de cinema, e queria que cinema fosse algo particular dentro de suas ideias e assim comenta duas piadas. Numa delas, Walter Carvalho consegue ilustrar mostrando a sequência do filme que teria sido comentada por Ariano e como ela – sequência – ilustra um tipo de ritmo que faz parte do cinema. E Walter Carvalho colocou também um poema-piada do poeta pernambucano Ascenso Ferreira, “Cinema”, que é ótimo. Mas que faz parte de uma espécie de momento folclórico dentro do filme “Um filme de cinema”.

Nos anos 60 e 70, quando se falava em fotografia de cinema, se falava imediatamente em Dib Lutfi, que então era o “grande fotógrafo” do cinema brasileiro. Dib, porém, nunca se transformou num “grande cineasta”. Hoje, quando se fala em fotografia do cinema, temos que falar em Walter Carvalho e suas excepcionais realizações como diretor de fotografia de alguns dos mais importantes filmes do cinema brasileiro. E depois desse “Um filme de cinema”, não se pode mais dizer que ele é simplesmente um grande diretor de fotografia. É um excepcional cineasta. Não só como realizador, mas como teórico da arte cinematográfica. Excelente.

Olinda, 22. 07. 2021


 

O porquê de uma Cinemateca

Eu realmente não sei detalhes do que foi destruído com esse recente incêndio ocorrido na Cinemateca Brasileira, que fica em São Paulo. Mas sei o que é necessário saber sobre uma casa de cultura que abriga o maior acervo de objetos audiovisuais da cultura brasileira. Um filme que fosse – “Deus e o Diabo na Terra do Sol” –, que fosse destruído pelo fogo, já seria uma parte da nossa alma destruída. E apenas um governo destruidor – nazifascista para dizer o seu nome – faria com que a nossa Cinemateca chegasse ao ponto a que chegou.

Cinemateca Brasileira I Foto: Portal Vila Mariana

De modo geral, o nosso país tem tradição de mal cuidar do nosso acervo cultural. Em todos os setores. E eu me lembro já nos anos 1960 do quanto se falava aqui no Recife para se cuidar dos acervos existentes. Por exemplo, um acervo de filmes nacionais e pernambucanos que havia no Teatro do Parque era sempre pedido pela Cinemateca para ser levado para São Paulo e lá ser duplicado. Mas os responsáveis pelo acervo aqui ficavam com o receio de que se esses filmes fossem levados para lá nunca mais seriam devolvidos. A questão da preservação – vejam bem – passa por questões desse teor. E na época se tinha aqui pessoas como Fernando Spencer e lá na Cinemateca pessoas como Paulo Emílio Salles Gomes. Se fazer cinema é uma questão dificílima como produção, muito mais difícil é a questão da preservação.

A cultura não é uma questão de especialistas. Para se cuidar do acervo cinematográfico não é básico que os técnicos sejam ligados por amor ao cinema. Para se conservar a arte cinematográfica, o que se faz fundamental é que a população de um país tenha consciência da importância desse acervo. E o brasileiro em sua imensa maioria não tem essa consciência. E como a força cultural é elemento básico para a manutenção de um povo consciente, governos fascistas, como o montado no Brasil em 1964 e como esse que está agora, fazem o que lhes é possível para destruir os acervos culturais.

Reprodução

Com a Cinemateca Brasileira, desde o começo do governo Bolsonaro que estamos vendo uma ação direta para a destruir. Tentaram colocar em sua direção pessoas totalmente incapazes para a tarefa. Deixaram de pagar os salários dos funcionários. Deixaram de manter os serviços de proteção contra incêndio. Tudo isso anunciado às claras. Esse atual governo é contra a cultura explicitamente. Não tem vergonha em anunciar esse seu princípio. E assim esse incêndio só pode ficar claro que foi preparado. Explicitamente.

Essa situação da Cinemateca Brasileira deve servir pelo menos para pensarmos em questões mais próximas de cada um de nós. Nos estados. Aqui mesmo em Pernambuco temos a situação do Museu da Imagem e do Som que há quase vinte anos se encontra sem movimentação. No começo, o Mispe era instalado na Casa da Cultura. Nos anos 90 foi transferido para um casarão na Rua da Aurora. E já a partir de 2003 voltou para a Casa da Cultura, onde permanece totalmente inativo. É – em comparação com a situação nacional – um pequeno, mas importante acervo que permanece inteiramente inativo. Sem utilização.

Cinema não é a maior diversão. Cinema é um dos principais instrumentos para conscientizar as populações. O nosso grande poeta Ascenso Ferreira disse num poema que o cinema é o grande culpado da – vamos dizer – falta de inocência das pessoas. Quem vê um filme sem dúvida ganha uma nova dimensão humana. E por isso nada mais fundamental para lutar contra os governos fascistas do que usar o cinema como força de conscientização.

Olinda, 30.07. 2021


por Celso Marconi, Crítico de cinema mais longevo em atividade no Brasil. Referência para os estudantes do Recife na ditadura e para o cinema Super-8  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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