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Sábado, Julho 20, 2024

A legislação francesa desceu um véu sobre a liberdade

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Às vezes, bastava que se escrevesse um único texto sobre um tema universal e que depois se fizesse dele alguma coisa útil: contraditório, lição de vida, crítica (e não mero juízo de valor), utopia ou concretização. Um só. E depois o resto.

Hesitei portanto em escrever sobre o tema em epígrafe. Já todos o fizeram.

No meu bolso de ideias repetidas, noto que falo sempre do mesmo: direitos humanos, liberdades, defesa das minorias com a sua autoafirmação, multidiversidade, interculturalidade, humanismo.

Talvez porque no passado tenha andado, como toda a gente, à procura das minhas certezas, que sei em alguns casos serem manias com o aspeto de bandeiras, sei que o presente me trouxe aqui com estas convicções. Entre elas, a urgência de defender as liberdades de espírito, que são as que nos permitem, em liberdade, crer, querer, sentir, pensar, agir, falar, escrever, discordar, frequentar sítios como templos, sinagogas, mesquitas, igrejas, associações, partidos, grupos de pressão, redes sociais sem que a metralha e a morte nos escolha como alvo.

Torna-se evidente que vivemos uma época de medo e de muita ignorância (andam sempre a par) e que as religiões tradicionais estão em campo, mostrando alguns dos seus crentes extremíssimas atitudes.

Todos os dias uma nova notícia esmaga a anterior – já arquivámos as polémicas italianas em torno da presença dos crucifixos em sala de aula, ou da construção de mesquitas com minaretes na Suíça, a proibição da liberdade do culto católico em Bagdad e em Alexandria – e tantas outras que encheram jornais aqui há tempos.

Volta-se hoje o olhar, de soslaio, para a legislação francesa que persegue o véu islâmico, coisa tão repugnante e inútil como converter judeus à força no século XV ou pôr-lhes uma estrela amarela ao peito, no século XX.

A dimensão tríplice do homem, apresenta-o como Físico, Intelectual e Espiritual.

Teóricos como Descartes ofereceram-nos a possibilidade de apreciar a diferença entre o sujeito (a consciência) e a coisa (o não consciente). E hoje aceitamos que a realidade física e a psíquica se retroalimentam.

Um corpo espancado, torturado, feito prisioneiro no buraco mais imundo poderá fisicamente tombar num estado de inconsciência, mas dificilmente deixará de acreditar naquilo que, de mais profundo, moldou a sua consciência. Não conheço presos políticos que, saindo da tortura, tenham ido louvar os seus carrascos ou dar vivas aos ditadores que os manietaram.

O filósofo René Descartes, no século XVII, separou pensamento e extensão do mesmo, não entendendo que a mente é afetada pelo corpo extenso: aquele que intelectualmente nos estrutura. É esta duplicidade que um filósofo menos famoso, Husserl, no princípio do século XX, irá distinguir ao falar de corpo psíquico /Körper e corpo próprio/Leib.

É a conclusão a que tinha chegado Teresa de Ávila, religiosa do século XVI, ao falar-nos de castelo interior e de moradas…

Porque, enfim, o corpo, tal como é vivido, e sobretudo como é experimentado/experienciado no imediato, não é tema de conhecimento mas uma morada, através do qual estamos no mundo e nos relacionamos com as coisas que o compõem. Para lá desta dimensão física-intelectual, há a dimensão para além de nós, a propensão humana para procurar o significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível. Isso é pertença de cada um e condição do individual. É a espiritualidade. A capacidade que temos de ser e transcender. De passar para um plano abstrato algumas das nossas formas mais estruturantes e definidoras. De acreditar acima de qualquer contraditório.

Não se pode exigir a um crente que o deixe de ser, como não se consegue que a um descrente se inculque a crença através de argumentação.

Não falo de religião – mas de espiritualidade.

A legislação francesa ao proibir o véu islâmico, falhou. Os sistemas culturais e as crenças não desaparecem por decreto. O lado espiritual permanece. O lado cultural é desvirtuado. O lado de crença é ofendido. A fé, a devoção do sagrado, sempre teve manifestações simbólicas evidentes. Até as religiões menos iconoclastas transpõem para símbolos a sua natureza. A lei francesa fez descer um véu sobre a sua sanidade. Provocou. Amanhã proibirá minaretes, crucifixos e liberdade de culto, as vestes talares (as que são usadas pelos clérigos), os quipás judaicos (chapéus usados simbolicamente pelos judeus), a mitra dos cardiais (chapéu episcopal, herdeiro do camelauco, barrete usado pelos papas que passou do uso profano às vestes papais, no século VIII) ou o solidéu (capa cerimonial) e outros paramentos litúrgicos do Papa – e por aí fora. E sobretudo, la législation française afetará a sua liberdade, impedirá a fraternidade dos seus povos, e destruirá a igualdade que pode haver intensa nas diferenças.

 

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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