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João de Sousa

Domingo, Julho 21, 2024

Verdade

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Em plena crise dos ‘papéis do Panamá’, eis que um bravo filme se dirige ao elefante na sala, ao tratar com o devido cuidado os critérios de exigência do jornalismo de investigação, mas com a coragem de os debater diante dos poderes instituídos, seja no mundo político, seja até diante de certos pruridos da cautelosa indústria mediática.

Apesar da temática de Verdade sofrer algum desgaste após a vitoriosa campanha dos Óscares de O Caso Spotlight, que viria a ganhar o Óscar de Melhor Filme, também ele erguendo a bandeira do jornalismo de investigação, a verdade é que esta estreia na realização do argumentista experiente, James Vanderbilt (Zodíaco) acaba por ser um filme bem melhor que O Caso Spotlight, mais empenhado em seguir a estética e a ética de um certo cinema americano dos anos 70, em que Os Homens do Presidente, sobre a investigação do caso Watergate que levaria à demissão de Nixon, surge inevitavelmente como charneira. Urge portanto não passar ao lado.

No cerne na intriga está a evocação da investigação elaborada pela experiente repórter Mary Mapes, em 2004, sobre o alegado tratamento preferencial dado a George W. Bush durante a sua campanha militar, entre o final dos anos 60 e início de 70’s, na Guarda Nacional, que evitou que cumprisse o serviço no Vietname, num rol de pistas que levavam a uma influência tricotada pelo pai Bush.

verdade2Cate Blanchett interpreta Mapes com o vigor que se lhe reconhece, a principal produtora da CBS e autora da reportagem premiada que desvendou os casos de abuso e tortura na prisão Abu Ghraib, aqui a confirmar as devidas fontes e os depoimentos em documentos oficiais que revelavam o favorecimento de W. no ingresso na Guarda, bem como a falta de zelo e ausência ao serviço do agora Presidente.

Já Robert Redford assume o papel de Dan Rather, o eminente anchorman da CBS, com o empenho que se adivinha, sendo que a sua inclusão neste filme terá sempre a conotação e o peso da prestação que teve como jornalista Bob Woodward, no tal filme de 1976.

Cumpre salientar que Cate Blanchett poderia (e deveria) ter sido nomeada para o Óscar por este papel imponente e muito relevante, que encarna com garra – e que supera mesmo o lado mais decorativo salientado em Carol. Ela é mesmo a mola real do filme, apesar de ser mais assente na majestade de Dan Rather.

Após a emissão do bloco noticioso de investigação 60 Minutes, bloggers de direita introduzem no escopo noticioso elementos de dúvida sobre a veracidade dos documentos veiculados nessa emissão, gerando uma barreira mediática envolta de elementos técnicos e formais, relegando para o acessório a veracidade das provas sobre o comportamento do visado. Esta controvérsia que ficaria conhecida por ‘Rathergate’, surgiu em plena campanha de reeleição de Bush filho, e haveria de custar a Maples e a Rather as suas carreiras e mesmo a reputação até ali inabalável.

verdade3Um pouco como sucede agora com os ‘Panama Papers’, em que grande parte do ruído ensurdecedor do mega-escândalo acaba por ser abafado e debatido pelos tais milhares de advogados de causa nobre empenhados em assegurar as arestas da legalidade. O mesmo sucede com este filme oportuno que recorda como o poder instituído dificilmente poderá ser abalado, mesmo quando surgem evidência, depoimentos e provas. No caso do ‘Rathergate’, uma dúvida sobre a veracidade formal do documento – que se veio a revelar infundada – acabou por virar o interesse da opinião pública para esse detalhe. E o resultado foi que as fontes acabaram por dar o dito por não dito e em última análise, forçar Rather a demitir-se da CBS e a Maples a ser despedida.

Numa altura em que certa imprensa prefere desculpar-se com o erro do que em investigar as suas fontes ao limite, percebemos como foi encarada uma investigação semelhante, com as apertadas malhas de procura da verdade, um filme como este pode servir como exemplo a seguir. Mas, para intervir nos territórios mais sombrios, ou perigosos, o tal jornalismo de investigação irá precisar da palavra-chave que Dan Rather se atreveu a usar para terminar as suas emissões: “coragem!”

Nota: A nossa avaliação de * a *****

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