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Sexta-feira, Junho 14, 2024

A Biblioteca da Alma

José Carlos S. de Almeida
José Carlos S. de Almeida
Professor de Filosofia do ensino secundário. Licenciado em Filosofia e em Direito.

 

A sua relação com a Biblioteca estava para além dos livros. E para além da leitura desses livros.

Bem, os livros também estavam para além da leitura. Quer dizer, os livros estavam para lá de si mesmos. Eram objectos físicos e ele achava que, na sua materialidade própria, desenhavam um mundo. Um mundo mais consistente do que aquele que as leituras proporcionavam. A sua Biblioteca, no último andar da casa, era o seu mundo, o átrio do seu mundo. Fisicamente falando, também. Nem era um pequeno mundo, como metaforicamente se poderia dizer, ou um mundo conceptualmente falando.

À medida que foi adquirindo cada vez mais livros, elevou novas estantes que isolavam aquela ampla sala do resto da casa. Da casa e dos que nela habitavam. Aos poucos e poucos, por entre inesperadas estantes e periclitantes pilhas de livros de equilíbrio duvidoso, tornava-se o acesso cada vez mais labiríntico e mais inacessível aos outros, aos não-iniciados.

Novas zonas de interesse faziam nascer novas paredes artificias e irradiar novos atalhos. Sentia-se muito bem ali. Gostava de passar por entre os livros, olhar para eles e recordar as circunstâncias em que os adquirira ou os lera. A propósito de cada um havia sempre um conjunto de acontecimentos que povoavam a sua vida. Aos poucos foi-se apercebendo que a história escrita dos livros que trazia para casa tinha menos a ver com o livro e as indicações que sabia acerca dele, e mais com um cenário ou um acontecimento que laboriosamente construía à sua volta ou o acaso fizera irromper.

Rodeava, por isso, a aquisição dos livros com momentos singulares de prazer. Um jantar especial, uma ida ao teatro, um pensamento curioso que lhe ocorrera. Sempre que ía à ópera comprava um livro. Ou vários, tudo dependendo do modo como o espetáculo decorrera. Havia uma relação de proporcionalidade direta entre o agrado do desempenho dos cantores líricos e o número de livros que trazia para casa.

Preferia os romances americanos em particular, a literatura anglo-saxónica em geral, especialmente de autores que viveram em ex-colónias do Império Britânico.

Agradava-lhe alguma mentalidade colonial mal disfarçada. E os sentimentos contraditórios que se revelavam em quem, progressista e liberal, assistia à derrocada dos impérios e dos seus valores.

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Porque ele, quando passeava pela cidade, também sentia dessa maneira, como se a cidade tivesse sido invadida por hordas de bárbaros que anunciavam novos e terríveis tempos. Mas não se interessava apenas pela ficção. Comprava alguma poesia. E nas noites chuvosas de inverno deliciava-se com biografias e livros de viagens. Quando reparava nesses livros, muito mais tarde, conseguia lembrar-se perfeitamente da hora tardia a que se deitara e da intensidade daquela chuva naquela noite. Cada livro reconstituía, deste modo, uma constelação de emoções, um momento no percurso da vida do homem, instantes que se dilatavam.

Passava a maior parte do tempo na sua Biblioteca. Um número cada vez maior de horas passadas naquela fortaleza de livros, impedia-o de estar com a família. Mas isso acontecera progressivamente. À medida que a sua biblioteca crescia fisicamente, o seu coração tornava-se mais frio em relação aos que com ele habitavam a sua casa. Encontravam-se às horas das refeições, mas isso ía acontecendo cada vez menos vezes. Frequentemente, comia uma sopa sentado à secretária, enquanto, ao mesmo tempo, deliciado, desfolhava um antigo livro de gravuras da Polinésia, uma raridade do século XVIII, editado pela Sociedade Geográfica de Londres. Ou então, ficava por um chá, um reconfortante chá, e dormia uma horita recostado num enorme cadeirão de couro que ocupava uma exata posição central na Biblioteca. O chá bastava-lhe para a tarde toda.

Quando saía à noite, fazia-o sozinho. Não tinha amigos e talvez fosse possível falar aqui de uma certa auto-suficiência arrogante.

