Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quinta-feira, Julho 7, 2022

Bertolt Brecht x Walter Benjamin: uma partida de xadrez na Dinamarca

Segundo os biógrafos, Benjamin, introspectivo e melancólico, jogava xadrez com cautela defensiva. Brecht gostava de lances ousados, mais de acordo com sua índole combativa e sedutora.

Em conhecida série de fotografias, de 1934, Bertolt Brecht e Walter Benjamin jogam xadrez num jardim ensolarado. Brecht joga com as peças brancas; Benjamin, com as pretas.

O contraste físico entre os dois dá pistas sobre suas diferenças. Brecht, de cabeça quase raspada e vestindo um suéter peludo, mantém a postura alerta porém relaxada. Fuma um charuto enquanto joga. Mesmo nos momentos em que se concentra na jogada, seu corpo não aparenta tensão.

Benjamin, ao contrário, tem o ar abatido. Metido num colete de lã, por cima da camisa clara, já ostenta a cabeça grisalha, óculos e bigodinho que marcam a figura conhecida da posteridade. Curva-se levemente sobre o tabuleiro, cheio de corpo e de preocupações. Parece bem mais velho do que Brecht, embora a diferença de idade entre eles fosse menos de seis anos.

O rosto de Brecht está plenamente iluminado pelo sol; o de Benjamin, na meia sombra. A cabeça do crítico e filósofo, à direita, posiciona-se um pouco mais baixo na composição do que a do dramaturgo e poeta, à esquerda. Obra do enquadramento, e provavelmente de um ligeiro declive do terreno que fez com que a mesa pendesse para o lado de Benjamin.

É difícil resistir à tentação de atribuir significados fatídicos a essa imagem. Quem conhece o destino trágico de Benjamin (alguém não conhece?) poderá enxergar nela o augúrio do suicídio, em setembro de 1940, fruto do cansaço e desespero de quem não aguenta mais o jogo interminável da fuga. Pela mesma medida, seria mais do que perdoável ler no sorriso matreiro de Brecht o prenúncio do sobrevivente que soube vencer um inimigo infinitamente mais poderoso, por meio da viveza, sagacidade e destemor.

A vontade historicista é grande, mas seria equivocado extrair das fotos de 1934 lições que só se evidenciariam muitos anos depois. Naquele jardim ensolarado, deviam ser outros, mais prosaicos, os motivos do ânimo ou desânimo de cada um. Uma noite bem ou mal dormida. Uma indisposição passageira. O prazer ou a frustração por estar ganhando ou perdendo a partida.

A cena transcorreu na pequena cidade de Svendborg, no sul da Dinamarca, a apenas 80 quilômetros de distância do território alemão, do qual ambos se encontravam exilados. Brecht morou ali com sua família por seis anos, entre 1933 e 1939, e Benjamin foi visitá-los repetidas vezes. Nessa ocasião, permaneceu cinco meses, de junho a outubro.

Benjamin e Brecht concordavam em muito e discordavam em muito mais. Talvez não tivessem ficado tão próximos em espírito se os tempos fossem outros, de conversas fiadas e ambições banais. Suas personalidades eram muito divergentes, e isso se evidenciava até nas táticas de tabuleiro.

Segundo os biógrafos, Benjamin, introspectivo e melancólico, jogava xadrez com cautela defensiva. Brecht gostava de lances ousados, mais de acordo com sua índole combativa e sedutora. Impossível calcular se essas diferenças influíram no destino de cada um, até porque não dá para generalizar do xadrez para a vida.

Já do xadrez para a literatura, há pontos de tangência. Nos anos mais sombrios da descida para o abismo nazista, ambos Brecht e Benjamin empregaram o jogo como motivo literário.

Na peça Vida de Galileu – escrita em 1939, mas só estreada em 1943 –, a cena do baile no palácio do Cardeal Bellarmino gira em torno de dois secretários que jogam xadrez e falam mal dos convidados. Para construir essa situação, Brecht deve ter recorrido às muitas horas gastas ao tabuleiro com o amigo, que passou nova temporada em sua casa em Svendborg de junho a outubro de 1938. Benjamin esteve entre os escolhidos para ler uma prova adiantada da peça.

Ainda mais conhecido é o exemplo do ensaio Sobre o Conceito da História, escrito em 1940, mas publicado somente após a morte de Benjamin. O trecho inicial apresenta a relação entre materialismo histórico e teologia por meio da metáfora de um autômato que joga xadrez, vencendo sempre, mas dentro do qual se esconde um anão corcunda que é mestre enxadrista. Vivendo na Califórnia quando soube do suicídio do amigo, Brecht teve ocasião de ler e comentar esse texto antes mesmo de sua publicação no volume editado, in memoriam, pelo Institut für Sozialforschung (então exilado em Los Angeles), em 1942.

