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Sábado, Novembro 27, 2021

A lenda do caixão vazio

Onélio Santiago, em Luanda
Bacharel em Ensino da Língua Portuguesa pelo Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda, é jornalista do semanário angolano Nova Gazeta.

Angola | Lenda do caixão vazio

Ok, admito: nestes tempos da ditadura do politicamente correcto, talvez devesse escrever prostitutas, embora não seja a mesma coisa, de acordo com um amigo altamente sabedor destas matérias.

Pois, como ia dizendo, a estória do caixão vazio atormentou a infância de muitos gajos que hoje andam armados em Rambo. Eu, por exemplo, nos meus tempos da ‘pré-cabunga’, fugava na escola às sextas-feiras para escapar ao caixão vazio. Saia mesmo de casa com a bata e a mochila, mas encontrava sempre um atalho que dava para todos os caminhos: menos para o caminho das aulas. E os meus pais nunca me apanhavam.

Era fácil. Bastava-me controlar os movimentos do sol. Quando o astro estivesse no centro do céu, então eu interrompia os transeuntes. “Tio, me diz só horas!”. Quando me dissessem “São 12 horas, cassule!”, então só me faltava babular de volta para a casa.

Dirão que um gajo não passava de um buluzento medroso. Está bom. Admito. Mas vocês no meu lugar teriam feito a mesma coisa.

Aquilo era terrível. A lenda do caixão vazio fazia muita gente se mijar. Dizia-se que indivíduos matulões, altamente canibais, percorriam as escolas com caixões. Quando encontrassem um professor, cortavam-lhe aos pedaços e colavam-lhe os genitais no quadro, enquanto o resto do corpo era mandado para dentro do caixão. E tudo era feito na sala de aulas, sob o olhar dos alunos. Nalguns casos, os delegados também entravam na lista. Por isso, na 4.ª classe, quando um professor me nomeou delegado da limpeza, chorei tanto que os meus pais tiveram de fazer um ultimato ao director da escola: “Ou nomeiam outro delegado da limpeza, ou arranjamos outra escola para o nosso filho”.

Hoje, muitos anos depois, quando vejo os meus irmãos mais novos bazarem para a escola avontademente, recordo com alguma vergonha o aluno cobarde que um dia fui. Ainda assim, não me atrevo a escrever no jornal que as makas do caixão vazio não passavam de boatos. Até porque, ainda ontem, no táxi que me tirou dos Congolenses para o Alvalade, ouvi uma música cujo coro me pareceu enigmático de mais para ser ignorado: “A lenda nunca morre!”

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