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Domingo, Dezembro 5, 2021

2017: ano da revolução iraniana

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

À medida que a internet vai sendo cortada pelas autoridades, torna-se difícil saber com alguma exactidão o ponto em que nos encontramos na sublevação popular iraniana iniciada no dia 27 de Dezembro em Mashad, a segunda maior cidade iraniana.De seguro sabemos que o movimento começou como protesto contra a carestia de vida, que rapidamente adquiriu um carácter político ao exigir que os fundos gastos pela ditadura iraniana na campanha contra Israel e o povo sírio fossem antes gastos com o povo iraniano e que, dois dias depois, tinha já passado a exigir o fim do regime teocrático com slogans de morte a Khamenei e a Rouhani e de expulsão do clero do poder.

Ao terceiro dia, o regime reagiu com contra manifestações que se saldaram num fracasso, sobretudo se tivermos em conta os milhões de membros de milícias e grupos armados do Estado no país.

Para ontem, dia 31, previa-se que as manifestações que tinham já abrangido as principais setenta cidades do país alastrassem ainda mais, verificando-se mortes resultantes da repressão policial e assaltos a tribunais clericais, esquadras da polícia e outros edifícios públicos.

O regime tinha entretanto bloqueado a rede de caminhos-de-ferro e fechado escolas e repartições a fim de evitar a proliferação da revolta.

‘Acabou o jogo dos reformistas versus linha dura do regime’

Em relação a 2009, data da última tentativa de rebelião no país, as diferenças são grandes. Enquanto em 2009 se tratava de protestar contra a chapelada eleitoral, mantendo-se ilusões quanto à possível reforma do regime, em 2017, como diz agora o slogan dos estudantes de Teerão, ‘acabou o jogo dos reformistas versus linha dura do regime’, sendo que os protestos se dirigem a todos os dirigentes clericais, independentemente da sua facção.

Depois há o carácter nacional do movimento e o seu óbvio alargamento às camadas mais pobres da população, por contraste com a marca classe média restrito a Teerão do movimento anterior. Por outro lado, o regime identifica agora claramente o seu inimigo como sendo Maryam Rajavi, a líder da oposição no exílio, em vez de fazer de rivais internos o alvo das críticas.

Os prognósticos são naturalmente reservados nesta altura. O regime mostrou tanto no passado como no presente – foi o regime iraniano que não permitiu a desistência de Assad – que está pronto a cometer crimes maciços contra a humanidade para se manter. O regime não entrou ainda com as forças militares dos guardas revolucionários em campo.

Por outro lado, o facto de o grosso das tropas de intervenção estrangeira nos conflitos que o Irão protagoniza na região serem constituídas por mercenários de outros países, evidencia a enorme dificuldade do regime em mobilizar iranianos e é um sinal do seu isolamento da população.

Trata-se também de saber se a única organização com potencial de liderança da revolta – a Organização dos Mujahedines do Povo do Irão – terá capacidade para o fazer, ou se teremos também aqui um cenário sírio.

Todos os cenários possíveis

Quer isto dizer que todos os cenários me parecem neste momento possíveis, desde a manutenção do regime com mudanças secundárias à sua queda, passando pela prolongação do conflito de forma mais ou menos aguda e prolongada.

No Ocidente, em contraste com os EUA e o Canadá que manifestaram apoio à revolta democrática, há um ensurdecedor silêncio por parte das instituições europeias.

Os principais meios de comunicação internacionais viram desfeitas as fábulas que nos têm vendido sobre o Irão. Contrariamente ao que nos garantiram, a mudança de posição dos EUA não só não levou os iranianos a unir-se no apoio ao poder como bem pelo contrário, é indissociável da forma como eles afrontam o poder. Depois, o mito de que os iranianos se dividiam entre o apoio a reformistas e o apoio a conservadores foi reduzido literalmente a cinzas. A forma envergonhada como menorizam a importância do que se passa e se escondem atrás da sua incapacidade de corroborar os factos não consegue escamotear a sua total descredibilização. É tempo de esta imprensa fazer luz sobre a sua dependência directa e indirecta do apoio financeiro dos lóbis do regime.

Entre nós, dia 31, nem um único jornal dito de referência trazia o assunto na primeira página.

Mas a verdade é que, independentemente do que se vier a verificar nas próximas horas e nos próximos dias, o ano de 2017 vai ficar marcado pela maior sublevação de quatro décadas contra o Estado Islâmico iraniano.

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