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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Até prova em contrário, todo negro é ladrão

Urariano Mota, no Recife
Escritor e colunista da Boitempo e do Direto da Redação. Colabora também com Vermelho, Carta Capital e Fórum.

A gerente de uma loja da Casa chamou a polícia para prender o motorista, porque ele estaria fingindo comprar bolos antes do assalto. A Casa dos Frios alega que apenas seguiu um procedimento padrão, porque suspeitou que o homem estava armado.

Esse caso me leva a uma vítima de racismo no Restaurante Leite, no Recife. Está em meu romance “O filho renegado de Deus”. É ficção, mas como tudo que publico vem do que sei e vivi. O Leite, hoje, continua a ser o melhor restaurante da cidade. O problema é que, como toda excelência de Pernambuco, dos doces ao frevo, o Leite possui também uma história de exclusão e violência. No Leite, negros não entravam a não ser de farda como empregados. Isso pelo menos até os anos 50.

Ao trecho do relato que bem conheço.

“Antes daquela manhã de 1958, na altura do fim da segunda guerra, Filadelfo se tornara querido entre os marinheiros norte-americanos que desciam ao Ship Chandler Bar, no Porto do Recife. E na condição de amigo, ou de conhecido, ou de apenas um guia útil, conduziu certa vez um oficial da Marinha made in USA ao que de melhor havia no Recife.

Filadelfo então não sabia, e até a sua última hora jamais soube, que a cidade era dividida em classes, que as pessoas de cor escura traziam na pele a marca de escravos, nem muito menos podia adivinhar que as belezas da cidade não eram belezas universais, desfrutáveis por todo e qualquer habitante.

‘O sol brilha para todos’, ele dizia em inglês. E por nada saber, e por ver o mundo como imaginava que o mundo o via, aquela relação entre o homem universal e os objetos universais, Filadelfo levou o seu igual para o melhor restaurante da cidade, o mais famoso naqueles anos, o Restaurante Leite. Se houvesse sobrevivido àquele século, e por alguma estranha química do tempo ganhasse outra consciência, teria dito em 2013: ‘Ah, o Leite era branco até no nome’.

Mas ele era o guia, não? Vale dizer, ele, em vez de escudo, estava escudado pelo mariner, ‘um sujeito muito decente, fino, me deu vários presentes’. No entanto, para quê Filadelfo ousou? Sentado à mesa muito à vontade, estava na sua cidade, não?, muito rico, pagaria em dólar, ok?, em vez de pedir o menu, perguntou ao garçom:

– O que vocês têm aqui pra comer?

Ao que lhe respondeu, empertigado, limpo e branco o superior vestido de criado de mesa:

– O cavalheiro aqui – disse, apontando para o gringo – eu atendo. Mas você, não.
– Por quê? É preciso estar de paletó? Eu estou igual a meu amigo aqui.
– De ordem da gerência, o restaurante só serve a pessoas educadas.
– Como assim? Como é que o senhor sabe que eu não sou educado? Eu falo inglês e francês muito bem.
– Você entenda… não é por mim. Nada contra a sua pessoa. Mas atender você, não.

Então Filadelfo começou a se exaltar, e a explicar ao oficial o que estava ocorrendo. E o garçom firme, alto e inamovível:

– Você, não.
– Que absurdo!

Então o criado, aquele que absorve o espírito da casa, foi ao ponto:

– Saia, por favor. O gerente diz que negro é fora no Leite.
– O quê?! Como é?
– Eu até deixei você entrar… saia. O seu amigo nós atendemos.
– Eu sou escuro, mas sou direito. Não sou qualquer um!
– Não vou perder o emprego por sua causa. Saia.

Ao que, no tumulto formado, vem o dono do Leite.

– O que há por aqui?
– Senhor, eu estou explicando a esse… – e apontava para Filadelfo – a ele que não posso atendê-lo. Mas ele não quer entender.
– Não tem mais o que explicar, respondeu o calvo, grosso e rico dono. E pegou no braço de Filadelfo: – Você retire-se. A minha casa tem um nome. Saia! Fora, ou eu chamo a polícia.”

O autor escreve em português do Brasil

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