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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Um lavagante esfomeado mas politizado

José Carlos S. de Almeida
Professor de Filosofia do ensino secundário. Licenciado em Filosofia e em Direito.

Poema inédito de José Carlos S. de Almeida

Um lavagante esfomeado mas politizado

Um senhor lavagante
muito elegante
passeava com a sua amante
de exaltante aroma
em plena avenida de Roma.

Sentindo alguma fomeca
entrou num restaurante perguntando
Então, não há nada que se coma?

Respondeu-lhe o empregado
um tal de tal João Alberto
Ora, caro senhor lavagante
apareceu no sítio certo!
Pois é aqui que se manja
E a vontade fica satisfeita
Pode começar por uma canja
Com muita carniça desfeita.
Para si e p’rá sua amiga
que parece desfalecer
se qualquer coisa p’rá barriga
não lhe arranjarmos p’ra comer!

Só que o nosso lavagante
Não era bem o prato do dia
A coisa que ele mais queria
mas antes algo de mais extravagante
Para rimar com lavagante.
E pondo-se com modos de artista
Pede então a lista
E ao empregado Alberto
Que não tinha cara de esperto
Mas antes a raiar para o assim-assim
Disse-lhe, todo importante
«Olhe, escolha por mim…»

Respondeu-lhe o tal Alberto
cheio de boas maneiras
isto é, come il faut,
seguindo a etiqueta:

Temos aqui um pitéu, une chose fine
um extraordinário petisco
uma receita da mais que nouvelle cuisine!
Só que inclui… marisco!

Foi então que o lavagante,
olhando para a sua companheira
virou-se
irado
para o empregado,
«Oh, meu desgraçado
saia já da minha beira!
Então oferece-nos marisco
à conta de grande petisco
a nós que viemos do mar?
Não vê que isso é suicídio
Mais talvez mais parecídio
com premeditado
homicídio?…»

E os outros clientes
despertando dum sono dogmático
deram em concordar com o lavagante
e passaram a comer vegetais
dali em diante!

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