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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

64ª SEMINCI – Também um Festival de Documentários

José M. Bastos
Crítico de cinema

No passado sábado falámos da secção oficial da 64ª Semana Internacional de Cinema que até ao próximo dia 26 decorre na cidade espanhola de Valladolid. Hoje a nossa atenção incide na área de documentários que é tão vasta que, por si só, daria para fazer um festival.

Para além de um ou outro filme com carácter documental integrado noutras áreas da programação os documentários presentes nesta mostra estão agrupados em duas grandes secções: “Tiempo de História” e “Doc España”.

“Tiempo de Historia”

Esta é uma secção com carácter competitivo e na qual têm lugar filmes procedentes de geografias muito variadas. Retratos de sociedades dos nossos dias ou evocações de personalidades ou factos do passado. Tal como na secção oficial também aqui há um foco muito particular na vida e em histórias de mulheres. Mas também são tratados nas obras apresentadas biografias de personalidades da cultura, os efeitos do capitalismo nas classes sociais mais débeis, o afastamento geográfico ou generacional, as consequências da violência ou vivências pessoais e familiares. São 16 os documentários da secção “Tiempo de Historia” provenientes do Irão, Síria, Reino Unido, Brasil, Polónia, Irlanda, França, Suécia, Camboja, Argentina, Roménia e Estados Unidos, para além de filmes espanhóis ou com co-produção espanhola.

 

Alguns destaques

“Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”, filme de Marcelo Gomes (Brasil)

O autor dos premiados “Cinema, Aspirinas e Urubus”, “Joaquim” e “Viajo porque preciso, volto porque te amo” localizou este seu documentário na cidade de Toritama, na região do Agreste, onde toda a gente se dedica à produção de “jeans” trabalhando freneticamente, sem descanso, muitas horas por dia… com excepção do período do Carnaval. Este é um filme sobre as transformações que vão ocorrendo no mundo do trabalho, na economia e na sociedade brasileiras.

 

“The Cave”, de Feras Fayyad (Siria/Dinamarca/Alemania/Estados Unidos/Catar)

Para escaparem aos bombardeamentos e ataques com armas químicas, alguns hospitais da Síria criaram refúgios subterrâneas onde equipas médicas tentam continuar a salvar a vida dos feridos que ali chegam. Filme de um cineasta sírio que já teve um filme nomeado para o Oscar do Melhor Documentário (“O Último Homem em Aleppo”) e que já foi premiado no Festival de Sundance.

 

“Colectiv”, (Roménia) de Alexander Nanau

Em 2015 um incêndio num clube nocturno de Bucareste, que provocou 27 mortos e 180 feridos, evidenciou a corrupção e as fraudes do sistema de saúde da Roménia.

Outros títulos desta secção

  • “Delband” de Yaser Talebi (Irão);
  • “In Touch”, de Pawel Ziemilski (Polónia/Islândia);
  • “Silvia”, de Maria Silvia Esteve (Argentina);
  • “The Changin Times of Ike White”, de Dan Vernon (Reino Unido);
  • “Heimat ist ein Rau maus Zeit”/ (Heimat é um Espaço no Tempo), de Thomas Heise (Alemanha/Áustria);
  • “Kabul, City in the Wind”/ Cabul, Cidade no Vento, de Aboozar Amini (Holanda/Afeganistão/Japão/Alemanha);
  • “Lagun y la resistência frente a ETA”, de Belén Verdugo Orecife (Espanha);
  • “The Magic Life of V”,  de Tonislav Hristov (Finlândia/Dinamarca/Bulgária);
  • “Nhà Cây” (A Árvore da Casa) , de Trương Minh Quý (Singapura/Vietname/Alemanha/França/China);
  • “Shooting the Mafia”, de Kim Longinotto (Irlanda/Estados Unidos);
  • “Samen”, de Carmen Cobos (Espanha);
  • “Talking about tress” , de Suhaib Gasmelbari (França/Sudão/Alemanha/Qatar/Chade)
  • “Transnistra”, de Anna Eborn (Suécia/Dinamarca/Bélgica);
  • “El Viaje de Javier Heraud”, de Javier Corcuera (Perú/Espanha);
  • “Last Night I Saw You Smiling”, de Kavich Neang (Camboja/França).

Extra-concurso serão exibidas duas produções norte-americanas realizadas por cineastas detentores de Oscares:

  • “Pavarotti” de Ron Howard (já exibido em Portugal);  e
  • “Watergate” de Charles Ferguson.

A curta-metragem marca também posição nesta secção “Tiempo de Historia”. Integram o programa nove trabalhos em competição: “Akaboum”  de Manon Vila (França), “All On A Mardi Gras Day” de Michal Pietrzyk (Estados Unidos), “Bab Sebta” /Ceuta’s Gate de Randa Maroufi (França/Marrocos), “Los espacios confinados” de Razzak Ukrainitz (Espanha/França/Israel), “Frisson d’amour”  de Maxence Stamatiadis (França), “El infierno” de Raúl de la Fuente Calle (Espanha), “Love 404” de Agata Baumgart (Polónia), “Misericórdia” de Xavier Marrades (Espanha/Brasil) e “Scenes From a Dry City” de François Verster e Simon Wood (África do Sul/Estados Unidos).

