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Sábado, Novembro 27, 2021

As Vistas Curtas de Merkel

José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

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A chanceler Merkel é uma senhora muito pândega. Imagine-se que, depois de ter reduzido a Grécia à miséria, a ter humilhado e ali ter espalhado o caos, a senhora vem agora proclamar que “a União Europeia não pode deixar a Grécia mergulhar no caos”.

José MateusNão pode mergulhar, mas poderá nadar? Ou, na celebérrima e muito totalitária lógica dialéctica alemã, o caos só pode chegar à cintura da Grécia? Ou será mesmo até ao pescoço? Em todo o caso, a senhora proíbe agora os gregos de mergulharem no caos que ela lhes criou… Uma pândega, portanto.

Mas de que falava exactamente Merkel? Que “caos” tanto preocupa a pândega senhora? Pouco misericordiosa no seu protestantismo de cariz leninista, a chanceler do Reich está preocupada com o “caos” do “afluxo dos migrantes” que começam a amontoar-se em território grego, depois do fecho das fronteiras, nas Balcãs, pelos Estados vizinhos. E, claro, o “caos dos migrantes” pode contaminar a Alemanha. Portanto, é melhor fazer o seu “containment“, em território grego.

Para isso, a Grécia tem de poder cumprir os “mínimos olímpicos” em matéria de segurança e controlo do território. Não pode, por isso, “mergulhar no caos”, pois é ali que se joga hoje a segurança alemã de amanhã. E também a (já mais que ameaçada) reeleição de Merkel em 2017…

Depois do que já fez aos gregos e da forma imperial como os trata, Merkel quer agora utilizá-los como passadeira para a sua reeleição. Para isso apela a que a União Europeia não permita à Grécia mergulhar no caos (confessando assim a sua impotência para resolver os problemas que cria).

De um ponto de vista meramente moralista, poder-se-ia dizer que o cinismo imperial de Berlim não tem limites no dispor, usar e abusar dos povos a seu bel-prazer. Mas isso é curto. O moralismo, nestes casos políticos, não aquenta nem arrefenta.

Deste comportamento alemão, o que importa dizer é que Berlim mostrou não saber pensar para além do imediato, não ser capaz de antecipar as consequências geopolíticas das suas drásticas e de vistas curtas medidas de política económica.

Berlim pretende (mais uma vez…) ser a capital imperial da península euro-asiática mas (mais uma vez…) mostra que tem vistas curtas. De que (sempre…) acaba vítima. Mas só depois de ter arrasado tudo à sua volta…

O Marx, que recitava aquele célebre mantra de “a história não se repete”, teve a sorte de morrer antes de ver a sua Alemanha desmenti-lo e, ad nauseam, repetir a história.

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