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Sábado, Outubro 16, 2021

Where are you from?

Christiane Brito, em São Paulo
Jornalista, escritora e eterna militante pelos direitos humanos; criou a “Biografia do Idoso” contra o ageísmo.  É adepta do Hip-Hop (Rap) como legítima e uma das mais belas expressões culturais da resistência dos povos.

Ouvi essa pergunta, pela primeira vez, no elevador de um hotel luxuoso em Salvador, na Bahia. O hotel só tinha turistas e lá estava eu, em véspera de Carnaval, a trabalho. Respondi também em inglês, espantada:

“I am from Brasil!”

O homem, um estrangeiro que estava nitidamente flertando comigo, nunca mais me dirigiu a palavra. Seria preconceito?

O episódio não se isolou no tempo, houve outro parecido em Porto Seguro, cidade que se transforma simbolicamente na capital da Bahia a cada 22 de abril, dia em que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil oficialmente.

Eu estava na rua e duas mulheres me abordaram: “La playa, onde fica…”

Tentavam falar espanhol, pensaram que eu era estrangeira. Respondi: “Eu falo português”.  As duas eram brasileiras.

Outro fato interessante com relação ao meu suspeito tipo físico: em consulta com a conhecida dermatologista Shirley Borelli, que avaliou “com lupa” o meu rosto, soube que eu tinha uma pele resistente ao sol. Borelli elogiou e quis saber se havia algum japonês na minha família. Como assim japonês?!, pensei.

E chegamos a agosto de 2017, mês em que ouvi já quase uma dezena de vezes “de onde você é?” O homem que perguntou é alemão, mora há uns 30 anos no Brasil, conserva o sotaque. Estávamos em uma reunião de trabalho.

Fiquei muda. Ele tirou as próprias conclusões, como tantos já concluíram: “Italiana?”

Mudei de assunto, porque não queria ser discriminada de novo por um estrangeiro no meu próprio país.

Sou brasileiríssima talvez de quarta ou quinta geração. Não descendo diretamente nem dos índios nativos, nem dos portugueses colonizadores, nem dos africanos traficados como escravos nem dos imigrantes que vieram substituir os escravos negros como mão de obra barata nas lavouras.

No entanto, tenho um pouco de todos no sangue e nos genes. Poderia me demorar aqui, falando mais da minha ascendência, que por acaso conheço muito, mas quero falar é da miscigenação. Que não tem nada a ver com o conceito de racismo cordial.

A miscigenação é um fato que a genética do brasileiro confirma. Confirma também que a negritude é dominante na composição. Domina, entre outros motivos, porque os portugueses, nossos colonizadores, tampouco são tão brancos, como afirmou Alexandra Lucas Coelho, autora da obra “Deus-dará”, indicada para o Grande Prêmio do Romance de 2016 pela Associação Portuguesa de Escritores.

O livro de Alexandra narra ficcionalmente o primeiro encontro entre os navegadores portugueses e os índios brasileiros. E delata realisticamente – com base em pesquisa de mais de três anos, segundo a romancista – a violência racista dos colonizadores contra os negros e índios. Que persiste, agora pelas mãos dos próprios brasileiros.

Em tempos de paz, a imagem da ardente sexualidade nos trópicos que faz as raças se misturarem tanto é convincente. É conveniente para difundir o conceito de racismo “cordial”.

Mas em tempos de guerra, aqui e no mundo, torna-se irresponsável negar a crueldade do preconceito. Nem é preciso pesquisar em livros, como fez a Alexandra, basta fazer uma visita às periferias das cidades, às penitenciárias, às favelas e contabilizar com uma rápida olhada qual é a cor predominante.

Outra dica: quando estiver andando de carro nos grandes centros, nesses tempos em que a segurança pública redobrou, fique atento e, mais dia menos dia, verá um sujeito prensado num muro, mãos para o alto, pernas bem abertas, sendo revistado por um policial. Qual é a cor do cara?

Não quero falar de política, nem quero me meter em seara que não domino, não sou antropóloga nem historiadora. Aliás, nem quero falar de cor de pele, não só.

Quero falar de todo tipo de discriminação que o gênero humano consegue alimentar (em relação à religião e à velhice, para citar mais duas categorias apenas). Quero falar da arrogância que semeia crescente discórdia até entre íntimos quando o mundo vira uma Babel. Como agora.

Aos apressados e belicosos, aos que ainda não reconheceram a cor ou credo dos próprios preconceitos, quero garantir que estamos do mesmo lado, não importa a minha aparente estrangeirice. E nem que eu fosse mesmo estrangeira. Estamos do mesmo lado porque prezamos a ética da convivência humana e isso basta para que não nos tornemos animais predadores.

A autora escreve em português do Brasil

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