 

O júri de “Tiempo de Historia”

O júri de ‘Tiempo de Historia’ é formado pelos realizadores Everardo González (México) e Carmen Cobos (Espanha) e pela produtora espanhola Sara Santaella.

 

Doc. España”

Dedicada exclusivamente aos documentários de produção espanhola a secção “Doc. España” oferece nesta edição 18 títulos – 14 longas e 4 curtas-metragens.

Assuntos tão variados como o quadro “As Meninas” de Velásquez, a reinserção de um antigo preso de Guantánamo, o drama dos bebés roubados após o nascimento, os negócios menos claros que estão por detrás da indústria alimentar ou o retrato de alguns dos mais importantes artistas cubanos são tema de alguns dos filmes presentes nesta competição.

Lugar também para a evocação de figuras como Antonio Torres Jurado, o inventor da guitarra, o artista gráfico José María Cruz Novillo, ou o grupo de cientistas espanhóis que ajudaram a decifrar os códigos nazis.

 

“El Cuadro” de Andrés Sanz  (Espanha)

Documentário que tem como principal protagonista a célebre pintura “As Meninas” de Velázquez, provavelmente a obra de arte com mais interpretações da História. Andrés Sanz convida o espectador a participar numa trama quase policial guiando-o pelo emaranhado de hipóteses de decifração dos ‘mistérios’ do célebre quadro.

 

“El Escritor de un País sin Librerías” de Marc Serena (Espanha/Guiné Equatorial)

A Guiné Equatorial que se tornou independente de Espanha há 50 anos é agora um dos países mais isolados de África. Marc Serena dá a conhecer o escritor mais traduzido do país, Juan Tomás Ávila Laurel, que em 2011 se refugiou em Espanha por denunciar a mais longa ditadura do mundo, a de Teodoro Obiang.

 

La Defensa, por la Libertad” de Pilar Pérez Solano (Espanha)

Esta é a evocação dos advogados e advogadas que, desde meados dos anos 60 até 1978, defenderam intransigentemente o direito, a justiça e a democracia. Ultrapassando as suas divergências ideológicas deram um grande contributo para acabar com a ditadura e pela instauração de um regime democrático em Espanha.

Outros títulos de ‘Doc. España’

  • “Cuba crea”, de Eduardo Margareto;
  • “Equipo D, los códigos olvidados”, de Jorge Laplace;
  • “La española, la de Torres”, de Fran López Montoro e Raúl Enrique Navarro;
  • “El hombre que diseño España”, Andrea Gutiérrez Bermejo e Miguel Larraya;
  • “La libertad es una palabra grande”, de Guillermo Rocamora;
  • “La loba parda”, de Cristina Ortega Blanco;
  • “Made in China”, de Marc Chica i José;
  • “Los que buscamos”, de Oscar Bernàcer
  • “The Price of Progress”, de Víctor Luengo.

Fora de concurso, integram esta secção:

  • “Endless Cinema”, de Lucía Tello Díaz; e
  • “Olea… ¡Más alto!”, de Pablo Malo.

As curtas-metragens de ‘Doc. España’ são: “Apache”, de Octavio Guerra, “Beyond The Glacier”, de David Rodríguez Muñiz, “Litoral”, de Juanjo Rueda e “Dar Dar ELAntartida”, de Raúl San Román Otegi (este extra-concurso).

 

“Spanish Cinema”

“La Hija de un Ladrón” de Belén Funes

“O que arde” de Oliver Laxe

Aproveitando a presença em Valladolid de muitos estrangeiros, profissionais do cinema e da imprensa cinematográfica, a SEMINCI organiza todos os anos um ciclo com alguns dos filmes produzidos no último ano no país vizinho procurando dessa forma divulgar o cinema espanhol. Nesta edição, entre cerca de duas dezenas de títulos encontram-se algumas primeiras ou segundas  obras como “La hija del ladrón” de Belén Funes (prémio da melhor actriz – Greta Fernández – em San Sebastián), “La Inocencia” de Lucía Alemany, “Ojos Negros” de Marta Lallana e Ivet Castelo, “Buñuel en el laberinto de las tortugas”  de Salvador Simó ,  “Letters to Paul Morrisey”  de Armand Rovira,  “7 Razones para huir” de Esteve Soler, Gerard Quinto e David Torras,  “El viaje de Marta” de Neus Ballús e “Love Me Not” de Luis Miñarro.

Também têm lugar alguns autores já consagrados. Por exemplo, Jonás Trueba com “La Virgen de Agosto”, Oliver Laxe com “O que arde” (filme galego vencedor da secção ‘Un Certain Regard’ do Festival de Cannes’) , Juan José Campanella com “El cuento de las comadrejas”, Mikel Rueda com “El doble más quince”, Tudor Giurgiu com “Parking” e o documentário “La ciudad de los muertos” de Miguel Eek.

Também curtas-metragens como “Suc de sindria”, de Irene Moray, “16 de Decembro”, de Álvaro Gago; “Después también”, de Carla Simón e “Leyenda dorada” de Chema G. Ibarra e Ion de Sosa.

 



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