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Sábado, Dezembro 4, 2021

A “Ressureição” de Afonso Dhlakama

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

Pode a culatra sair pelo tiro ou será que como sempre é dito “o tiro saiu pela culatra?”

O polémico ataque e posterior ocupação pelas FADM do chamado covil do “lobo” em Satunjira, teve o condão de ressuscitar o líder da Renamo Afonso Marceta Dhlakama e da própria Renamo, que politicamente estava moribunda(?) e nem a ala militarista desta força político-militar nem a formação política não conseguiam marcar a agenda política moçambicana e esse espaço, estava claramente ocupado e de forma inteligente pelo construtivo MDM (Movimento Democrático de Moçambique).

Embora com as devidas diferenças, não posso deixar de comparar esta situação do líder da Renamo desaparecido e que está em parte incerta, com o processo que levou a captura pelos Indonésios do então mítico líder Timorense, o revolucionário e incontestado Comandante Xanana Gusmão, que o povo “maubere” abrigava nas barbas dos seus inimigos e que estes julgavam hóspede das inóspitas montanhas de Timor-Leste.

Se somarmos a opção bélica do Partido no poder, o factor MDM (Movimento Democrático de Moçambique), de dirigentes jovens, competentes, ambiciosos, trabalhadores e empenhados e, mais ainda, com a ficha limpa; a proximidade das eleições autárquicas e das eleições legislativas e presidenciais, estamos perante a perspectiva de perdas irreparáveis por parte do partido do governo central. Isto por culpa própria e erros de estratégia graves ou por manifesta ausência dela  ou falta de visão.

Seja como for, a sua eliminação física torná-lo-ia um mártir e a sua simples captura e prisão (com o seu habitual rol de atropelos aos direitos mais básicos), aumentariam a sua popularidade para níveis nunca antes vistos. Viraria mito ou lenda e cavaria mais fundo o já largo poço étnico que foi sendo alimentado por acção ou omissão.

E quem nos garante que não surgiriam líderes da Renamo, muito piores ou que a Renamo não se tornaria uma força caótica e incontrolável nas acções e por isso poderosa  em todo o território e até quando duraria? Até quando poderia o povo Moçambicano suportar mais sacrifícios humanos entre outros e ainda mais anos de guerra e sangue?

E conseguiriam eliminar a existência ainda que residual de homens  descontentes armados isolados mas com sede de vingança, sem uma estrutura de liderança unida e centralizada que andariam e actuariam sem eira nem beira por todo o território nacional? Duvido.

Alguém conseguiu travar mesmo na Europa as guerrilhas do IRA ou da ETA sem conversar e escutar as suas reivindicações políticas? E na Colômbia, alguém conseguiu travar as acções das FARC sem diálogo? E se durante muito tempo não o fizeram, foi correcto este procedimento? Não creio.

Ainda espero bom senso dos dirigentes do Partido no poder central em relação ao sério compromisso que assinaram em Roma, a cidade eterna  e que prometeram publicamente assumir,  aplicar  , respeitar, cumprir e fazer cumprir, mas sem nunca esquecerem que existiu e existe o outro signatário que também conta na equação do poder e do exercício do poder, quer gostemos quer não, além é claro da grande vontade popular de ver um país próspero e pacífico.

Texto escrito pouco depois do primeiro ataque a Satunjira e antes da morte natural do líder da Renamo

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