Em ambos os casos citados, o xadrez é evocado para criticar a manipulação que se faz dos fatos a partir das aparências. Curioso constatar que os dois autores tenham recorrido à mesma analogia para tal propósito e que ambos tenham situado o leitor/espectador fora do jogo, como quem observa impotente enquanto outros disputam o destino que é comum a todos. É o dilema universal dos exilados e refugiados, obrigados a assistir de longe, e em posição de desvantagem, aos lances decisivos da era em que vivem.

Talvez o interesse renovado em Benjamin e Brecht advenha das semelhanças entre o mundo de hoje e a Europa da década de 1930. Polarização ideológica. Crise de refugiados. Recrudescência do nacionalismo e do discurso de ódio com base em religião e etnia. Populismo político. Chefes de quadrilha posando de estadistas, seguindo a formulação do poema de Brecht, citado em epígrafe, um de vários que dedicou ao amigo desaparecido.

Vivemos o mesmo compasso de espera pelo desastre que cercava aqueles jogos de xadrez na Dinamarca. De que modo devemos pensar e agir, nessa nova era dos extremos? Como argumentar quando os diálogos se despedaçam e a menor discussão se polariza além de qualquer possibilidade de conciliação?

As trajetórias respectivas de Benjamin, vítima do terror e herói póstumo da resistência intelectual, e de Brecht, guerreiro implacável em prol dos princípios, vencido apenas pelas contradições que não poupam a nenhuma verdade, encerram preciosas lições para o presente. Há pressa em aprendê-las.

Caso contrário, nos veremos na posição de outro personagem que completa essa trilogia de exilados enxadristas: o misterioso Dr. B, protagonista da novela Xadrez (Schachnovelle), de Stefan Zweig, escrita no Brasil e aparecida em 1942. Essa última obra de Zweig, acabada logo antes do suicídio, oferece um diagnóstico dos motivos da derrota por quem a viveu de perto.

Vale recapitular um pouco, para quem não a leu. A bordo de um navio de Nova York para Buenos Aires, Dr. B enfrenta o campeão mundial de xadrez Czentovic e, para surpresa geral, o vence numa primeira partida. Zweig caracteriza o campeão como um prodígio que, surgido do nada, derrotou todos os grão-mestres de sua época. Isso, apesar de sua boçalidade reconhecida, que faz com que seja incapaz de escrever uma frase sem erros de ortografia ou fazer somas sem contar nos dedos.

Na partida final, em que precisa reunir suas forças para superar o campeão pela segunda vez, Dr. B acaba sucumbindo ao jogo lento e sistemático do outro. A agitação nervosa o induz a enxergar equivocadamente o rei do adversário em xeque, e ele abandona a partida. Sua superioridade intelectual não o livra, afinal, da estratégia de atrito psicológico empregada pelo astuto vencedor. A lição tática é conhecida: nunca subestime seu adversário, por mais desprezível que pareça.

Os Czentovic do mundo não chegaram à toa aos espaços que ocupam. Souberam jogar com disciplina e método. Desestabilizar o equilíbrio do jogo. Despistar a atenção da jogada. Esperar o momento certo. Atacar e recuar. Dividir para conquistar. Muitas vezes, estudar o adversário supera qualquer vantagem natural. Quem pensa em desbancar um campeão não pode imaginar que a partida esteja ganha de antemão.

Nada mais inepto do que sair por aí detalhando a superioridade do próprio esquema tático. Na época atual de bate-bocas nas redes sociais e ações políticas encenadas para as câmeras, dá saudade do tempo em que intelectuais engajados jogavam xadrez. Fazem falta tanto a ponderação de Benjamin quanto a audácia de Brecht.

Faríamos bem em ler atentamente os avisos que eles deixaram para nós. Como um dos poemas mais famosos de Brecht, An die Nachgeborenen (Aos que Vão Nascer), escrito no exílio de Svendborg, em que ele descreve com atualidade assustadora a sensação de impotência que aflige a muitos de nós, nesses tempos sombrios (em tradução de Paulo César de Souza):

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

Brecht viveu para ver seus inimigos serem derrotados. Ao contrário do Dr. B, que imaginou o xeque onde não havia, ele ainda pôde dar o xeque-mate.


Texto adaptado de um artigo do autor, publicado em dezembro de 2017 no Blog do IMS


por Rafael Cardoso, Escritor e historiador da arte, é PhD pelo Courtauld Institute of Art e colaborador do Instituto de Artes da Uerj  |   Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

VER…

Boa pergunta

Além Tejo (1)

- Publicidade -