Apenas duas vezes por mês saía com a sua mulher. Íam a um restaurante italiano, invariavelmente pediam o mesmo. Ou melhor, já não pediam, o que lhes diminuía o tempo de espera, os empregados, ao fim destes anos, já sabiam o que o casal ía querer. No princípio, os empregados, simpaticamente, ainda se atreveram com algumas sugestões alternativas, mas acabaram por desistir. Aliás, essas sugestões foram sempre recebidas de uma forma muito desagradável. Um olhar reprovador, a ausência de uma única palavra, surtiram rápido efeito. Ele não queria, de modo nenhum, alterar aquela rotina, conseguindo, desse modo, diminuir o efeito perturbador que tinham essas saídas forçadas.

A Biblioteca proporcionava-lhe uma incrível e bastante serenidade, como se sentisse como um imperador desse mundo onde reinava a sós com a sua memória. E fora do seu mundo sentia-se perdido, desorientado num espaço para o qual nada contribuíra, que encontrara já feito, que obedecia a lógicas que lhe eram completamente estranhas. Nessa espessura nada encontrava que o reconduzisse a si mesmo.

Ele não se revia no mundo exterior à sua Biblioteca, nada ali fora lhe iluminava a memória ou dizia algo sobre si próprio. E isso cansava-o, como se o mundo, ali à sua frente, lhe fizesse um constante apelo à busca de um sentido que ele nem sabia muito bem o que poderia ser. Além disso, bastava-se a si mesmo quando passeava na Biblioteca. A Biblioteca tinha uma luz própria, um cheiro próprio que se desprendia dos livros aparentemente adormecidos. Nada podia substituir o aroma aconchegante dos livros. E a forma como amaciavam a luz. E como, adiantando-se o dia, se revelavam contínuas sombras projectadas pela luz de uma mansarda, avançando geometricamente, avançando e recuando, num bailado rigoroso mas lento.

A Biblioteca acontecera pela sua própria mão. E por isso ela o devolvia a si mesmo. E ele revia-se nas suas formas, pois era o seu tempo, o local onde, recolhido, se reapossava de si mesmo. E à medida que a Biblioteca crescia, mais ela o aproximava de si mesmo, como se a evolução física da Biblioteca, reconstruísse a retrospectiva da sua história. E, avançando no futuro, adornasse mais fielmente o passado.

Afinal, os livros eram os maiores acontecimentos da sua vida ou a eles estavam ligados. Por isso, a história que contava cada um dos livros ficava aquém da história que a eles se ligava como um pedaço de si mesmo.

Adquiria livros todos os dias. E eles acabavam por se arrumar de acordo com o desfile desses dias. No início dispunha os livros tematicamente até que se apercebeu que, sendo tão forte a sua ligação aos livros, seria mais fiel se ele os fosse arrumando pela ordem com que íam surgindo na sua vida e na Biblioteca. Seguia, portanto, um critério cronológico ou, dito de outro modo, afectivo. E quando passeava junto dos livros assim ordenados tinha a nítida sensação de que ía percorrendo o tempo que passou pela sua existência. A viagem por entre os livros era uma viagem pelo tempo, pela sua memória. E quando se demorava diante de uma secção determinada era como se o tempo parasse e tudo ficasse concentrado naquele instante.

E havia alguns anos particularmente intensos da sua vida que se reflectiam quer na quantidade quer no tipo de livros que trouxera de casa. Um desses anos, em que pensara abandonar a vida académica, caracterizou-se pela leitura exaustiva de livros sobre jardins, jardinagem e Wittgenstein.

No ano em que conheceu Paula, sua aluna na faculdade onde ensinava, alterou completamente o tipo de livros que habitualmente comprava e lia. À sua paixão súbita e intensa pela rapariga correspondeu a leitura exaustiva de alguns poetas gregos clássicos e contemporâneos. Aqui, a obsessão por Constantin Kavafis e por tudo o que dizia respeito a esse poeta e a Alexandria foi particularmente notória. Também se interessou por poetas japoneses. E foi nessa altura que releu toda a obra de Jorge Luís Borges.

Leia a Parte 2 deste Conto

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