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Quarta-feira, Julho 6, 2022

A austeridade prolonga a pandemia

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

A cumprirem-se quase dois anos sobre uma situação que antes pareceria impossível ou do mero domínio da ficção e com a Europa a atravessar mais uma vaga da Covid-19, onde França, Espanha, Itália e a própria Alemanha se contabilizam entre os países com maior número de casos activos, começa a ser o momento de questionarmos assertivamente as opções com que ela tem sido enfrentada.

Este período de tempo deveria ter servido para acumular conhecimentos sobre como gerir a reabertura das actividades a partir de dados e experiências noutros países e executá-la com muito menos danos para as populações. Além disso os governos tiveram dois anos para construir hospitais, formar e recrutar profissionais de saúde, fortalecer os serviços sociais e produzir ou adquirir os meios farmacológicos necessários (nomeadamente através da libertação de patentes dos medicamentos e vacinas cuja investigação financiam), mas parece que escolheram não o fazer porque isso teria ido contra o prevalecente consenso neoliberal.

No início da pandemia, os governos reforçaram os contratos com hospitais privados, para poderem usar as suas capacidades de internamento em momentos críticos em vez de recorrerem à requisição civil e os integrarem num plano público abrangente, processo que teria reduzido os custos e permitido a continuação de cirurgias não urgentes. Além disso, em dois anos, poder-se-ia ter recorrido aos finalistas dos cursos de saúde para coordenar uma expansão massiva de testes de PCR e reforçar o atendimento ao domicílio ou, no mínimo, para aconselhar as populações e facilitar o acesso aos recursos de que precisassem.

Nas últimas semanas, viveram-se novamente as limitações resultantes da falta de meios e de estruturas, agravado agora com a necessidade ou a imposição da realização de testes que levaram milhões de pessoas a confrontarem-se com todo o tipo de disfuncionalidades nas infra-estruturas e nas cadeias de fornecimento e abastecimento, enquanto o constante e regular aumento do número de novas infecções continua a sobrecarregar os sistemas de saúde pública, mas as redes privadas permanecem protegidas e quase completamente à margem de todo o esforço.

Não menos relevante em todo este processo tem sido a forma como governos e autoridades de saúde têm difundido a informação; primeiro de forma avulsa, pouco esclarecedora e não raramente contraditória (como é o caso do encerramento de alguns sectores de actividade quando outros de risco semelhante se mantém em funcionamento quase normal ou a realização de alguns grandes eventos quando outros, de risco igual ou menor, são suspensos) ou como a informação foi sendo difundida, depois o erro que foi o anúncio das vacinas como “solução final”, tudo factores geradores de ansiedade e que contribuem para reduzir a confiança remanescente nos governos e nos especialistas.

Outros problemas de acrescida acuidade nestes dois últimos anos, como o da excessiva dependência de bens e equipamentos de fabrico asiático e o da ruptura das cadeias de distribuição, também deveriam ter merecido especial atenção dos governos que poderiam ter expandido e assumido o controle da produção local dos bens de maior necessidade (máscaras, equipamentos de protecção individual, testes, ventiladores, vacinas, medicamentos, etc.) o que teria facilitado o seu uso e combatido a especulação.

Por último, em dois anos, poderíamos ter reformulado todo o sistema de apoio social, fosse melhorando e facilitando o acesso à remuneração das baixas e dos períodos impostos de quarentena e de confinamento, fosse alargando as intervenções com vista a melhorar todo processo de bem-estar social e de apoio à saúde, o que teria facilitado o auto-isolamento sem grande perda de rendimento.

Mas, em nome de um liberalismo egoísta e da contenção dos défices, pouco ou nada disso foi feito e nem sequer se terá dado a mínima repercussão a quem foi sugerindo novas formas de pensar, como o epidemiologista Henrique Barros, para quem “o confinamento resolve o problema” mas “cria toda uma série de outros problemas”, ou a infecciologista Margarida Tavares, que assegura que “estamos a combater a pandemia com isolamentos e quarentenas, que são respostas de outros séculos, devíamos procurar soluções do nosso tempo”, que em Janeiro do ano passado citei num artigo, aqui no TORNADO, e que talvez mereça releitura pela sua continuada actualidade.

 

A austeridade prolonga a pandemia – Parte II

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