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João de Sousa

Segunda-feira, Setembro 20, 2021

Um Rio na cidade das pessoas

Será que o Rio sabe que o seu percurso é demasiados sinuoso e que margens há em que a poluição se esconde por de trás de vegetação densa e outras há em que outra poluição corre mesmo a céu aberto?Será que O Rio sabe que ao longo da História dos Homens estes sempre dependeram da água que corre no seu leito? E que desde que se tornaram sedentários a sua organização social sempre se instalou em zonas altas para sua defesa mas sempre com o cuidado de abrir passagem até ao seu precioso conteúdo, a água, em cujas margens instalavam as áreas de cultivo que necessitavam?

Será que o Rio sabe que não se pode simplesmente pavonear por entre os campos e as avenidas, as casas e as ruas, as indústrias e outros equipamentos que o Homem usa, sem ter a mínima noção de que dele dependem parte significativa da vida e da sua qualidade?

Será que o Rio sabe que desde a Nascente à Foz não lhe chega afagar o leito e as margens ao sabor da quantidade de água que no seu seio leva?

Provavelmente… Não!

Quiçá, o Rio, limita-se a acolher as águas da sua e das outras diversas nascentes, das veredas, das chuvas sazonais e outras, e nada mais. Tudo o resto, é obra do acaso. O acaso que condiciona a vida sendo que o alimento, de que a água é parte principal, fica na expectativa de que quem dela necessitar se dê ao trabalho de a procurar.

E… Assim sendo, o Rio, que apenso tem o Ricardo, quiçá por alusão ao “Coração de Leão”, não conseguiu até hoje munir-se da resplandecência da espada da justiça social e travar a batalha que se impõe: a batalha da fraternidade; da justiça; da equidade.

Optou por se munir de uma outra espada. A “espada convertida” em pena. A pena que escreve o que muito bem lhe aprouver desde que os caracteres pintados na imprensa e em outros panfletos que no seu leito navegam como barquinhas de papel lhe pintem o traçado como sendo de uma beleza rara.

Tão rara que as escarpas do Douro lhe invejam o percurso. O Tejo Boceja. E o Guadiana e o Sado olham de soslaio. O Minho; o Neiva; o Lima; o Cávado; o Ave e outros, encolhem os ombros como que se sobre eles resvalasse pela couraça da sua indiferença tudo aquilo que pelo centro da cidade de Braga passa uma vez que a pequenez do Rio que nela existe é algo que deve ser reconhecido pela evidência e, jamais, pelo eco dos montes que lhe são sobranceiros.

Sobram por isso os açudes onde os consortes desviavam a água para entre si, em dia e hora marcada, desde tempos imemoriais e cujo compromisso passou de geração em geração, procederem à rega das sementeiras e cultivo nos seus campos, um acordo verbal, que ainda hoje faz Lei entre vizinhos atribuindo direito de uso e de passagem. A “Lei” da palavra dada. Por outras palavras; palavra dada é palavra honrada!

Coisa não muito comum nos homens de hoje que prometem muito para além daquilo que podem fazer. Um pouco à semelhança das cheias sazonais que culminam em seca prolongada. Sobram também,alguns acordos firmados por escrito e lavrados em escritura pública. Porque nem todos confiavam na palavra dada.

Simplesmente, o Rio, alheio a todo esse percurso de compromissos firmados com as pessoas que à sua volta gravitam e vivem, atravessa, paulatinamente, com aquele “ar gingão” que se lhe conhece, a cidade. Uma cidade parada no tempo. Pasmada. Sem iniciativa.

A velha Bracara Augusta que idolatra o invasor e nega o seu povo Bracari. Aguardando que as coisas aconteçam só porque uma ou outra ocorrência empurra para debaixo do tapete um rol de promessas por cumprir. A rede viária mantém os estrangulamentos antigos e afunda-se em buracos por todos os lados. A rede de transportes anuncia soluções mas não ata nem desata. A rede de bairros sociais não vislumbra uma estratégia consertada de soluções inclusivas que se desvincule de um emaranhado de intenções de pessoas que não vivem lá e não sentem na pele a exclusão.

A grande “revolução” que ia inovar o centro histórico sumiu. O complexo hidráulico das Sete Fontes levou com uma pintura e se quedou por aí. As zonas verdes, vulgo parques da cidade, já não encontram vontade política em as harmonizar e crescer porque, ao que parece, ou dizem… a cidade já tem parques que cheguem. A preservação do património passou para as calendas. A cultura vergou perante aculturação decorrente a quem presta vassalagem em prejuízo da cultura local e das suas raízes. O desporto amador não sente pulso que lhe dê vida nem vontade política que lhe dê alento. Etc., etc., etc.

Enquanto o Rio, pachorrentamente, se vai passeando pela cidade. Cada vez mais, a céu aberto. Cada vez mais, sem margens de manobra. Cada vez mais, sem o fulgor que teve em tempos não muito longínquos. Cada vez mais, agonizando por entre ruídos e silêncios de batalhas sem a glória de um Ricardo pujante montado num cavalo alado que voa.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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